Fetiche e mercadoria

O texto abaixo é referente à prova de Sociologia que valia 10,0 e eu tirei 3,5. Eu havia me comprometido a deletar este post caso a nota fosse uma m*rda, mas refleti e cheguei a conclusão que serve de referência para o que não se deve fazer. É a vida.

Confesso que estou com uma sensação péssima. A devolutiva da professora teve um tom de ciências exatas, como se a prova deveria ter um caráter de equação matemática. Acho isso no mínimo curioso, é… eu acho que acho demais.

Preciso de um Santo de devoção, urgente!

Beijo, abraço e aperto de mão.
Alê

P.S. Entendo que nada nesta vida é nota 10,0, mas 3,5 é de cair o c* da b*nda.

* * *

Texto sobre a frase: “Esse caráter fetichista do mundo das mercadorias provém, como a análise precedente já demonstrou, do caráter social peculiar do trabalho que produz mercadorias” (O Capital, Karl Marx, p. 199)

Marx diz que a riqueza de uma sociedade é medida pela quantidade de mercadorias que ela possui, isso parece ser verdade, pois as riquezas são calculadas matematicamente pelos PIBs, por exemplo, quanto mais uma região produz, mais rica ela é. Riqueza intelectual, de bem estar ou de satisfação, parecem não ter um aspecto relevante na avaliação de um povo, não possuímos Bolsas de Valores Humanos, possuímos Bolsas de Mercadorias. Nossa época parece ter transformado tudo em mercadoria, desde a força de trabalho até a força dos laços afetivos, o capitalismo nos ensinou isso.

A frase “o trabalho dignifica o homem”, parece existir desde que o mundo é mundo, não há problema algum com relação ao trabalho, o problema estaria na dignidade humana vinculada necessária e prioritariamente ao trabalho, gerador de mercadorias. Há revistas de grande circulação que têm matérias especiais, sob o título “As 100 melhores empresas para se trabalhar”. São impressas em papel nobre, recheadas com gráficos coloridos e estatísticas encantadoras, suas capas são ilustradas com fotos de funcionários felizes, felizes por fazerem parte de empresas que lhes proporcionam massagens terapêuticas, salas de leitura, descanso após o almoço, bônus por produção. Porém essas mesmas revistas não contam a história completa, a história daqueles funcionários que foram demitidos e se suicidaram, ou na melhor das hipóteses, as histórias de depressão, síndromes do pânico, disfunção erétil,  consumo de drogas e álcool. Esses veículos (também mercadorias), nos dão um mundo capitalista e cor-de-rosa.

Aqueles funcionários felizes acreditam ser natural empregar sua força de trabalho após o horário necessário ou nos finais de semana, sentem-se importantes, úteis e necessários, afinal terão bônus, serão recompensados, estarão inseridos, logo, serão aceitos, esse seria o caráter social do trabalho no sistema capitalista.

Socialmente aceitos, dançando a ciranda da produção e circulação das mercadorias, muitos trabalhadores não se percebem enquanto, homens, mulheres, filhos, pais ou mães, não há tempo para isso, estão ao serviço do capital que visa lucro, a valorização do valor, um fim em si mesmo, onde o produto do trabalho é o salário, não o trabalho em si, a arte do trabalho dá lugar à massa de trabalho, sem rosto e sem humanidade.

Como tudo no capitalismo parece ser mercadoria, a humanidade também o seria. “Humaniza-te mercadoria, troca-te por satisfação”, ordenaria o Capital, e se daria o milagre do fetiche que nos redimiria e nos salvaria do que nos tornamos, aprenderíamos a “coisificar” nossos desejos e angústias.

O caráter fetichista do mundo das mercadorias facilita nossas vidas, tem seus meios, qualquer revista nos ensina como deve ser o nosso corpo, rosto, cabelo, roupa, a novela nos diz o que é um mundo perfeito, os jornais nos mostram em quem e no que acreditar e nos intervalo de todos eles a grande mágica acontece, descobrimos que o tempo que não passamos com nossos filhos, pode ser substituído por um brinquedo, a conversa que não tivemos com nossos pais, pode ser relevada por um presente qualquer, a atenção que não demos ao nosso companheiro, pode ser representada por um sapato, uma bolsa, etc, num processo infinito, pois uma das qualidades da mercadoria é a de ser perecível, assim ela logo acabará e poderemos renovar a nossa qualidade de humano, trocando sonhos por mercadorias, pessoas por coisas e pacificamente mediremos a nossa riqueza.

* * *

Sinceramente…

 

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
Esse post foi publicado em FESP. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Fetiche e mercadoria

  1. Halisson Peixoto Barreto disse:

    Alê, não tenho qualquer intenção de avaliar a avaliação da sua, da nossa, professora, mas gostei muito da sua resposta. São reflexões interessantes e que dão conta de aspectos importantes das nossas vidas [controladas, coisificadas, pelo kapital].

    • Alê Almeida disse:

      Ô Halisson, obrigada pelas palavras. Achei que eu estivesse mais por fora do que bunda de índio.
      Juro que minha intenção foi fazer um texto relativo à frase que ela apresentou, mas não deu certo. Peço paciência, porque se eu pedir forças, mato um… rarará.
      Mais uma vez, muito obrigada.
      Bjo,
      Alê

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