Ensaio: Casa Velha, Machado de Assis

Oi Gente,

O trabalho abaixo é referente à minha vã análise da novela “Casa Velha” de Machado de Assis. Eu bem quis fazer um trabalho sociológico, mas ainda não chegou a minha vez, a nota foi 8,0. Paciência, minha nêga ;o(

Beijo, abraço e aperto de mão.
Alê


 

Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Trabalho Temático produzido para o Curso de Graduação em Sociologia e Política
Casa Velha, Machado de Assis

Foram honestos. E isso bastou para que terminasse a história de uma mocinha sem cor, um mocinho com cor, uma senhora monocromática e um padre policromático, assim como Deus.

O dicionário diz que foram honrados, retos, pudicos, justos, dignos de confiança e sérios.

Casa Velha conta uma história de querer, não de ser. As Cores da pele querem ser sérias, as Classes Sociais querem dignidade e confiança, o Amor quer justiça, as Mocinhas querem suspirar pudores, os Mocinhos querem cambalear por caminhos retos, suas Mães querem orar à honradez, Padres Entediados querem clamar castidade diante de um Deus que quer estar em recato.

Lalau, a suposta protagonista, agregada por natureza, era como se fosse da Casa, “uma criatura adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca, mas se o riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no céu pareciam falar por ela aos homens”[i], era como se fosse filha, filha de Da. Antonia.

Da. Antonia, a dona da Casa, dona por natureza, a representação da dona daquele tipo de Casa “governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça”[ii], uniformizada e refém Dela por ofício, ofício de Dona, dona de um filho, Félix.

Félix, o mocinho, filho por natureza, aparentemente altivo e inteligente, “parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira”[iii], e de acostumado a ouvir, quis se fazer ouvir pelo breve amigo, o Cônego.

Cônego, o nosso narrador, homem por natureza e por natureza homem. “Li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei-o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer coisa melhor”[iv], se fez coisa melhor não sabemos, mas quis ser honesto.

* * *

Machado de Assis, nosso autor, oferece sua literatura em forma de pintura, é possível ver o livro, suas cores e a falta delas. Nos faz cúmplices, nos seduz, nos posiciona e depois abandona, para que possamos buscar o que seria o ser de suas palavras, o ser de suas insinuações e finalmente o nosso ser diante de sua arte. 

Nestes casos a literatura satisfaz, em outro nível, à necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade, ajudando-nos a tomar posição em face deles[v].

 Este ensaio procurará nada mais do que o homem procura desde a sua existência: a verdade do ser. Ambição presunçosa, digo antes de você, caro leitor.

Machado de Assis, ambienta esta sua arte no ano de seu nascimento, 1839, é neste ano que Casa Velha está em pé, abrigando o Brasil Escravocrata, sistema de “edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos”[vi] com dois principais grupos de atores e seus respectivos papéis construídos e determinados, o de Escravo e o de Senhor, e um grupo indeterminado, portando com papel a ser construído, o homem branco e pobre, em  nossa história, o agregado, Lalau.

Podemos resumir a história de Casa Velha da seguinte maneira: Da. Antonia, a senhora da Casa, tem um filho natural, Félix, rapaz educado, aparentemente inteligente e com um futuro predestinado de acordo com sua classe social. Lalau, a menina agregada, era como se fosse da casa, que a visitava com freqüência, trazendo consigo sua leveza e juventude, foi educada e praticamente criada por Da. Antonia, que aparentemente lhe tinha muito carinho. Lalau e Félix se apaixonaram, o Cônego, homem das Luzes, que estava à casa em um trabalho intelectual, descobre a paixão e resolve intervir em favor desta. Da. Antonia, de acordo com o seu aprendizado, opõe-se, utilizando-se de uma não verdade, constrói a história de que Lalau e Félix são irmãos, impossibilitando assim a futura união. Sofrimentos, diante dessa informação, passam a nortear a vida dos apaixonados, inclusive do Cônego. Lalau se afasta da casa. O Cônego descobre a intenção de Da. Antonia, intercede novamente, agora junto à Lalau, e esta resolve seguir sua vida, feliz ou não, teria sido honesta. E este é o fim.

* * *

As palavras nos apresentam um romance tradicional, tem a bruxa que faz a mocinha sofrer, tem o mocinho romântico e tem até o mago, mas não tem o “E foram felizes para sempre”, tem a honestidade como fim, o fim de buscar o que se é, portanto não temos um protagonista com traços humanos, temos traços sociais, estáticos e naturalmente ordenados. Assim como nas histórias tradicionais, a mocinha e o mocinho, são os meios para que a bruxa e o mago exerçam seus poderes, e aqui não é diferente.

Um século antes de Casa Velha, foi dito que o homem nasce livre, mas encontra-se sempre aprisionado. Essa “prisão” seria aprendida no processo de educação, tenderia a uma verdade, não isenta de mutação, sendo que ela, no processo da vida, estaria vinculada ao gosto, ao querer e consequentemente a um ser. Machado nos apresenta essas verdades e quereres, lhes dá nomes próprios e neles as possibilidades do ser.

Da. Antonia “nascera dona de casa; […] em todo o ministério do marido apenas duas vezes foi ao paço. […] foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos”[vii]. Essa seria a verdade de Da. Antonia juntamente com algum sentimento por Lalau que “vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D.  Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma coisa, mas deu comigo, e ficou  calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim.  ‘Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e  dar-lhe uma penitência para ver se toma juízo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau’”[viii].

E da monocromia se fazia a cor, e do credo à honra, se fazia a leveza, a partir das travessuras de Lalau. Da. Antonia, dona por natureza, tinha o seu brinquedo[ix], o  seu meio para ser. Como brinquedo, Lalau não era humana, assim, uma vez que não cumprisse o seu papel, atendendo às necessidades de sua dona, poderia ser colocada num canto qualquer e de qualquer maneira.

O Cônego reconhecendo  “que não tinha os dons indispensáveis ao púlpito” confessou-nos que “não acho do momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. Contemplei-a alguns instantes com infinito prazer. Fiei-me do caráter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o resto da pessoa”[x]. Estas eram as íntimas verdades confessadas pelo Cônego, que poderiam ser vivenciadas de fato por Félix que “não tinha certamente um plano de idéias, e apreciações originais; a particularidade dele era a clareza e retidão de espírito precisas para só recolher do que ouvia a parte sã e justa, ou, pelo menos, a porção moderada. Nunca andaria nos extremos, qualquer que fosse o seu partido”[xi].

E da policromia fez-se o direito de colorir o tédio e deu-se a persuasão, a partir da retidão de Félix. O Cônego, homem por natureza, tinha o seu álibi, em nome de Deus, o seu meio para ser. Como retido, Félix não era ator de sua história, assim, uma vez que não era dono de si mesmo, poderia ser vivido por outro.

* * *

Da. Antonia continuaria monocromática, orando à honradez e dona de sua verdade aprendida. O Cônego talvez volte a clamar castidade. Félix seguiu o caminho reto que lhe ensinaram. Se quererão ser o que não são, honestamente não sei.

* * *

Lalau, sem cor, sem papel definido, sem tradições, livre por natureza. Livre para construir a si mesma, para buscar o seu ser, a sua razão de ser e isso não foi apenas um querer.

* * *

Machado, nos deu a mocinha, o mocinho, a bruxa e o mago, nos abandonou e depois nos organizou.

Quer percebamos claramente ou não, o caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos; e, em consequencia, mais capazes de organizar a visão que temos do mundo.

A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo.

Ela [a literatura] não corrompe nem edifica, portanto; mas trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver[xii].

 

Notas 


[i] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 92.

[ii] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 81.

[iii] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 82.

[iv] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 77.

[v] CÂNDIDO, Antonio. “Direito à Literatura”. In: Cândido, Atonio (org.). Vários Escritos. 4ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 2004. p. 180.

[vi] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 78.

[vii] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 81.

[viii] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 92.

[ix] “Logo que a criança deixa o berço”, escreve Koster, que soube observar, com tanta argúcia a vida de família nas casas-grandes coloniais, “dão-lhe um escravo do seu sexo e de sua idade, pouco mais ou menos, por camarada, ou antes, para seus brinquedos. Crescem juntos e o escravo torna-se um objeto sobre o qual o menino exerce os seus caprichos; empregam-no em tudo e além disso incorre sempre em censura e em punição”.
Sobre a criança do sexo feminino, principalmente, se aguçava o sadismo, pela maior fixidez e monotonia nas relações da senhora com a escrava, sendo até para admirar, escrevia o mesmo Koster em princípios do século XIX, “encontrarem-se tantas senhoras excelentes, quando tão pouco seria de surpreender que o caráter de muitas se ressentisse da desgraçada direção que lhes dão na infância”. Sem contatos com o mundo que modificassem nelas, como nos rapazes, o senso pervertido de relações humanas; sem outra perspectiva que a da senzala vista da varanda da casa-grande, conservavam muitas vezes as senhoras o mesmo domínio malvado sobre as mucamas que na infância sobre as negrinhas suas companheiras de brinquedo. Nascem, criam-se e continuam a viver rodeadas de escravos, sem experimentarem a mais ligeira contrariedade, concebendo exaltada opinião de sua superioridade sobre as outras criaturas humanas, e nunca imaginando que possam estar em erro”, escreveu Koster das senhoras brasileiras.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala. 49ª ed. São Paulo: Global, 2004. p. 419, 420.

[x] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 93.

[xi] ASSIS, Machado. “Casa Velha”. In: Claret, Martin (coord.). Coleção a obra-prima de cada autor. 1ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2008. p. 103.

[xii] CÂNDIDO, Antonio. “Direito à Literatura”. In: Cândido, Atonio (org.). Vários Escritos. 4ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 2004. p. 176, 177. (completar)

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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3 respostas para Ensaio: Casa Velha, Machado de Assis

  1. Alê,
    Gostei do texto. Tem qualidade e estilo. E, o que é principal, apresenta a análise da formação social e das gentes a partir da obra literária.
    Para uma aluna da série inicial do curso de graduação está perfeito.
    A nota é só um detalhe. Aliás, o menos importante. Relaxe.
    Um abraço.

    • Alê Almeida disse:

      Professor,

      Seu comentário iluminou a minha segunda-feira. Muito, muito obrigada. M-E-S-M-O.
      No trabalho seguinte (Os Ratos) tive muita dificuldade para costurar as ideias, pois eu achei que aquele meu jeito de escrever era um tanto “sujo” e quis fazer um texto loiro, alto e de olhos azuis, ficou uma m*erda de dar dó. Agora percebo que não dá para mudar a música do meio da dança, só o tempo mesmo.

      Beijo, abraço e aperto de mão, Professor.
      Alê

      P.S. A nota é um detalhe? Já tentei explicar isso para o meu ego, mas o desgraçado é mouco.. rarará.

  2. Rafael Balseiro Zin disse:

    Oi Alê, querida…

    Olha que incrível. Estava eu procurando maiores informações acerca do livro Casa Velha, do Machado de Assis, quando, de repente, encontrei o seu texto. Excelente, em tom ensaístico, muito bem escrito e me deixou mega contente por saber que a autoria é sua. Tenho que fazer uma apresentação desse livro hoje, na aula do Baptistini, e vou me inspirar na sua reflexão. Parabéns. Você é incríveeel!!! Beijocas do Rafa!!!

    http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/c/casa_velha

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