Questão sobre Métodos da História

Oi Gente,

Esta é a questão da prova de História realizada em casa. Valia 4 e eu tirei 4. Também, elaborada em casa, eu tinha obrigação de ter uma boa nota ;o)

Fiquei muito satisfeita, não tanto pela nota, mas porque eu aprendi a aprender e isso foi resultado da didática do Professor.

Em todas as aulas, normalmente, me sinto uma ignorante e tenho vergonha de mim mesma, porém nas aulas de história, não. Acredito que seja porque o professor entenda que se não fôssemos ignorantes, não estaríamos lá. Apenas em suas aulas eu me sentia à vontade para perguntar e isso ajudou muito.

Beijo, abraço e aperto de mão.
Alê

* * *

Identificar quais métodos o autor escolhido (escolhi o Eric Hobsbawm), utilizou em sua obra (A Era das Revoluções). A resposta deveria ser argumentativa.

Resposta:

Eric Hobsbawm, hoje com 93 anos (Alexandria, 9 de Junho de 1917[1]), é considerado um dos historiadores de língua inglesa, mais traduzidos e publicados no Brasil.

Seus livros, notáveis pela abrangência temática e pela qualidade da síntese, foram se tornando, desde a década de 70, leituras obrigatórias nos cursos brasileiros de História. Historiador de formação marxista, tendo estudado em grandes universidades européias, sua obra procurou compreender a História Contemporânea através de momentos chaves, assinalados por tensões e conflitos sociais e que resultaram em revoluções e guerras. [2]

A história contemporânea pode ser identificada como uma ciência, pois apresentaria um objeto e um método para sua pesquisa e análise. A ciência,  dividindo-se em uma pluralidade de ciências ordenáveis, pode ser caracterizada, entre outros, como a cumulatividade e transmissibilidade do saber científico. (SARTORI, 1982, p. 180). Com isso, podemos entender que Hobsbawm, por ser contemporâneo, utiliza-se dos métodos lineares, estruturais e conjunturais, ou seja, a cumulatividade do saber científico e sua erudição, no tratamento histórico, pode ser identificada como uma pluralidade de ciências.

Os métodos utilizados são sutilmente apresentados na introdução da obra:

As palavras são testemunhas que muitas vezes falam mais alto que os documentos. Consideremos algumas palavras que foram inventadas, ou ganharam seus significados modernos, substancialmente no período de 60 anos de que trata este livro. Palavras como “indústria”, “industrial”, “fábrica”, “classe média”, “classe trabalhadora”, “capitalismo” e “socialismo”. […] Imaginar o mundo moderno sem estas palavras […] é medir a profundidade da revolução que eclodiu entre 1789 e 1848, e que constitui a maior transformação da história humana desde os tempos remotos […] ao considerá-la devemos distinguir cuidadosamente entre os seus resultados de longo alcance, que não podem ser limitados a qualquer estrutura social, organização política ou distribuição de poder e recursos internacionais, e sua fase inicial e decisiva, que estava intimamente ligada a uma situação internacional e social específica […] É evidente que uma transformação tão profunda não pode ser entendida sem retrocedermos na história bem antes de 1789, ou mesmo das décadas que imediatamente a precederam (HOBSBAWM, 2009, p. 19, 20).

Ou seja, sua metodologia tem características:

  1. Lineares: coleta de documentos e respectiva “narração” (entendendo que este método é parcial, não tendo como objetivo o seu positivismo  original, simples narração ou ausência de hipóteses preliminares de trabalho, a coleta de dados seria necessária para o melhor desenvolvimento do texto, para provar ou rever o que já foi estudado);
  2. Conjunturais: dados econômicos e seus respectivos impactos sociais.
  3. Estruturais: Análise dos ciclos de longa ou curta duração da vida econômica e seus efeitos sociais, em conjunto com aspectos lingüísticos, antropológicos e demográficos, entre outros que constituem a natureza humana, flexibilizando e refletindo sobre as conclusões alcançadas, com um olhar ampliado da sociedade e/ou do objeto.

* * *

Os capítulos da obra “A Era das Revoluções” são introduzidos por epígrafes:

“Desta vala imunda a maior corrente da indústria humana flui para fertilizar o mundo todo. Deste esgoto imundo jorra ouro puro. Aqui a humanidade atinge o seu mais completo desenvolvimento e sua maior brutalidade, aqui a civilização faz milagres e o homem civilizado torna-se quase um selvagem. A. de Toqueville a respeito de Manchester em 1835” (HOBSBAWM, 2004, p. 49)

“Brevemente as nações esclarecidas colocarão em julgamento aqueles que têm até aqui governado os seus destinos. Os reis fugirão para os desertos, para a companhia dos animais selvagens que a eles se assemelham; e a Natureza recuperará os seus direitos. Saint-Just; Sur La Constitution de la France, Discours prononcé à Ia Convention, 24 de abril de 1793″.  (HOBSBAWM, 2004, p. 83)

Podemos identificar nelas a retórica que chama o leitor à leitura e o método linear (no que diz respeito à citação) que simplifica a compreensão e reforça o apelo ao leitor, pois se fossem apresentados de início dados econômicos, políticos, sociais, etc,  talvez a leitura não sugerisse atração.

As posições que Hobsbawm foi reformulando no tempo indicam um intelectual livre de ortodoxias e que sempre procurou investir contra as mistificações no conhecimento do passado e do presente humanos.[3]

O método linear[4] também é identificado na coleta de dados temporais, porém o autor apresenta que um é o desencadeador de outro, portando a perda da singularidade de fatores. Assim, o método citado passa, ao longo da obra, por metamorfoses, como por exemplo: inverno rigoroso (exemplo linear) + perda de safras (exemplo estrutural) + sofrimento da população (exemplo conjuntural). (HOBSBAWM, 2004, p. 93). Formando assim um conjunto de métodos complementares, que no meu entendimento, é o que caracteriza um estudo historiográfico que possa servir de referência acadêmica. Esse formato de “contar” uma história tem a qualidade de perceber as pessoas e a sociedade, os números e a econômica, os dados e as reflexões, gerando uma hipótese, um objeto, um método, uma verificação e uma conclusão preliminar, respectivamente.

* * *

Hobsbawm afirma-se um historiador de metodologias diversificadas, conversa com o leitor, analisa fatores econômicos, faz raciocínios e reflexões lógicas, não fechando questões:

Traçar o ímpeto da industrialização é somente uma parte da tarefa deste historiador. A outra é traçar a mobilização e a transferência de recursos econômicos, a adaptação da economia e da sociedade necessárias para manter o novo curso revolucionário. (HOBSBAWM, 2004, p. 76)

Seu comércio era duas vezes superior ao de seu mais próximo competidor, a França, e apenas em 1780 a havia ultrapassado. Seu consumo de algodão era duas vezes superior aos dos EUA, quatro vezes superior ao da França. Produzia mais da metade do total de lingotes de ferro do mundo economicamente desenvolvido e consumia duas vezes mais por habitante do que o segundo país mais industrializado (a Bélgica), três vezes mais que os EUA, e quatro vezes mais que a França. Cerca de 200 a 300 milhões de libras de investimento de capital britânico – um quarto nos EUA, quase um quinto na América Latina – traziam dividendos e encomendas de todas as partes do mundo. (HOBSBAWM, 2004, p. 82)

O primeiro e talvez mais crucial fator que tinha que ser mobilizado e transferido era o da mão-de-obra, pois uma economia industrial significa um brusco declínio proporcional da população agrícola […] e um brusco aumento da população não agrícola (isto é, crescentemente urbana), e quase certamente (como no período em apreço) um rápido aumento geral da população, o que portanto implica, em primeira instância, um brusco crescimento no fornecimento de alimentos, principalmente da agricultura doméstica – ou seja, uma “revolução agrícola”. (HOBSBAWM, 2004, p. 77)

A percepção da síntese dos métodos adotados podem ser verificadas por certos “cuidados” (entre outros) presentes na obra: a palavra povo entre aspas (p. 91); a palavra revolução em caixa alta ou baixa, de acordo com o que quer dizer (p. 52); entende o processo revolucionário (p. 51); faz críticas aos métodos anteriores (p. 51); utiliza metáforas (p. 72); faz recortes no tempo (p. 75); nos apresenta atores políticos, até então desconhecidos (p. 102); e são utilizadas várias notas de rodapé que explicam, sustentam o texto e caracterizam os métodos:

[sobre uma comparação quanto à dependência do exército – método linear (dados temporais)] A Quarta República francesa, incapaz de resolver a questão da Independência da Algéria, foi derrubada pelo “golpe do 13 de maio” (1958) pelo general Gaulle, outrora chefe da Resistência (1940-1945) e criador da atual Quinta República. (HOBSBAWM, 2004, p. 109)

[sobre a expansão industrial – método das conjunturas] A indústria automobilística moderna é um bom exemplo disso. Não foi a demanda de carros existentes na década de 1890 que criou uma indústria de porte atual, mas a capacidade de produzir carros baratos é que fomentou a atual demanda em massa. (HOBSBAWM, 2004, p. 55)

[sobre o descontentamento dos trabalhadores – método das estruturas] Grupos de trabalhadores ingleses que, entre 1811 e 1816, se rebelaram e destruíram máquinas têxteis, pois acreditavam que elas eram responsáveis pelo desemprego […] (HOBSBAWM, 2004, p. 65)

* * *

O ofício de cientista parece não ser independente do “gosto”, o próprio Hobsbawm observa que todos os historiadores “contribuem, conscientemente ou não, para a criação, demolição e reestruturação de imagens do passado que pertencem não só ao mundo da investigação especializada, mas também à esfera pública onde o homem atua como ser político.”. Assim, como Marxista declaro, é possível que tenha defendido suas ideias no contexto histórico das Revoluções.

Foi somente na década de 1830 que a literatura e as artes começaram a ser abertamente obsedadas pela ascensão da sociedade capitalista, por um mundo no qual todos os laços sociais se desintegravam exceto os laços entre o ouro e o papel-moeda. (HOBSBAWM, 2004, p. 49, 50)

Do ponto de vista dos capitalistas, entretanto, estes problemas sociais só eram relevantes para o progresso da economia se, por algum terrível acidente, viessem a derrubar a ordem social. Por outro lado, parecia haver certas falhas inerentes ao processo econômico que ameaçavam seu objetivo fundamental: o lucro. (HOBSBAWM, 2004, p. 66)

* * *

No prefácio de sua obra “Era dos Extremos”, Hobsbawm nos dá uma pista sobre o seu trabalho: “A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. O que dificulta a compreensão, no entanto, não são apenas nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou. As primeiras são fáceis de superar, pois não há verdade no conhecido mas enganoso dito francês tout comprendre c’est tout pardonner (tudo compreender é tudo perdoar)”.


[1] Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em:

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Eric_Hobsbawm&gt;. Acesso em: 12 jun. 2010.

[2] SANTOS, dos Afonso Carlos Marques (Prof. Titular de Teoria e Metodologia da História da UFRJ). Eric Hobsbawm: a História como síntese interpretativa. Disponível em <http://www.ifcs.ufrj.br/humanas/0017.htm&gt;. Acesso em: 22 mai. 2010.

[3] SANTOS, dos Afonso Carlos Marques (Prof. Titular de Teoria e Metodologia da História da UFRJ). Eric Hobsbawm: a História como síntese interpretativa. Disponível em <http://www.ifcs.ufrj.br/humanas/0017.htm&gt;. Acesso em: 22 mai. 2010.

[4] Vide conteúdo do item nº 1 da página nº 2.

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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