Paper: Olhares paulistanos, sensações nordestinas

Oi Gente,

Segue abaixo o paper apresentado, ou melhor, interpretado, no II Seminário de Iniciação Científica da FESPSP. A apresentação foi debatida pelo Prof. Ms. Daniel de Lucca Reis Costa (UNICAMP) e mediada pela Socióloga Camila Nastari. Foi de “suar a tanga”, fiquei muito nervosa, mas valeu a pena.

Ainda não sei qual rumo tomará esta pesquisa, ou se tomará algum rumo. Sei que por conta da análise do Prof. Daniel, refleti muito sobre o meu objeto, mas principalmente por uma substituição aparentemente muito simples: substituir o “Por que” pelo “Como”. Enfim “quem tem fé não morre pagão”.

Beijos, abraço e aperto de mão.

Alê

* * *

 

Olhares paulistanos, sensações nordestinas

 

Alessandra Felix de Almeida

dona@alealmeida.com / alefelix@terra.com.br

 

Resumo: O presente artigo trata do olhar dos paulistanos quanto aos migrantes nordestinos, as respectivas sensações destes últimos e como o preconceito é percebido por ambos. A maioria dos migrantes nordestinos, presentes neste artigo, migraram para a cidade de São Paulo entre anos 1960 e 2000, nesta delimitação temporal, será observada a relevância entre o papel do preconceito e dos objetivos da migração, qual deles seria mais importante para este migrante que teria ou não perdido suas raízes, estaria ou não integrado na cidade onde não nasceu.

Palavras-chave: nordestino, paulistano, preconceito, migração.

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1. Introdução

O maior fluxo da migração nordestina para a cidade de São Paulo em razão do aumento das ofertas de emprego ocorreu entre as décadas de 60 e 80 (WIKIPÉDIA, 2010), no ano 2000 os nordestinos representavam 19,62% de toda a população da cidade (TERRA, 2010), uma faixa significativa no que diz respeito ao consumo, seja ele de assistência, bens ou cultura, esta significação contradiz os últimos episódios relativos ao preconceito manifestado pelas redes sociais que ganharam notoriedade nos mais importantes veículos de comunicação, podem ser ações isoladas e que não representem o pensamento total dos paulistanos, porém uma vez que são iluminadas tomam corpo, pedem atenção e despertam curiosidade. Afinal, quem são, como estão, o que fazem e quais são as sensações do migrante quanto a esses olhares da população paulistana?

Delimitando o campo de observação na migração do período de 1960 a 2000, sem grandes dificuldades foram encontrados alguns personagens desta história.

Apesar do formato estrutural de artigo, o texto a seguir tem estilo ensaístico, pois a base dele está em conversas – sem anotações ou gravações –, descompromissadas com alguns atores de parte da história da migração nordestina para São Paulo, que de maneira muito atenciosa, leve e gentil contaram suas vidas. Foi efetuado um levantamento bibliográfico a fim de fundamentar a questão do preconceito no Brasil.

2. Cabras Valentes

Seu Ferreira é um ascensorista que está em São Paulo há 40 anos, mora em casa própria e tem mais duas que aluga, seus dois filhos têm curso superior, sendo que um deles está fazendo mestrado, “é um brancão alto, muito namorador”, vai de avião à Pernambuco todos os anos e alguns meses antes da viagem, compra tecidos de seda principalmente os estampados com bolinhas, “sou doido por uma bolinha”, com eles sua esposa confecciona camisas, disse ainda que não abre mão de uma calça branca com o vinco bem marcado.

Da. Maria trabalha como faxineira desde que chegou a São Paulo, há 42 anos, mora em casa própria, obtida através de mutirão, contou que a casa está muito bonita, colocou cerâmica em todos os cômodos de um sobradinho muito “ajeitado”, sua última conquista foi o telhado da garagem, foram 20 anos de luta, que valeu a pena e está muito orgulhosa, recentemente comprou um carro usado com o qual a filha a leva ao trabalho todos os dias, pois já está muito cansada para pegar condução, essa mesma filha, a caçula de cinco irmãos, está no terceiro ano do curso universitário de estética.

Zé Maria quando chegou à cidade trabalhou como cobrador de ônibus e nos Correios, até que se encontrou na profissão de cozinheiro, sua carreira em São Paulo acabou de completar 35 anos, mora em casa própria, tem carro, é proprietário de uma pequena fábrica de salgados que são fornecidos aos bares e lanchonetes do bairro onde mora, para que a logística da produção e entrega sejam eficientes, acorda todos os dias às três horas da manhã e todos os integrantes da família participam do processo, seus três filhos têm curso superior e ainda assim continuam ajudando o pai.

Hoje em dia Seu Toninho acumula as funções de ascensorista e faxineiro, mas quando chegou a São Paulo, há 45 anos, tinha três empregos. Mora em casa própria, vai de avião à Pernambuco todos os anos visitar seu pai que agora está muito doente, “meu paizinho está tão velhinho”. Foi integrante da bateria da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde por muitos anos, mas já não toca mais, contou orgulhoso que agora é convidado e participa da ala “Velha Guarda”, seus dois filhos têm curso superior e moravam sozinhos, porém como ficou viúvo recentemente os filhos voltaram a morar com ele, mas disse que já está “com o saco cheio”, porque ficam perguntando a todo momento se ele está bem e ele não gosta de “paparicos”.

Edmilson é porteiro e garçom, está em São Paulo há 15 anos, tem casa própria, vai de avião à Paraíba todos os anos, sua filha de dois anos está em creche particular, ele adora forró, cantou uns trechinhos durante a conversa que tivemos e perguntava entre um trecho e outro “Conhece esta? E está, conhece?” Porém, depois que casou deixou de ir aos bailes, “minha mulher é uma fera”.

Mauro trabalha como ascensorista e garçom, há 20 anos está em São Paulo, mora em casa própria, tem carro e moto, vai de avião à Paraíba todos os anos, recentemente comprou uma casa para sua mãe em sua terra natal, disse que gosta muito de namorar e por conta disso recentemente foi surpreendido com uma filha, agora com 11 anos, disse que ficou confuso, mas não fugirá da sua responsabilidade de pai, conversou com a menina apenas uma vez e notou que “a bixinha precisa dele”.

Ronaldo é mestre de obras, mas começou como ajudante há 15 anos em São Paulo, mora em casa própria construída por ele mesmo, tem carro e moto, manda dinheiro todos os meses para a mãe que está na Bahia, gostava de uma cervejinha com os amigos, mas depois que casou “deu uma diminuída” porque se ele beber, contou sorrindo, sua esposa o deixa de castigo.

Da. Jô mora em São Paulo há 48 anos, trabalhou como costureira durante muito tempo, tanto que nem se lembra, lembra apenas que “dormia e acordava em cima da máquina de costura”, agora é dona de casa e seu marido, embora não precisasse, era guarda noturno até o ano passado, agora parou de trabalhar porque está com Mal de Parkinson e isso “está acabando com ela”. Teve quatro filhos, dois têm curso superior e os outros têm lojas de roupas em bairro nobre, foram eles que compraram, mobiliaram e pintam sua casa todos os anos na época do Natal.

Carlos é um empresário bem sucedido, chegou a São Paulo na década de 70, mora em casa própria, tem chácara que já foi utilizada como locação de novela da Rede Globo, tem fazenda, é proprietário de uma tecelagem, possui carro importado ano 2010/2011, três lojas de tecidos e uma de roupas, seus dois filhos têm curso superior e trabalham com ele, está muito satisfeito e fica espantado com a atual tecnologia, mostrou seu celular de última geração e contou que com ele administra de longe praticamente todas as atividades de sua produção, faz planilhas, envia e-mails, faz pedidos “é uma maravilha”.

Seu Joaquim é ascensorista há 30 anos, mas quando chegou a São Paulo, há 52 anos, acumulava diversas funções, durante muito tempo dormia apenas três horas por noite, mas valeu a pena, conseguiu comprar sua casa na cidade e acabou de construir uma na Praia Grande, colocou seus dois filhos na universidade e só não está mais feliz porque o reumatismo e o diabetes estão “judiando” muito dele. 

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3. Quem tem fé não morre pagão

O transcrito acima trata-se de sondagens obtidas por meio de conversas cujo objetivo era identificar como definiam a si mesmos os próprios nordestinos migrados a partir da década de 60 e a presença do preconceito sentido por eles. Confesso meu constrangimento quando do questionamento quanto ao preconceito. Explico: eles apresentavam bem estar, demonstravam estarem satisfeitos com a vida que têm e com os objetivos alcançados. Mas perguntei assim mesmo, a resposta de todos eles foi precedida por um silêncio, um levantar de sobrancelhas, uma torcida de boca e finalmente a verbalização “tem sim, eu nunca sofri, mas sei de quem já sofreu”.

Nos relatos foi identificado um tipo ideal de migrante – há mais de 30 anos na cidade –, aquele que se deu o direito de sair de sua terra em busca de uma vida melhor, não perdeu o foco de seus objetivos, independente do que pensassem ou falassem deles, trabalharam muito e ainda continuam trabalhando, porém não são súditos de seus ofícios, não teriam o trabalho como um dever da vocação, encontrada por Weber em a “Ética Protestante”, assim como também não estariam vestidos com a camisa de força do capitalismo moderno inspirado pelo “espírito do capitalismo” diagnosticado pelo mesmo autor. Não aspiraram por posições profissionais ou intelectuais de expressão social, suas necessidades eram outras, aquelas básicas que proporcionam manter a vida viva, contam suas histórias com orgulho, satisfação e agradecem a Deus. Do ponto de vista da modernidade urbana, seus objetivos são simples, porque encaram a vida com simplicidade de maneira tradicionalista, comer e dormir bem lhes bastam e talvez seja isso que incomode tanto alguns paulistanos.

Bem ou mal, certo ou errado, seja lá o que entendemos por um ou por outro, o fato é que o preconceito existe – a ser demonstrado no decorrer deste artigo – e para que entendamos o significado do preconceito, que por ora apresento do ponto de vista dos dicionários convencionais, preconceito é “conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados; opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão; superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se pratiquem; atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos; atitudes discriminatórias incondicionadas contra pessoas de outra classe social; manifestação hostil ou desprezo contra indivíduos ou povos de outras raças; intolerância manifesta contra indivíduos ou grupos que seguem outras religiões.” (MICHAELIS-UOL, 2010) 

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4. Sem bestagem

A pesquisa publicada por Carlos Alberto Almeida (2007) no livro “A Cabeça do Brasileiro”[1], demonstrou que a região, no que diz respeito ao preconceito, é quase tão importante quanto a cor, no caso do “parecer nordestino”, quanto mais nos extremos da escala branco e preto menos aparência nordestina é identificada, assim o nordeste é mais pardo (ALMEIDA, 2007: 222), uma prova de nossa miscigenação, que segundo Gobineau (1816 – 1882) “as grandes raças que contribuíram para a formação da humanidade não eram tão desiguais em valor absoluto, para ele, a tara da degenerescência se ligava mais ao fenômeno da mestiçagem”. (STRAUSS, 1976: 328, 329). Essa teoria estaria ainda presente em nossos inconscientes? Para Sérgio Buarque (2008) sim, “a imagem de nosso país que vive como projeto e aspiração na consciência coletiva dos brasileiros não pôde, até hoje, desligar-se muito do espírito do Brasil Imperial” (HOLANDA, 2008: 177) e disse mais:

Pode dizer-se, realmente, que pela importância particular que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos semelhantes no tempo e no espaço, devem os espanhóis e portugueses muito de sua originalidade nacional. Para eles, o índice do valor de um homem infere-se, antes de tudo, da extensão em que não precise depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes – e as virtudes soberanas para essa mentalidade são tão imperativas, que chegam por vezes a marcar o porte pessoal e até a fisionomia dos homens. (HOLANDA, 2008: 32)

 “As pessoas se classificam a partir do fenótipo, ou seja, a partir da aparência física” parecemos ricos, pobres, inteligentes ou não, um “preconceito de marca, calcado no aspecto físico de cada um”. (ALMEIDA, 2007: 215)

A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber. (RIBEIRO, 1995: 24, 25)

 Quanto à ocupação profissional, Almeida (2007) apresentou que as profissões de prestígio elevado são associadas aos brancos, à medida que o prestígio diminui, pardos, nordestinos brancos e pretos são mais mencionados (ALMEIDA, 2007: 227). Embora o preconceito contra pretos seja grande “os pardos são mais malvistos do que os pretos, são eles que detêm os menores percentuais em todos os atributos positivos”. (ALMEIDA, 2007: 228)

Ainda em Almeida, confirmando as interpretações de DaMatta, foi demonstrado que o brasileiro médio tem uma visão de mundo hierárquica (ALMEIDA, 2007: 75), podemos perceber que a expressão “cada macaco no seu galho” que representa que cada qual deve saber o seu lugar na sociedade e se comportar de acordo com ele, caminha de mãos dadas com o “você sabe com quem está falando?” que representa que cada um deve desempenhar o papel determinado por sua condição social. (ALMEIDA, 2007: 75). Toda hierarquia funda-se necessariamente em privilégios (HOLANDA, 2008: 35), o patrão será tratado como patrão e o empregado como empregado mesmo fora das relações de trabalho. (ALMEIDA, 2007: 79) 

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6. Olhando no caroço dos olhos

Os pardos, conforme demonstrado pelas pesquisas de Almeida (2007) são identificados como nordestinos, sendo que estes não têm profissões de prestígio, são frutos da miscigenação, trazem a marca da desigualdade, do que não deu certo e do que corromperia a “pureza” das etnias, foi demonstrado ainda que no Brasil possuímos uma visão hierárquica e com isso não queremos nos misturar, estes mesmos nordestinos, sejam pardos, pretos, brancos ou rajados, com variados formatos de cabeças e diversas estaturas, fazem parte do povo brasileiro, com seus direitos, assim como todos os outros, assegurados pela Constituição da República Federativa do Brasil que em seu poético artigo 5º garante que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. (PLANALTO, 2010)

É preciso agora apresentar algumas características do nordeste e do nordestino – longe de levantar uma bandeira ou gerar um preconceito às avessas – para que possamos fazer equações com as informações descritas acima.

Nosso atual presidente da República, os presidentes da Petrobras e da Eletrobrás, o responsável pela chegada da televisão no Brasil, diversos escritores, cineastas, atores, artistas plásticos, músicos, são nordestinos. A maior parte da cultura nacional consumida pelos brasileiros é de origem nordestina. O nordeste é o segundo maior colégio eleitoral, é a região brasileira que possui o maior número de estados, foi o berço da colonização portuguesa no país, abrigou a primeira capital do Brasil, cidades nordestinas estão recebendo reconhecimento nacional e internacional pelos seus pólos, centros e institutos tecnológicos, o Porto Digital (desenvolvimento de Softwares), em Recife, é reconhecido como o maior parque tecnológico do Brasil em faturamento e número de empresas, o Instituto Internacional de Neurociências de Natal foi idealizado pelo neurocientista Miguel Nicolelis considerado um dos 20 mais importantes neurocientistas em atividade no mundo, Salvador possui o Centro de Biotecnologia e Terapia Celular, tido como o mais moderno e avançado centro de estudos de células-tronco da América Latina, milhões de turistas desembarcam nos aeroportos nordestinos, patrimônios culturais da humanidade também estão lá, abundância em folclore, artesanato, literatura, música, e este artigo tem limite de páginas (WIKIPÉDIA, 2010). Há problemas sociais também, assim como em todas as regiões brasileiras, o Nordeste é a região mais pobre do Brasil, com os piores indicadores socioeconômicos do país (PNUD, 2010).

Quanto à migração nordestina para São Paulo

a partir do século XIX, os nordestinos foram direcionados para o Sudeste, especialmente para São Paulo que liderava o processo de industrialização no país. Além das indústrias, a lavoura do café também precisava de trabalhadores para substituir a imigração estrangeira, cuja entrada foi restringida por legislação federal. O grande fluxo migratório para São Paulo provocou um crescimento acelerado da população, aprofundando uma tendência que vinha-se observando: o da favelização. Os nordestinos são apontados como culpados pela explosão demográfica da cidade, causadores da “poluição” paulistana. É um modo de ver o nordestino, de forma intolerante e seletiva, que nega as condições estruturantes do crescimento: a cidade aumentou em habitantes, mas aumentou também em riquezas, não estabelecendo vínculos entre os dois crescimentos. (GALHARDO, 2007: 3, 4, 5)

 Ainda hoje é possível perceber a divulgação do preconceito entre os paulistanos, seja nas redes sociais, nas ruas, nas conversas de botequim. Do ponto de vista dos preconceituosos: fez bobagem, está mal vestido, jogou lixo no chão? É um baiano, é uma baianada só. O recente espasmo etnocêntrico publicado na rede social Twitter, quanto ao resultado da eleição presidencial de 2010, o manifesto virtual “São Paulo para os Paulistas”, as comunidades xenofóbicas, a representação do nordestino na TV, principalmente nas telenovelas, como empregados domésticos e pertencentes a classes sociais economicamente menos favorecidas, as manchetes de jornais que noticiam o nordeste principalmente quanto aos fenômenos naturais, Carnaval e turismo, demonstram um produto criado, um estereotipo do nordestino, um ser mitológico detentor de qualidades negativas e de poderes desorganizadores que de alguma maneira está presente em nossas mentes.

De qualquer maneira o preconceito, ainda que a passos lentos, não tem passado desapercebido pelos nossos representantes no legislativo, o caso do Twitter demonstra esse fato, rapidamente foram tomadas medidas amparadas por leis, para que o episódio fosse tratado como um crime. Assim, com olhares otimistas, é possível que a longo prazo passemos do estado de heteronomia para autonomia[2].

Aconteceu muita coisa desde aquela “explosão” demográfica, a cidade de São Paulo, cresceu em todos os sentidos, negativos e positivos, sentidos complementares talvez, o fato é que a população vinda através de pau-de-arara, é outra, além de contribuir para o crescimento da cidade, construíram suas vidas, compraram suas casas, colocaram seus filhos na universidade, aquele retirante não representaria a totalidade dos nordestinos residentes em São Paulo e aquele Nordeste miserável também já não é mais o mesmo, porém os veículos de comunicação, o meio no qual obtemos informações, insistem em propagar isso. Estariam os paulistanos condicionados a esse preconceito? Por que não perceberiam as transformações ocorridas no período? Quais são os olhares?

O preconceito entendido como uma “atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos” seria o que melhor se encaixaria neste artigo. Teriam alguns  paulistanos entendido que todo nordestino é pardo, que pardo é mistura e isso não daria certo, talvez sintam saudades do tempo do Brasil Imperial, onde cada “macaco ficava no seu galho”, que o valor de alguém é condicionado pela medida da necessidade de ajuda de um outro, que os pardos nordestinos não têm profissões de prestígio, que deve-se se respeitar a hierarquia, utilizando o pronome Senhor, mas principalmente a expressão Sim Senhor. À medida que o preconceito fosse emocional seria aceitável a desconsideração dos artigos da Constituição do Brasil, dos avanços tecnológicos do nordeste, sua representatividade cultural, histórica e social, por outro lado, considerando que o preconceito também pode ser entendido como um “conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados”, seria o preconceito partícipe de um processo destinado ao fim, pois segundo as pesquisas de Almeida (2007), embora a visão média do brasileiro seja hierárquica, há também as mais igualitárias e à medida que aumenta a escolaridade média há uma diminuição do conceito de hierarquia (ALMEIDA, 2007: 75), as pessoas de escolaridade mais alta tendem a ser menos hierárquicas do que as de escolaridade mais baixa (ALMEIDA, 2007: 91). 

* * * 

6. “Paulista é gente boa, mas é de lascar o cano, eu nasci no Pajeú, mas só me chamam de baiano”[3]

O processo migratório pode apresentar a perda de raízes e referenciais culturais:

O migrante perde a paisagem natal, a roça, as águas, as matas, a caça, a lenha, os animais, a casa, os vizinhos, as festas, a sua maneira de vestir, o entoado nativo de falar, de viver, de louvar a seu Deus. Suas múltiplas raízes se partem. Na cidade, a sua fala é chamada de “código restrito” pelos linguistas, seu jeito de viver, “carência cultural”, sua religião, crendice ou folclore. Seria mais justo pensar a cultura de um povo migrante em termos de desenraizamento.(BOSI, 2003: 117)

 Porém, as conversas com os nordestinos descritas no início deste artigo, não expressam integralmente este desenraizamento, as pessoas que estão na cidade há mais de 30 anos, apresentam uma considerável integração no contexto da cidade além de visitarem anualmente seus conterrâneos, as que estão há menos tempo, contaram sorrindo que frequentam forrós, fazem churrascos aos finais de semana ao som de músicas de sua região, não apresentam a mesma integração, que talvez seja atingida no decorrer do tempo. Não foi percebida, nas conversas, nenhuma tristeza ou arrependimento por terem migrado, muito menos o preconceito que sofreriam, aparentemente essas pessoas nem se dão conta do olhar que alguns paulistanos têm sobre elas, ou pelo menos não se importam com isso. Parece que o preconceito é muito mais um problema para o preconceituoso do que para o objeto do preconceito, os primeiros vão deste a formação de grupos xenofóbicos que chegam a cometer homicídio até os indivíduos que utilizam seu tempo alimentando blogues e sites em nome de uma causa preconceituosa.

Há uma infinidade de estudos que explicam, provam por A + B os porquês do preconceito no Brasil, nossa herança civilizadora dizem uns, o avanço do capitalismo dizem outros, até questões de pré-disposição genética poderiam ser utilizadas, mais tantas quantas teorias possíveis, porém a vida segue e a Terra continua a girar com ou sem preconceito.

Os nordestinos com os quais conversei, desconsiderando o empresário Carlos, não têm profissão de prestígio, são pardos e parecem não estarem preocupados em ficar em galhos que lhe deram ou que pensam que deram, muito menos querem ocupar o topo de alguma hierarquia, parecem perceber o direito que têm enquanto brasileiros, migraram e migram mesmo, porque querem que suas vidas sejam melhores, este parece ser o foco. Eles estão satisfeitos com os filhos na universidade, com a conquista da casa própria, em dançarem forró, comerem churrasco e saber que há um Deus que vela por eles, parecem não terem se desencantado com o mundo.

Quais são suas sensações quanto ao olhar dos paulistanos? Teremos que pesquisar mais profundamente, porém a princípio, embora saibam que existe o preconceito, não demonstram perder o sono com isso, assim como alguns paulistanos empenhados em demonstrar e publicar o seu etnocentrismo.

Até este momento é verdade que o preconceito existe, as pesquisas apresentadas neste artigo apontam esses indícios, é verdade também que ainda temos uma visão hierarquizada do mundo, que pardos são vistos com menos características positivas do que brancos ou pretos, mas

o senhor… mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. (ROSA, 2001: 39)

 A continuação deste trabalho procurará observar o quanto e como os nordestinos migrantes e o paulistanos se adaptam e se percebem entre si. Quero acreditar que realmente as pessoas não estão sempre iguais e ainda não foram terminadas, pois se já estivessem essa vida não teria a menor graça. Assim, se a migração fosse vista como uma música, como seriam afinados os seus instrumentos para que a melodia fosse harmoniosa, quais seriam os pulsos e repousos de seus compassos?

* * *

Referências

Bibliográficas:

ALMEIDA, Alberto Carlos. A cabeça do brasileiro. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. 11ª ed. Brasília: UNB, 1998.

BOSI, Ecléia. O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social. São Paulo: Atelie Editorial, 2003.

HOLANDA, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

GALHARDO, Soledad. Os Conterrâneos Nordestinos na Metrópole de São Paulo: Seus Símbolos, sua Memória e seus Mitos – Trabalho apresentado no III ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, realizado entre os dias 23 a 25 de maio de 2007, na Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil pelo Centro de Estudos Latino-americanos sobre Cultura e Comunicação – CELACC/ECA/USP

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p 39

STRAUSS, Claude Lévi. Raça e História in. Antropologia Estrutural Dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976. p 328, 329

Eletrônicas:

Dicionário de Português Michaelis UOL
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=preconceito. Acesso em 22 de novembro de 2010.

Wikipédia, a enciclopédia livre – Migração Nordestina
http://pt.wikipedia.org/wiki/Migra%C3%A7%C3%A3o_nordestina. Acesso em 22 de novembro de 2010.

Terra – SP 450 anos
http://sp450anos.terra.com.br/interna/0,,OI254568-EI2551,00.html. Acesso em 02 de dezembro de 2010.

Wikipédia, a enciclopédia livre – Região Nordeste do Brasil
http://pt.wikipedia.org/wiki/Regi%C3%A3o_Nordeste_do_Brasil. Acesso em 22 de novembro de 2010.

Presidência da República – Casa Civil – Subchefia para Assuntos Jurídicos
 http://www.pnud.org.br/gerapdf.php?id01=3038. Acesso em 30/11/2010.

PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
http://www.pnud.org.br/gerapdf.php?id01=3038. Acesso em 02/12/2010.


[1] O objeto desta pesquisa foi a verificação quantitativa das hipóteses do antropólogo Roberto DaMatta que identificou o Brasil como hierárquico, familista, patrimonialista, encaixando-se em vários outros adjetivos que significam arcaísmo e atraso, sua chave analítica foi a igualdade versus hierarquia. A introdução do livro A Cabeça do Brasileiro (Record, 2007: 25) traz como subtítulo “Os dois Brasis: a luta entre o arcaico e o moderno”, Almeida, através da Pesquisa Social Brasileira, demonstra que o Brasil “não é um bloco monolítico, mas uma sociedade profundamente dividida. O Brasil, na verdade, são dois países muito distintos em mentalidade. Dois países separados, num verdadeiro apartheid cultural”.

[2] Segundo Bobbio (1998) a autonomia está vinculada à vontade moral, onde o dever não é derivado de um fim qualquer, mas pelo respeito à lei moral. É considerada como a faculdade de dar leis a si mesmo através de uma vontade livre, ou uma lei moral que não se deixa determinar por inclinações ou cálculos interessados. Consiste na submissão do indivíduo à vontade de terceiros ou de uma coletividade. Em contra-partida a heteronomia realiza-se quando a vontade é determinada por um fim não universal, é determinada por um objeto. A heteronomia seria a vontade jurídica ou do Direito (legalidade), as leis que recebemos, diferenciando-se da vontade moral, pois esta vontade seria determinada pelo respeito à lei, que é imposta ao indivíduo, e exterior a ele. A vontade moral é autônoma, em oposição à vontade jurídica, que seria heterônoma.

[3] Trecho da música “Meu Pajeú” de Luiz Gonzaga.

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