Teoria Tradicional e Teoria Crítica

ATENÇÃO: Eu não sei fazer resenha crítica, o texto abaixo era para ser uma, mas acho que não deu certo. Assim, na melhor das hipóteses, mais se parece com um resumo, ou mais francamente: uma colcha de retalhos.

HORKHEIMER, Max. Teoria Tradicional e Teoria Crítica. In: BENJAMIN, Walter, HORKHEIMER, Max, ADORNO, Theodor W., HABERMAS, Jürgen. Textos escolhidos. (Col. Os Pensadores, Vo. XLVIII).  São Paulo, Abril Cultural, 1983. P 117-161

O autor inicia seu texto apresentando o termo teoria, conhecida como Teoria Tradicional, como um saber acumulado que permite caracterizar os fatos e analisá-los o mais minuciosamente possível no campo das ciências naturais, o que corresponde às áreas da matemática, física ou química, dirigindo-os a generalizações, dispensando seus aspectos particulares, oferecendo assim uma visão exterior da vida geral, descartando a formulação de abstrações ou ponderações acerca de conceitos fundamentais, seria um olhar científico de cima para baixo.

As ciências naturais, meios da Teoria Tradicional, estão vinculadas ao aparelho social, de maneira a reproduzir e autopreservar o existente. A exemplo da divisão social do trabalho, a Teoria Tradicional concebe e classifica os fatos em ordens conceituais, sendo seus resultados “matemáticos”, portanto sem aparente possibilidade de contestação, tendem a manifestações de dominação, o dominado aceita a dominação e o dominador absorve o direito de dominar. “Para o cientista a tarefa de registro, modificação da forma e racionalização total do saber a respeito dos fatos é sua espontaneidade, é a sua atividade teórica” (HORKHEIMER, 1983: 131), o saber vigente é apenas aplicado aos fatos, em um mundo concebido de forma tradicional que é o que existe e é o que dever ser aceito. Neste sentido Horkheimer aponta a fragilidade do exemplo acima, quando afirma que a vida da sociedade é o resultado da totalidade do trabalho, de todas as suas nuances, assim, mesmo que a divisão do trabalho não tenha um funcionamento satisfatório para o trabalhador, dentro dos moldes da produção capitalista, ela não pode ser vista como um todo autônomo e independente, ela é constituída por particularidades, conforme a maneira como a sociedade se defronta com a natureza e se mantém nas formas dadas (pela Teoria Tradicional), apresentando assim momentos do processo de produção social, tais momentos devem ser levados em consideração, caso contrário os resultados dos fatos, analisados pela da Teoria Tradicional, tenderão a uma categoria coisificada e portanto ideológica.

O autor descreve os homens não como um mero resultado da história, suas qualidades sensoriais estão intrinsecamente vinculadas a todo processo da vida social, porém os fatos que os sentidos fornecem aos indivíduos são pré-formatados de maneira dupla: histórico do objeto percebido e histórico do órgão perceptivo, ambos não são naturais, são ensinados, tornado os homens receptivos e passivos, inautênticos. O saber absorvido está sempre contido na práxis social, o indivíduo normalmente aceita as determinações pré-estabelecidas e vive de maneira a reforçá-las. “No modo burguês de economia a atividade da sociedade é cega e concreta, e a do individuo é abstrata e consciente […] a vida do todo resulta numa figura deformada.” (HORKHEIMER, 1983: 133, 135)

Em contra-partida aos métodos frágeis e portanto ineficazes da Teoria Tradicional, Horkheimer apresenta questões relevantes para a análise da sociedade e do indivíduo, experiências, habilidades, costumes e tendências, constituiriam uma teoria mais legítima,  uma Teoria Crítica, que representaria o todo, diverso, harmônico e consequentemente mais justo. As pré-formatações não são aceitas pela Teoria Crítica, usando novamente o exemplo da divisão do trabalho, aqui ela a considera uma atividade cega e determinada pelas diferenças sociais, frutos da ação humana e subordinada a objetivos racionais, a conjuntura atual (do texto) passa a ser uma contradição consciente, pois aceita o modo de economia e o todo cultural como produto do trabalho humano a serviço do Capital. Na Teoria Crítica “a razão não pode tornar-se ela mesma, transparente enquanto os homens agem como membros de um organismo irracional.” (HORKHEIMER, 1983: 133, 139)

As duas teorias podem ser diferenciadas através de sua estrutura lógica, a Teoria Tradicional procura abranger todos os fatos de maneira hierarquizada com seus gêneros e espécies atendendo cada um deles a subordens específicas, já a Teoria Crítica começa com a busca de determinações abstratas e criação de hipóteses, começando, por exemplo, com a caracterização de uma economia baseada na troca e discorre através de suas consequências como mercadoria, valor, dinheiro, e a partir desse processo pode chegar a conceitos genéricos, pois considera as relações da vida social concreta como relações de troca e o caráter conseqüente desse tipo de relação que é ela própria transformada em mercadoria. No que diz respeito à práxis social dominante, a Teoria Crítica não a descarta totalmente, complementa-a e a supera, os fatos concretos obtidos anteriormente despem-se do aspecto de exterioridade ao indivíduo, eles devem ser percebidos como suas próprias manifestações. Se a ação humana é determinada pela razão, a práxis social dada, seria socialmente desumana.

O pensamento critico não tem a função de um individuo isolado nem de uma generalidade de indivíduos, ele considera conscientemente como sujeito a um individuo determinado em seus relacionamentos efetivos com outros indivíduos e grupos, em seu confronto com um classe determinada, e por último, mediado por este entrelaçamento, em vinculação com o todo social e a natureza. Este sujeito não é pois um ponto, como o eu da filosofia burguesa: sua exposição consiste na construção do presente histórico. (HORKHEIMER, 1983: 140)

O teórico tradicional entenderá a função da Teoria crítica quando visualizar as contradições sociais, além da história concreta, mas também como fatores de estímulo e respectiva transformação, pois em visão tradicional só é admitido o papel positivista do funcionamento da sociedade, mediatizada e intransparente, satisfazendo apenas as necessidades gerais, não considerando a totalidade da vida e sua capacidade de renovação, “o mesmo sujeito que quer impor os fatos de uma realidade melhor pode também representá-la […] entre o pensamento e o ser, entre entendimento e sensibilidade.” (HORKHEIMER, 1983: 145)

O autor apresenta um contra-ponto da Teoria Crítica, esta possui interesses universais, que ao mesmo tempo não são universalmente conhecidos, pois são críticos em relação à conjuntura atual, ao comum, ao pré-determinado, classe, exploração, mais-valia, lucro, pauperização, são aceitos e vividos. A Teoria Crítica tem a proposta de transformar essa forma passiva e estruturada de pensar, e por sua qualidade transformadora do entendido como realidade, pode representar uma face subjetiva, especulativa, parcial e inútil, tratando de algo não experimentado, portanto desconhecido e consequentemente subjulgado de acordo com a teoria vigente, assim ela sabe que sua ação transformadora deverá acontecer aos poucos, vagarosa, porém constante. Reconhece que embora a natureza do espírito do indivíduo seja liberal, ele não está à parte da sociedade e esta está sob o arbítrio do dominante, assim, necessita de tempo para ser crítico desse domínio histórico.

O pensamento científico, próprio da nova sociedade, precisou apenas afastar-se das antigas vinculações dogmáticas para empreender o rumo já divisado por ela. Na passagem da forma da sociedade atual à futura, a humanidade deverá erigir-se pela primeira vez em sujeito consciente e determinar ativamente a sua própria vida. (HORKHEIMER, 1983: 156)

Mesmo que haja novos elementos culturais e teóricos no sentido de emancipação do indivíduo, Horkheimer chama a atenção para a necessidade de uma nova forma de estrutura e relação econômica, pois se a dinâmica da economia for a mesma, mesmas serão as formas de dominação de modo capitalista. Assim, essas novas formas devem ser uma construção consciente, através do esforço teórico, para o autor “a esperança de melhorar fundamentalmente a existência humana perderá a sua razão de ser”.

Por enquanto, não existem critérios gerais para a Teoria Crítica como um todo, não há ainda nenhuma instância específica para si, a não ser os objetivos a que se propôs: ensinar o individuo a refletir sem as amarras da ciência dominante e calculada, utilizar o que foi aprendido como parte, e apenas parte, de sua vida social, para que o pensamento não perca sua essência que é a de pensar. “Estou totalmente convencido de que a vontade humana é livre e de que o fim da nossa existência não é a felicidade, mas apenas ser digno dela.” (HORKHEIMER, 1983: 145)

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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4 respostas para Teoria Tradicional e Teoria Crítica

  1. Alessandra Tomé disse:

    Olá Alessandra, estou a procura do livro Teoria tradicional e Teoria crítica, li o texto que você postou e gostaria de saber onde conseguiu o livro.

    Estou no mestrado e preciso desta leitura. Se possível me dê um retorno.

    Obrigada!

    • Alê Almeida disse:

      Oi Alê, tudo bem?

      A referência é HORKHEIMER, M. Teoria tradicional e teoria crítica. In: BENJAMIN, W., HORKHEIMER, M., ADORNO, T.
      e HABERMAS, J. Textos escolhidos (col. Os Pensadores, Vol. XLVIII). São Paulo, Abril Cultural,
      1983.

      E está disponível na biblioteca da FESPSP: http://www.fespsp.org.br/

      Abraços e boa sorte,

      Alê

  2. João disse:

    Tem pra download na net o exemplar dos pensadores com os trabalhos de Benjamin, Horkheimer e Adorno inclusive contem teoria tradicional e teoria crítica

    http://www.4shared.com/office/MetxfjDH/Walter_Benjamin_-_Max_Horkheim.html

    http://www49.zippyshare.com/v/65225671/file.html

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