O narrador (Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo)

ATENÇÃO: Eu não sei fazer resenha crítica, o texto abaixo era para ser uma, mas acho que não deu certo. Assim, na melhor das hipóteses, mais se parece com um resumo, ou mais francamente: uma colcha de retalhos.

BENJAMIN, W. Obras escolhidas III – O narrador; Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo. São Paulo, Brasiliense, 1995.

Walter Benjamin, ao narrar a figura política de Charles Boudelaire, encontra na boêmia da Paris do Segundo Império e através do olhar de Karl Marx sua referência para introduzir o seu texto. Para Marx o desenvolvimento das conspirações proletárias desenvolve-se com uma forma de divisão do trabalho, os operários se dividiam em conspiradores casuais ou de ocasião – exerciam a conspiração em conjunto com suas outras obrigações e sob a ordem do chefe –, e conspiradores profissionais – dedicavam todo o seu serviço à conspiração, viviam dela, as condições do caráter profissional de conspiradores condicionava suas formas de vida, uma existência oscilante e dependente, desregrada, ambientada nas tavernas dos negociantes de vinho.

Segundo Marx as conspirações que se davam nas tavernas e sob os efeitos do vinho, presentes nos escritos de Boudelaire, faz com que a revolução perca o seu princípio racional, os conspiradores profissionais querem apenas organizá-la com um caráter fantástico, utilizando-se de motins ou bombas, por exemplo. Querem a derrubada do governo sem levar em consideração o conteúdo teórico dos trabalhadores e seus respectivos interesses de classe, seria assim uma raiva não proletária, mas plebéia.

A visão política de Baudelaire, transcrita em seus poemas, não excedem ao desses conspiradores profissionais, sua expressão desconhece mediações, seu fundamento é frágil. Em um trecho de seu esboço sobre a Bélgica escreveu “digo viva a revolução! como diria viva à destruição! viva a expiação! viva o castigo! viva a morte! Seria feliz não só como vítima, tão pouco me desagradaria representar o carrasco, a fim de sentir a revolução pelos dois lados! Todos temos no sangue o espírito revolucionário republicano, assim como a sífilis nos ossos, estamos infectados de democracia e de sífilis”. Baudelaire representaria assim uma espécie de metafísica do provocador.

Boudelaire, em Flores do Mal, narra a revolução de Paris e o fim da comuna, referindo-se às barricadas, lembra de seus “paralelepípedos mágicos que elevam para o alto como fortalezas”, tendo por traz o sofrido e tateante proletário. Blanqui, o mais importante chefe das barricadas de Paris, confinado em sua ultima prisão, é visto por Marx como um dos verdadeiros líderes do partido proletário, embora sua descrição corrente e de seus companheiros seja lembrada como uma comédia francesa, uma visão ambígua também é diagnostica por Marx, caracterizando-o assim, como um conspirador profissional, um alquimista revolucionário com desordem mental e ideias estreitas. A imagem de Boudelaire quanto a Blanqui e seu grupo ganha também um “enigma de alegorias” a “mania de segredamento do conspirador em outro”.

O poeta, cuja visão estava nas condições de vida do povo, escreveu sobre os Trapeiros – em O Vinho dos Trapeiros -, indivíduos que frequentavam assiduamente as tavernas da periferia em busca de vinho mais barato, em razão do alto imposto sobre a bebida comercializada na cidade. Marx referindo-se a esse imposto escreve “o povo prova o bouquet do Governo”. A visão de Baudelaire quanto aos Trapeiros em analogia com a situação dos poetas é percebida no trecho “vê-se um trapeiro cambaleante, a fonte inquieta, rente às paredes a esgueirar-se como um poeta, e alheio aos guardas e aos alcagutes mais abjetos, abrir seu coração a gloriosos projetos”, ao observar esses indivíduos pairava a pergunta “onde seria alcançado o limite da miséria humana?”, eles não estavam inseridos na boêmia, “mas desde o literato até o conspirador profissional, cada um que pertencesse à boêmia podia reencontrar no trapeiro um pedaço de si mesmo. Cada um deles se encontrava em um protesto mais ou menos surdo contra a sociedade, diante de um amanhã mais ou menos precário”. O Trapeiro, a miséria, o álcool e suas respectivas consequencias trouxeram à arte de Boudelaire o lirismo incompreensível para o capitalismo.

No contexto capitalista, com a derrota dos proletários da revolução e a desintegração da cidade e do campo, a poesia lírica entra em crise, o poeta procura “emprestar ouvidos alternadamente às matas e às massas”. Boudelaire demonstra seu estado ao escrever “a ridícula teoria da arte pela arte exclui a moral e muitas vezes a própria paixão, desse modo tornou-se necessariamente estéril”. Em face a essa esterilidade, o aspecto revolucionário da obra de Baudelaire é abandonado.

Durante um século e meio a atividade literária dava-se através de periódicos, durante a restauração, não era permita a venda avulsa de jornais, para se ter acesso ao exemplares era necessário ser assinante e essa assinatura tinha um valor elevado, assim, para se ter acesso à informação, os indivíduos ficavam dependentes da assinatura dos cafés (muitas pessoas rodeavam um mesmo exemplar).  Para que o valor das assinaturas diminuísse, os jornais inovaram: trouxeram às suas páginas o anúncio/propaganda (recláme) e o romance-folhetim. Entretanto, recomendados pela utilidade mercantil, o formato brusco da informação veiculada anteriormente cedeu lugar ao comentário comedido. “O recláme se encontra nos primórdios de uma revolução, cujo final é a noticia da bolsa publicada no jornal e paga pelos interessados […] Dificilmente a história da informação pode ser escrita fora da corrupção da imprensa”.

Era nos cafés, durante o aperitivo, que se “buscava” a informação, à hora dos mexericos urbanos, este hábito surge juntamente com o boulevar. Porém, por volta do fim do segundo império, é inventado o telegrafo elétrico, o boulevar perde seu monopólio e as informações passaram a ser recebidas de todo o mundo. A relação entre o literato e a sociedade encontrou-se e consumou-se no boulevar, era lá que se encontrava e se tinha à disposição o primeiro incidente, era onde se davam os contatos com os colegas e os boas vidas, os literatos eram dependentes daquela dinâmica, no boulevar as horas ociosas eram exibidas, a força de trabalho adquire uma forma com algo de fantástico, que aos olhos do público se aperfeiçoa. O aspecto fantástico do trabalho do literato de folhetim aguçava a curiosidade dos leitores através do relato do cotidiano alheio, trouxe uma espécie de glamour às suas “obras”, sendo elas valorizadas, altamente remuneradas e famosas junto ao público. A fama dos literatos através de seus folhetins desencadeou uma nova possibilidade: a carreira política e suas variadas formas de corrupção. Os eleitores proletários não ganhavam muito com isso, Marx chama a eleição de um “comentário sentimental que enfraquece os ganhos do mandato anterior”.

Baudelaire sabia dos aspectos problemáticos desse fenômeno de fama, pois ele próprio não a possuiu, o poeta não teve escolha ao negociar seus escritos, “tinha que contar com a prática de vigaristas, tinha de lidar com editores que especulavam com pessoas mundanas, amadores e principiantes […] desde cedo contemplou sem ilusões o mercado literário”, até o fim de sua vida permaneceu mal colocado naquele mercado e ganhou muito pouco por toda a sua obra. Em 1846 escreveu:

Por mais bela que seja uma casa, ela tem antes de tudo – e antes que nos detenhamos em sua beleza – tantos metros de altura e tantos metros de comprimento. Assim também é a literatura que reproduz a substância mais difícil de avaliar, antes de tudo um enchimento de linhas e o arquiteto literário cujo simples nome não promete lucros, tem de vender a qualquer preço.

Comparando-se a uma puta habitual, Baudelaire escreveu “para ter sapatos ela vendeu sua alma, mas o bom Deus riria se, perto dessa infame, eu bancasse o Tartufo e fingisse altivez, eu que vendo o meu pensamento e quero ser autor”. O lírico Baudelaire do auge do capitalismo quis deste, ser seu vilão, seu Satã, e pode apenas ser um poeta.

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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