Pós-modernidade e sociedade de consumo

ATENÇÃO: Eu não sei fazer resenha crítica, o texto abaixo era para ser uma, mas acho que não deu certo. Assim, na melhor das hipóteses, mais se parece com um resumo, ou mais francamente: uma colcha de retalhos.

JAMESON, F. Pós-modernidade e sociedade de consumo. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo nº 12, pp. 16-26, jun. 85. 

A Pós-modernidade, segundo o autor, é um conceito ainda pouco compreendido, em música seria observado através da síntese dos estilos clássico e “popular”, cujos produtos poderiam ser o rock new wave e o punk, por exemplo, uma espécie de reação aos dogmas da modernidade estabelecidos nas universidades, museus e galerias de arte, que quando de suas criações eram vistos como agressivos e subversivos, porém uma vez que tornaram-se “regras” passaram a chamar uma contraposição que as destruísse e as sobrepusesse por algo novo, novas categorias de gênero e de linguagem, para cada manifestação modernista deveria haver uma pós-modernista, dissolvendo fronteiras, distinguindo cultura erudita de cultura popular, esta última podendo ser chamada de cultura de massa com objetivos comerciais.

A época pós-moderna não apresenta apenas novos estilos artísticos, ela tem por função fazer emergir novos traços formais na vida cultural e social, e uma nova ordem econômica que, para o autor, tem início na nova fase do capitalismo a partir do crescimento econômico do pós-guerra nos Estados Unidos (década de 50), e é analisada sob dois traços: pastiche e esquizofrenia.

O pastiche envolve a adaptação de outros estilos, como por exemplo, maneirismos e tiques estilísticos, produzindo outros. Não é uma paródia que imita e simula o original a fim de ridicularizá-lo, o pastiche vai além, ele se contrapõe às normas linguísticas dos estilos modernistas. O autor questiona: “o que aconteceria se ninguém mais acreditasse na linguagem normal, na fala comum, na norma linguística?” E responde: “talvez a sociedade tenha começado a se fragmentar […] cada grupo passando a falar uma curiosa linguagem privada própria […] cada indivíduo passando a ser uma espécie de ilha linguística”. O pastiche não teria o impulso satírico da paródia, seria a paródia sem senso de humor.

O sujeito e o individualismo estariam mortos na pós-modernidade, em contrapartida com a estética da modernidade, organicamente vinculada ao eu singular e à identidade privada. Teóricos sociais, psicanalistas e linguistas contemporâneos têm observado esse tipo de individualismo e de identidade pessoal como coisa do passado, seriam eles ideológicos, enraizados na era clássica do capitalismo competitivo, no apogeu da família nuclear e na ascensão da burguesia como classe social hegemônica. O capitalismo corporativo de hoje, prevê o homem da organização, das burocracias empresariais e estatais, “hoje não mais existe o velho sujeito individual burguês”. O sujeito individual burguês nunca teria existido seria uma mistificação filosófica e cultural, persuadindo as pessoas de que elas eram singulares. Para Jameson não seria mais possível inventar novos estilos e mundos, pois todos já teriam sido inventados, a influência da tradição estética da modernidade estaria morta e seria como um pesadelo para os vivos. Portanto o pastiche, em um mundo sem possibilidades de inovação estilística limitar-se-ia a imitar estilos mortos: arte sobre arte de um novo modo, implicando a falência do novo e encarcerando o passado.

A esquizofrenia, o segundo traço básico da pós-modernidade, tem para o autor, relação com o tempo. Em Lacan, a esquizofrenia seria substancialmente a desordem da linguagem e esta, segundo o modelo lacaniano “é um modelo estruturalista ortodoxo”, porém no estruturalismo existe uma tendência “mitológica”: ninguém poderia falar sobre o “real” de forma objetiva e exterior, o estruturalismo negaria a velha concepção da linguagem como nomeação, envolvendo uma correspondência de cada significante com cada significado, nas frases não traduzimos uma a uma as palavras ou significantes com relação ao seu significado, lemos a frase inteira, resultando em uma significação global. “O significado é um efeito produzido pelo interrelacionamento das materialidades significantes”. A esquizofrenia seria um distúrbio do relacionamento entre significantes, de seu passado e de seu futuro, o indivíduo esquizofrênico não teria a sensação de continuidade temporal, vivendo um presente perpétuo, “a experiência da materialidade significante isolada, desconecta e descontínua”. O esquizofrênico não consegue reconhecer sua identidade pessoal.

Entretanto o esquizofrênico vivenciaria mais do que nós e com maior nitidez, ele “não só é ‘ninguém’ por não ter uma identidade pessoal, como seu desempenho é ‘nulo’, ele está sujeito a uma visão indiferenciada do mundo no presente […] uma experiência que não é de modo algum agradável […] o mundo surge com alta intensidade, é sentido aqui como perda, como ‘irrealidade’”. Quanto à temporalidade, é preciso desviar o foco da pós-modernidade das artes visuais para as artes temporais. O autor nos dá o exemplo da música de John Cage, que demonstra as possíveis sensações do esquizofrênico: frustração e desespero. Assim como o poema de Bob Perelman intitulado “China”, que embora não tenha uma escrita clinicamente esquizofrênica, tem um formato inexato, com frases que parecem flutuar. “Falsos realismos, eles são, na verdade, arte sobre arte, imagens de imagens”.

Jameson a fim de concluir seu artigo procura relacionar esses tipos de produção com a vida social nos Estados Unidos contemporâneo, nos lembra que os traços pós-modernos descritos também estiveram presentes na modernidade, portanto não precisaríamos de um novo conceito (o da pós-modernidade), pois as rupturas presentes não envolvem mudanças completas, mas principalmente uma reestruturação de elementos anteriores, os que foram secundários, agora seriam dominantes e vice-versa, portanto todos os traços descritos são encontrados em ambas as épocas, mudando apenas de posição hierárquica.

Os produtos de arte contemporâneos, em suas formas mais agressivas, como o punk rock e o material sexual explícito, têm sido consumidos pela sociedade com voracidade e comercializados com sucesso, o que não teria acontecido com as produções da época moderna. A produção de mercadorias, sejam roupas, móveis, casas etc, está agora associada às mudanças do styling, frutos da experimentação artística. Os clássicos modernos têm agora o seu lugar nas escolas e universidades, institucionalizaram-se, perderam seu potencial subversivo, são agora clássicos, peças de museu, fora de moda.

Constitui-se em nossa época uma nova espécie de sociedade, com novos tipos de consumo, caracterizados pelo aceleramento das mudanças da moda, há agora um padrão de indivíduo, a história tem perdido o seu sentido, não preserva o passado, vive-se um constante presente que é arrebatadoramente mutante, o tempo fragmenta-se em uma série de presentes perpétuos. A modernidade teria cumprido seu papel de crítica à sociedade, e a pós-modernidade que tem reforçado a lógica do capitalismo produzindo uma sociedade de consumo, teria ou terá alguma maneira de resistência?

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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