Prova de Psicologia Social

Questão: Você é convidado a diagnosticar as razões para o problema da violência contra os homossexuais por um grupo de jovens em um condomínio de alto padrão aquisitivo, habitado por moradores com alto índice de escolaridade e econômico. Você sabe que, grosso modo, a violência é qualquer agressão física, simbólica, emocional, psicologia, moral ou ato político coercitivo que atinge os seres humanos. Considerando-se tais definições, e utilizando as possibilidades metodológicas em psicologia social, elabore um texto formulando um objeto de investigação e um hipótese de trabalho com base em uma das duas correntes epistemológicas apresentadas em nosso curso: behaviorista e representações sociais. Não se esqueça de utilizar os conceitos das teorias para a formulação do diagnóstico provável para a análise desse problema.

A fim de diagnosticar as razões da violência sofrida por um casal de homossexuais em um condomínio de alto padrão por um grupo de jovens com alto índice de escolaridade e poder econômico, será utilizada a “teoria” das Representações Sociais, que pretende auxiliar na compreensão do porque “as pessoas fazem o que fazem”.

As “teorias” das Representações Sociais têm como campo de observação os saberes populares, elaborados e compartilhados de maneira coletiva com o intuito de construir, interpretar e controlar o real. Esse real pode ser encontrado em variados lugares e de variadas maneiras. A referência à qualidade do homossexual pode ser encontrada em uma das primeiras literaturas ocidentais de caráter simbólico e mágico, a Bíblia:

Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. (Paulo – Carta aos Romanos 1:18-32)

Para a “teoria” das Representações Sociais o social é coletivamente construído e o ser humano é constituído através do social. O processo da representação carrega um sentido simbólico com as seguintes características: representa sempre um objeto; é imagem e com isso pode alterar a sensação e a ideia, a percepção e o conceito; tem um caráter simbólico significante; tem poder ativo e construtivo; possui um caráter autônomo e generativo.  Os indivíduos tendem a tornar familiar o não familiar, tornarem-se seguros em sua identidade dentro do Universo Consensual, se o simbólico da bíblia está inserido neste universo e de acordo com o transcrito acima, estariam os homossexuais abandonados às suas paixões infames, entregues a um sentimento perverso.

O não familiar pode ser gerado no âmbito das ciências, o Universo Reificado, e posteriormente inserido ao dia a dia, o Universo Consensual, porém nosso caso revela que essa transição ainda não ocorreu. Entretanto representar algo não é apenas atribuir-lhe um duplo sentido, é reconstitui-lo e isso poder ser legitimado no tipo de violência sofrida pelo casal homossexual em questão, a atitude dos jovens está no âmbito das expressões físicas, nada foi dito verbalmente, há um silêncio, os jovens não constituíram nenhum laço social de fala para com o casal homossexual.

Os jovens, todos com comportamentos heterossexuais, cresceram no mesmo condomínio, alguns estudaram juntos desde o ensino básico até o ensino superior, visitam-se regularmente e costumam ir às mesmas festas, portanto teriam as mesmas bases de seus imaginários, suas normas e lógicas, de instituições, leis, tradições, crenças e condutas, seus saberes seriam sua âncora, e que para interajam entre si e para preservarem o grupo partilham de certa homogeneidade. A homossexualidade não lhes seria familiar, algo que colocaria em riso o “bem estar” vivido até aquele momento, causando uma estranheza, talvez colocando-os em contato com algum Tabu que traz em si a ambivalência entre o proibido e o desejado, esse contato e possibilidade de sua quebra poderia gerar culpa, conflito e demandar uma nova construção de saberes,  e em última análise, romperia-se com o Totem gerando a ira de “Deus”.

O conflito estabelecido entre os jovens, antigos moradores do condomínio, com o casal homossexual, recém moradores, gerou, até este momento, resistência e afastamento entre os dois grupos, proporcionando a ambos uma sensação de desconforto. O objetivo da pesquisa a ser realizada, será o de compreender a dinâmica dessa estrutura social e seus desencadeadores conflitantes, presentes no interior das representações do primeiro grupo, que como em qualquer outro tende à homogenização,  as diferenças são excluídas e atribui-se valor às representações construídas de acordo com o contexto em que estão inseridas, será investigada ainda a questão do outro (os homossexuais) na vida deste grupo, se esse outro e sua respectiva transgressão quanto às regras sociais do sexo, poderia ser caracterizada como um “gozo a mais”.

Será utilizado o método de “grupos focais” com o grupo dos jovens, através da interação e  troca de ideias sobre o papel do homem (sexo masculino) na sociedade, a fim de produzir dados e insights de acordo com as representações comuns daquele grupo e esse caráter comum pode proporcionar conforto entre os observados quando forem abordados os assuntos de sexualidade previstos como Tabu, pretende-se assim, chegar o mais próximo das compreensões desses indivíduos quanto aos tópicos a serem apresentados pelo pesquisador, que poderá não apenas compreender “o que”, mas também o “porque” os participantes pensam o que pensam e fazem o que fazem.

A hipótese de trabalho será a irredutibilidade das posições sociais, se existem ou não e se a causa do conflito estaria na ideia de que para o outro tudo é realmente possível, portanto teria um “gozo a mais” do que o grupo. Como o grupo de jovens lida e se há uma formulação crítica com esse “a mais” e com a possibilidade do “poder tudo” presentes na vida do casal homossexual, qual sua matriz simbólica, como, com quais ferramentas e justificativas o grupo pretende preservar-se, reconhecer-se, identificar-se, manter seus laços sociais e reforçar as representações sociais construídas.

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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2 respostas para Prova de Psicologia Social

  1. Alê
    Parabéns pelo post. Sucinto, claro e focado. Você cresceu muito.
    Bjs.Sueli

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