Se alguém por mim perguntar*

por Alê Almeida

Estou lendo O mal-estar na cultura do Freud, antes deste li o Futuro de uma ilusão e ontem perdi minha carteira. Não sei se é por conta dos livros que não tive um colapso, ou se é por conta do DHEA que estou tomando. Sei apenas que não arranquei meus cabelos, mesmo porque há 15 dias retoquei minha raiz e gastei R$ 90,00. Um roubo.

Estou numa fase meio conformista demais, hoje eu pensei “Bem, perder a carteira é melhor do que ser assaltada”. Quando tenho um problema no trabalho penso “Essas coisas só acontecem com quem está viva e estar viva deve ser bem melhor do que estar morta”. Hoje meu  colega de trabalho disse que essa minha apatia deve ser depressão. Bem, pelo menos eu tenho saúde, ando, falo e enxergo, imagine o quanto é ruim para quem é depressivo, não anda, não fala e também não enxerga, deve ser péssimo.

Solicitei o cancelamento dos cartões que eu lembrei que estavam na carteira, fiz um boletim de ocorrência pela internet. É bom ter internet e ter dedos para teclar as palavras. E é ótimo saber as palavras também.

Depois do Freud agora tenho coragem de dizer que tenho preguiça de trabalhar, aliás eu odeio trabalhar e ter que dar explicações para pessoas que eu não faço a menor ideia do porque estão neste mundo. Ah, neste frio eu também ando com preguiça de tomar banho antes de dormir, ontem mesmo eu não tomei.

Estou na metade do livro e pelo que entendi até agora, é a cultura que nos afasta de nós mesmos, daquilo que somos naturalmente, em nome de uma coletividade (civilização) com mais proteção, ou seja, em nome da segurança abrimos mão da nossa liberdade, pois tecnicamente somos livres para fazermos o que bem entendemos, assim, talvez eu tenha, inconscientemente, jogado minha carteira pela janela, talvez eu não queira números de documentos que digam quem eu sou, ou cartões de crédito que digam quais são minhas possibilidades de vida. Vocês já pensaram nisso? Eu tenho pensado.

O Futuro de uma Ilusão fala sobre religião, do quanto é menos dolorido imaginar que há um pai benevolente que zela por nós e isso nos deixa meio molengas, a palavra não é essa, seria mais uma coisa do tipo “Deus é quem sabe”, veja esse trecho:

[seria para o dia em que não tivéssemos mais religião] “Por não colocar mais suas expetativas no além e concentrar todas as forças liberadas na vida terrena, provavelmente ele consiga [nós] que a vida se torne suportável para todos e que a cultura [a cultura aqui é no sentido de que é a partir dela que há a religião] não oprima mais ninguém . Então, com um de nossos companheiros de descrença, ele poderá dizer sem pensar: E o céu deixaremos aos anjos e aos pardais”. (FREUD,  Sigmund. O futuro de uma ilusão. Porto Alegre, RS: L&M, 2011. P 121)

Eita cabra valente esse tal de Dr. Freud.

A tese do livro é muito mais complexa, mas estou com preguiça de escrever.

Quanto ao Mal-estar na cultura é mais ou menos como o mal-estar de ter perdido os documentos. Essa coisa dos documentos nada mais é do que uma forma de manter o indivíduo sob vigilância e controle, eles são uma criação da cultura para que nos protejamos do outro, de nós mesmos e que possamos dizer “Ô meu camarada, isso aqui é meu, isso aqui sou eu”. É como se precisássemos de papéis para que nos reconheçamos enquanto gente, gente útil, cidadão de bem. Só que isso tudo já estava aqui quando nascemos, assim, assimilamos de modo natural, só que não é e lá dentro de nós sabemos disso e deve ser por esse motivo que hoje estou me sentindo um tantinho mais livre, um pouquinho menos de bem, sem documentos, mas com vários lenços para o caso de ser uma depressão, afinal esse tipo de coisa só acontece com quem está vida e estar viva…

Beijo, abraço e aperto de mão.

Alê

* Preciso me Encontrar
Cartola
Composição: Candeia

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver…
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar…

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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Uma resposta para Se alguém por mim perguntar*

  1. Marcel Ayres disse:

    Muito bom mesmo!!

    abraços

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