Olhando de perto, nada é familiar

por Alê Almeida

Exercício para a disciplina de Métodos Qualitativos

Os registros no caderno de campo foram realizados no dia 23/08/2011, entre 19h30 e 20h45, são referentes a uma caminhada de aproximadamente dois quilômetros que partiu da Rua General Jardim (Bairro Centro – SP) até a Praça Vilaboim (Bairro Higienópolis – SP). Em poucos minutos de caminhada o cenário é rapidamente alterado: do barulho se deu o silêncio, do chão sujo se deu a limpeza, do vai e vem de pessoas se deu quase apenas a nossa caminhada.

Os registros do olhar estranho àquele percurso identificaram, em relação ao ponto de partida, a rapidez com que se alteraram as paisagens e as relações, o primeiro registro foi o silêncio que fez com que nos calássemos (estávamos em um grupo de estudantes que por sua própria qualidade costuma falar alto e ao mesmo tempo), isso pode demonstrar que o ambiente influencia os comportamentos. O segundo registro foi a ordem daquele local, muitas árvores ordenadas nas ruas e nos prédios de apartamentos, calçadas limpas e pouca gente na rua, este registro pareceu ser complementar ao primeiro, em relação ao comportamento do nosso grupo.

As primeiras moradias observadas são em prédios de apartamentos e estes muito grandes com relação aos da região central, a considerável área destas moradias parece ser ocupada por pouca gente, pois praticamente não se ouve conversas e não há crianças brincando nas áreas comuns. Ainda em contraste com a região central, que é relativamente próxima ao local da caminhada (aproximadamente 15 minutos do ponto de partida), foi observado apenas um morador de rua, que rapidamente se levantou e foi embora quando nos viu e isso não ocorre na região central. Na estrutura das ruas (largas, limpas e iluminadas) e das moradias (amplas e organizadas) é tudo muito bonito e ordenado, mas há um vazio de vida, de humano, as poucas pessoas observadas estão bem vestidas e fazendo caminhadas, parecem integrarem o cenário, meio como objetos de cena, assim como uma agência bancária, instalada em uma casa do mesmo estilo da arquitetura do bairro, sutilmente adaptada àquela estética harmônica.

Ao atravessar a Avenida Angélica começam a surgir casas muito grandes, em relação ao que eu entendo por casas, o primeiro pensamento com ponto de exclamação e com olhar de estranhamento real que vem à minha cabeça é “já morou ou mora gente aqui!”, este pensamento provavelmente foi por conta da relação que fiz com a minha realidade e com a realidade da região central que estava próxima dali. A minha “perplexidade” deve ter transparecido, pois um senhor perguntou “vocês não são daqui, né?”. Passamos pelo Cólegio Sion, enorme, muito bonito e que curiosamente não está no Google Maps (eu acreditava que tudo estava lá, talvez o meu tudo seja muito pequeno).

Nessa nova parte do caminho (depois da Avenida Angélica) tem muitos seguranças, mas não observei nenhuma polícia, talvez as pessoas daquela região tenham a sua própria guarda. Não há bares de esquina, nenhum comércio e não foi observado nenhum transporte público, assim, os moradores devem fazer as suas compras e se locomoverem apenas de carro. Pensei em como eles fazem ao terem uma dor de barriga no meio da noite sem ter um remédio em casa, ou então, como fazer para comer um pão quentinho de manhã. O espaço urbano parece ser utilizado pelas pessoas apenas como via de acesso a outros.

Fomos até a faculdade FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado, seu entorno também é silencioso, assim como os poucos bares que em suas mesas, no lugar de garrafas de cerveja e copos americanos, conforme os bares das faculdades que conheço, há baldes de gelo com garrafas de bebida etílica e copos específicos para ela. Não há comércio ambulante de alimentos de produção e consumo rápidos, como normalmente há no entorno de faculdades mais populares.

Chegando ao nosso destino, à Praça Vilaboim, há uma certa sensação de “agito”, há mais pessoas que retratavam em sua aparência os mesmos registros do caminho (limpas, silenciosas e organizadas em suas vestimentas e em suas relações) assim como os bares e restaurantes temáticos em torno da praça, um item a mais foi a presença de um transporte público (ônibus). Em meio aos bares e restaurantes, há lojas de roupas que não apresentam os preços em suas peças, conforme determina a Lei, esta observação me chamou a atenção, pois atender à Lei faz parte da manutenção da ordem, entretanto a ordem daquele local deve obedecer a outras regras sociais. Há apenas duas instituições financeiras: Itaú e Citibank, esse fator pode apresentar o nível financeiro dos frequentadores da região.

Na praça há um banca de jornais onde a observação dos produtos pode apresentar os hábitos de consumo das pessoas daquela região. Seu expediente é de 24 horas, assim, há vida noturna no local. Não há revistas eróticas, a maioria das publicações comercializadas estão no segmento de moda, arquitetura e viagens, os jornais, além dos locais, há os estrangeiros, ou seja, parte daquelas pessoas falam mais de um idioma, consomem moda, viajam com frequência, reformam, decoram ou adquirem novas morarias e não compram sexo impresso. Há ainda chocolates e cigarros importados. Fiz uma pequena compra: 4 chocolates (não importados) e um maço de cigarros que custaram R$ 42,00, tive vontade gritar mas tive vergonha de mostrar que eu não era igual a eles. Embora eu não tivesse gritado com a boca, devo ter gritado com os olhos, a atendente percebeu e me tratou com desdém, eu devo ter infringido alguma regra local. Assim, tudo foi novo, inclusive eu, estranhar o familiar (nem tão familiar assim) foi estranhar a mim mesma.

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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