Notas para a Prova de Antropologia: Evans-Pritchard (Os Nuer)

[Atenção 1: Bem vindos ao Festival dos Erros de Digitação e Gramática]

[Atenção 2: O que segue abaixo está uma confusão da moléstia]

Evans-Pritchard, Tempo e Espaço, in Os Nuer

Notas do texto resenhado

1. Introdução: antropologia social

2. Tempo e Espaço:

    • As relações sócias dos Nuer são influenciadas por limitações ecológicas
    • Ele [o autor] distingue os conceitos de tempo espaço em dois tipos: aqueles que são principalmente influenciados pelo meio ambiente, o tempo ecológico e os que são principalmente reflexos das relações mútuas dentro da estrutura social, o tempo estrutural.

3. Guerras e o sistema político:

    • Existe pouca solidariedade interna nas tribos Nuer.
    • Entre tribos e entre segmentos de tribos, porém, existe uma grande solidariedade.
    • Os conflitos são partes importantes da manutenção da estrutura social, diferentemente de Radcliffe-Brown, que pensa no conflito como orientação das formas de pensamento e não como algo cuja função seja balancear a estrutura.
    • Falta de centralidade governamental.
    • Chefe: função de mediador.

4. Conclusão:

    • Evans-Pritchard, como dissemos, se preocupa em estabelecer os princípios estruturais da sociedade Nuer, embora fique claro que em seu trabalho a etnologia ocupa a maior parte; fica claro que era algo realmente necessários, dada a falta de material disponível com informações detalhadas sobre esse povo.

Notas do texto indicado

  • As limitações ecológicas e outras influenciam  suas relações sociais
  • Relações ecológicas à significativo para a compreensão do sistema social, que é um sistema dentro do sistema ecológico.
  • Estamos interessados principalmente na influência das relações ecológicas sobre essas instituições
  • Tempo ecológico e tempo estrutural à referem a sucessões de acontecimento que possuem bastante interesse para que a comunidade os note e relacione, uns aos outros, conceitualmente.
  • As mudanças de estação e da lua repretem0se, ano após ano, de modo que um Nuer situado em qualquer ponto do tempo possui um conhecimento conceitual daquilo que está a sua frente e pode predizer e organizar sua vida de acordo com ele. O futuro estrutural de um homem está, igualmente, já fixado e ordenado em diversos períodos, de modo que as mudanças totais de status por que passará um menino em sua ordenada passagem pelo sistema social.
  • O tempo ecológico parece ser e é cíclico.
  • O ciclo ecológico é de um ano.
  • Os meses marginais podem ser classificados de tot ou mai, já que fazem parte de um conjunto, pois o conceito de estações deriva mais das atividades sociais do que das mudanças climáticas que as determinam e o ano consiste para os Nuer num período de residência na aldeia e em outro de residência no acampamento.
  • Os aspectos pelos quais as estações são definidas com maior clareza são aqueles que controlam os movimentos das pessoas: água, vegetação, movimentos dos peixes, etc; sendo as necessidades do gado e as variações no suprimento de alimentos que traduzem principalmente o ritmo ecológico para o ritmo social do ano. [principais estações: tot e mai]
  • O calendário é uma relação entre um ciclo de atividades e um ciclo conceitual e os dois não podem ser isolados, já que o ciclo conceitual depende do ciclo de atividades do qual deriva seu sentido e função; o calendário está ancorado ao ciclo de mudanças ecológicas.
  • Os Nuer não usam muito os nomes dos meses para indicar a época de algum acontecimento, mas, ao invés disso, referem-se geralmente a alguma atividade de destaque que está em processo na época de sua ocorrência; o tempo para elas, consiste numa relação entre várias atividades.
  • Quando os Nuer desejam definir a ocorrência de um acontecimento com vários dias de antecedência: referência às fases da Lua.
  • O relógio diário é o gado, o circulo de tarefas pastoris, e a hora do dia e a passagem do tempo durante o dia são para o Nuer, fundamentalmente, a sucessão dessas tarefas e suas relações mútuas. “Eu voltarei para a ordenha”, “partirei quando os bezerros estiverem de volta”, etc.
  • É clara que, em última análise, a contagem de tempo ecológico é totalmente determinada pelo movimentos dos corpos celeste, mas apenas algumas de suas unidades e notações baseiam-se diretamente nesses movimentos (po exemplo, meses, dia, noite e algumas partes do dia e da noite), e presta-se atenção e seleciona-se tais pontos somente porque são  significativos para as atividades sociais. São as próprias atividades notadamente as de tipo econômico, que constituem as bases do sistema e fornecem a maioria de sua unidades e notações, e a passagem do tempo é percebida na relação que uma atividade mantem com as outras.
  • Os movimentos dos copos celeste permitem que os Nuer selecionem pontos naturais que são significativos em relação às atividades. Daí, no uso linguístico, as noites, ou melhor, os “sonos”, serem unidades de tempo definidas com maior clareza do que o dias, ou “sóis”, porque são unidades indiferençadas de atividade social; e os meses, ou melhor, as “luas”, embora sejam unidades de tempo claramente diferençadas, enquanto que o dia, o ano e suas estações principais são unidades ocupacionais completas. [o tempo não possui o mesmo valor durante todo o ano].
  • Os Nuer não possuem uma expressão equivalente ao “tempo” de nossa língua; não creio [o autor] que eles jamais tenham a mesma sensação de lutar contra o tempo ou de terem de coordenar as atividades com um passagem abstrata do tempo, porque seus pontos de referência são principalmente as próprias atividades, que, em geral, têm o caráter de lazer. Os acontecimentos seguem uma ordem lógica, mas são controlados por um sistema abstrato, não havendo pontos de referência autônomos aos quais as atividades devem se conformar com precisão. Os Nutem têm sorte [Fofo!].
  • Eles pensam com muito maior facilidade em função das atividades e de sucessões de atividades e em função da estrutura social e das diferenças estruturais do que em unidades puras de tempo.
  • Podemos concluir que o sistema nuer de contagem de tempo dentro do ciclo anual e das partes do ciclo consiste numa série de concepções das mudanças naturais e que a seleção de pontos de referência é determinada pela significação que essas mudanças naturais têm para as atividades humanas.
  • Num certo sentido, todo o tempo é estrutural, já que é uma ideação de atividades colaterais, coordenadas ou cooperativas: os movimentos de um grupo. De outra forma, conceitos desse tipo não poderiam existir, pois é preciso que tenham um significado semelhante para cada membro do grupo. A hora da ordenha e a hora das refeições são aproximadamente as mesmas para todas as pessoas.
  • Existe, contudo, um ponto onde podemos dizer que os conceitos de tempo cessam de ser determinados por fatores ecológicos e tornam-se mais determinados pelas inter-relações estruturais, não sendo mais um reflexo da dependência do homem da natureza, mas um reflexo da interação de grupos sociais.
  • Uma vez que o tempo é para os Nuer uma ordem de acontecimentos de significação importante para um grupo, cada grupo possui seus próprios pontos de referencia, e o tempo e, em consequência, relativo ao espaço estrutural, considerado em termos de localidade.
  • Os Nuer possuem outra maneira de indicar de modo grosseiro quando os fatos ocorreram; não em numero de anos, mas em referencia ao sistema de conjuntos-etários. A distancia entre os acontecimentos cessa de ser calculada em termos de tempo, tais como nós compreendemos, e é calculada em termos de distância estrutural, sendo a relação entre grupo e pessoas. É, portanto, inteiramente relativo à estrutura social. Assim, um Nuer pode dizer que um acontecimento ocorreu depois que o conjunto etário Thut nasceu ou no período de iniciação do conjunto etário Boiloc, mas ninguém pode dizer há quantos anos aconteceu. O tempo é, aqui, calculado em conjuntos; É preciso dizer apenas que não podemos traduzir com precisão a contagem de conjuntos para uma contagem em anos, mas podemos estimar de modo grosseiro um intervalo de dez anos entre o começo de conjuntos sucessivos.
  • Qualquer relacionamento de parentesco precisa ter um ponto de referência numa linha de ascendentes, ou seja, um ancestral comum, de modo que tal relacionamento sempre possui uma conotação temporal abrigada em termos estruturais.
  • Maneira pela qual um indivíduo percebe o tempo à ele pode calcular a passagem do tempo em referência à aparência física e ao status de outros indivíduos e às mudanças em sua própria vida, mas tal método de contagem do tempo não possui uma ampla validez coletiva. Os aspectos do problema que estão diretamente relacionados com a descrição anterior dos modos de vida e com a descrição a seguir das instituições politicas.
  • Já observamos que o movimento do tempo estrutural é, em certo sentido, uma ilusão, pois a estrutura permanece bastante constante e a percepção do tempo não é mais do que o movimento de pessoas, frequentemente enquanto grupo, através da estrutura. Assim, os conjuntos etários sucedem-se uns aos outros para sempre, mas jamais há mais de seis existindo ao mesmo tempo e as posições relativas ocupadas por esses seis conjuntos são, a todo momento, pontos estruturais fixos através dos quais passam conjuntos reais de pessoas em eterna sucessão; o sistema nuer de linhagens pode ser considerado como um sistema fixo; a profundidade e amplidão das linhagens não aumenta a menos que haja mudanças estruturais.
  • Além dos limites do tempo histórico, encontramos um plano de tradição no qual se pode supor que um certo elemento do fato histórico tenha sido incorporado num complexo de mitos; Os fatos têm, por conseguinte, uma posição na estrutura, mas nenhuma posição no tempo histórico, da maneira como nós o entendemos. Além da tradição, situa-se o horizonte do mito puro, que é sempre visto na mesma perspectiva temporal. Um fato mitológico não precede outro, pois os mitos explicam costumes de significado social geral, mais do que3 as inter-relações entre segmentos determinados, e não são portanto estruturalmente estratificados; O mundo, os povos e as culturas existem, todos, juntos, a partir do mesmo passado remoto.
  • A história termina há um século e a tradição, medida generosamente, leva-nos para trás apenas dez a doze gerações na estrutura de linhagem, e, se estivermos certos ao supor que a estrutura de linhagem jamais cresce, segue-se que a distância entre o começo do mundo e o dia de hoje permanece inalterável. O tempo assim, não é contínuo, mas um relacionamento estrutural constante ente dois pontos, a primeira e a última pessoa numa linha de descendência agnática. A pouca profundidade do tempo nuer pode ser avaliada pelo fato de que a árvore sob a qual começou a existir a humanidade ainda estava de pé, na região ocidental da terra nuer, há alguns anos.
  • A contagem do tempo é uma concepção da estrutura social; Ele não é tanto um meio de coordenar um acontecimento, quanto de coordenar relacionamentos e consiste, portanto, notadamente em olhar-se para trás, já que os relacionamento têm de ser explicados em termos de passado.
  • Concluímos que o tempo estrutural é um reflexo da distância estrutural.
  • A distância ecológica é uma relação entre comunidades definida em termos de densidade e distribuição, e com referência a água, vegetação, vida, animal e de insetos […]
  • A distância estrutural é de ordem muito diversa, embora sempre seja influenciada e, em sua dimensão política, amplamente determinada pelas condições ecológicas. Por distância estrutural queremos dizer a distância entre grupos de pessoas dentro de um sistema social, expressa em termos de valores. A natureza da região determina a distribuição das aldeias e, por conseguinte, a distância entre elas, porém os valores limitam e definem a distribuição em termos estruturais e fornecem um conjunto diferente de distância; os valores atribuídos à residência, parentesco, linhagem, sexo e idade diferenciam grupos de pessoas através da segmentação, e as posições relativas que os segmentos ocupam uns em relação aos outros fornecem uma perspectiva que nos permite falar das divisões entre eles como divisões do espaço estrutural.
  • As condições físicas que são responsáveis pela escassez de alimentos e também uma tecnologia simples provocam um baixa densidade e uma distribuição esparsa das áreas de fixação. A falta de coesão política e de desenvolvimento pode ser relacionada com a densidade de distribuição dos Nuer.
  • Já notamos que a distância estrutural é a distância entre grupo de pessoas na estrutural social e que ela pode ser de diferentes tipos. Aqueles que nos interessam no presente relato são a distância política, de linhagem e de conjunto etário.
  • Os Nuer dão valores às distribuições locais. Poder-se-ia pensar que é fácil descobrir quais são esses valores, mas, uma vez que estão incorporados em palavras, não se pode compreender seu alcance de referência sem um conhecimento considerável da linguagem do povo e da maneira como esta é usada, porquanto os significados variam de acordo com a situação social e uma palavra pode referir-se a uma variedade de grupos locais.
  • [inserir a figura da p. 127]
  • Uma aldeia não é uma unidade não segmentada, mas sim uma relação de várias unidades menores.
  • Uma aldeia compreende uma comunidade, vinculada pela residência comum e por uma rede de parentesco e laços de afinidades, cujos membro, como já vimos, formam um acampamento comum, cooperam em muitas atividades e azem refeições nos estábulos e abrigos contra o vendo dos outros. Uma aldeia é o menor grupo nuer que não é especificamente de ordem de parentesco e é a unidade politica da terra dos Nuer. As pessoas de uma aldeia têm um forte sentimento de solidariedade contra outras aldeias e grande afeição por sua localidade, e, apesar dos hábitos nômades dos Nuer, as pessoas que nasceram e cresceram em uma aldeia sentem saúdes dela e provavelmente voltarão para lá e farão ali suas casas, mesmo quando residiram em outros lugres por muitos anos.
  • “Distrito” à agregado de aldeias ou acampamentos que se comunicam fácil e frequentemente entre si. As pessoas dessas aldeias participam das mesmas danças, casam-se entre si, executam vendetas, fazem expedições de saque conjuntas, partilham dos acampamentos da estiagem ou fazem acampamentos na mesma localidade, etc. esse agregado indefinido de contatos não constitui uma categoria ou grupo político nuer, porque as pessoas não veem sem si mesmas, nem são visas pelas demais, como uma comunidade única, mas “distrito”, a esfera de contatos sociais de um homem ou dos contatos sociais das pessoas de uma aldeia e é, portanto, relativo à pessoa ou comunidade da qual se fala. Um distrito tende a corresponder a um segmento tribal terciário ou secundário, de acordo com o tamanho da tribo. A esfera dos contatos sociais de um homem pode, então, não coincidir inteiramente com qualquer divisão estrutural.
  • Cada tribo possui um nome que tanto se refere a seus membros, quanto à região que ocupa. Cada uma tem seu território particular e possui e defende seus próprios locais de construção.
  • Os membro de um tribo têm um sentimento comum para com sua região e portanto para com os demais membros. Um homem e uma tribo vê os habitantes de outra como um grupo indiferençado, para o qual ele tem um padrão indiferençado de comportamento, enquanto vê a a si mesmo como membro de um segmento de sua própria tribo; O sentimento tribal baseia-se tanto na oposição às outras tribos, como no nome comum, no território comum, na ação conjunta na guerra, e na estrutura comum de linhagem de um clã dominante.
  • Todas as suas  brigas provem dos pastos, que disputam, o que não impede que uns viajem pelas terras dos outros sem qualquer risco; Em teoria, uma tribo era considerada uma unidade militar e, se duas seções de tribos diferentes mantinham hostilidades, cada uma podia depender do apoio das demais seções de sua tribo; na prática, porém, muitas vezes elas somente entrariam na luta se o outro lado estivesse recebendo assistência de seções vizinhas. Quando uma tribo unia-se para a guerra, havia uma trégua nas disputas internas dentro de suas fronteiras. [política]
  • Alianças militares entre tribos, frequentemente sob a égide de um deus que falava por intermédio de seu profeta, eram de curta duração, não havia qualquer obrigação moral para formá-la e, embora a ação fosse harmônica, cada tribo lutava separadamente sob seus próprios lideres e vivia em acampamentos separadas dentro da região inimiga.
  • Existe pouca solidariedade dentro de uma tribo e as disputas são frequentes e de longa duração. Com efeito, a disputa é uma instituição característica da organização tribal.
  • Uma tribo foi definida por: um nome comum e distinto; um sentimento comum; um território comum e distinto dos demais; uma obrigação moral de unir-se para a guerra; e uma obrigação moral de resolver brigas e disputas através de arbitramento; uma tribo é uma estrutura segmentada e há oposição entre seus segmentos; dentro de cada tribo existe um clã dominante e a relação entre a estrutura de linhagem desse clã e o sistema territorial da tribo é de grande importância estrutural; uma tribo constitui uma unidade dentro de um sistema de tribos; os conjuntos etários são organizados tribalmente.
  • Tribos adjacentes opõem-se umas às outras e lutam entre si. Algumas vezes elas se juntam contra os Dinka, mais tais combinações constituem federações frouxas e temporárias para uma finalidade específica e não correspondem a qualquer valor político nítido; Mas entre as tribos nuer não há organização comum ou administração central e, daí, não há qualquer unidade política a que possamos nos referir como formando uma nação; as tribos adjacentes e as dinka que se encontram frente a elas, formam sistemas políticos, uma vez que a organização interna das tribos pode ser integralmente compreendida apenas em termos de sua oposição mútua e da oposição comum frente aos Dinka que as ladeiam.
  • Além desses sistemas de relações políticas diretas, todo o povo nuer se vê como uma comunidade única e sua cultura como uma cultura única. A oposição aos vizinhos dá aos Nuer uma consciência de grupo e um forte sentimento de serem exclusivos. Sabe-se que alguém é Nuer por sua cultura, que é muito homogênea, especialmente por sua língua; Contudo seu sentimento de comunidade é mais profundo do que o reconhecimento de identidade cultural; um Nuer jamais é um estrangeiro para outro Nuer, como o é para um Dinka ou Shilluk. Seu sentimento de superioridade, o desprezo que demonstram a toados os estrangeiros e sua disposição para lutar contra este constituem um vínculo de comunhão, e a língua e valores comuns permitem pronta comunicação entre si.
  • As tribos são grupos exclusivos politicamente, mas não correspondem exatamente à esfera de relações sociais de um indivíduo, embora essa esfera tenda a seguir as linhas da divisão política.
  • Fazer distinção entre: distância política no sentido de distância estrutural entre segmentos de uma tribo [a maior unidade política] e entre tribos dentro de um sistema de relações políticas; distância estrutural geral no sentido de uma distância não política entre vários grupos sociais na comunidade que fala a língua nuer – as relações estruturais não políticas sã mais fortes entre tribos adjacentes, mas uma estrutura social comum abrange toda a terra nuer; e a esfera social de um indivíduo, sendo seu círculo de contatos sociais de um tipo ou de outro com outro nuer.
  • A estrutura política dos Nuer somente pode ser compreendida quando é colocada em relação a de seus vizinhos, com quem formam um único sistema político. O povo dinka é o inimigo imemorial dos nuer. Assemelham-se na ecologia, cultura e sistemas sociais, de tal modo que os indivíduos pertencentes a um dos povos são facilmente assimilados pelo outro; e, quando a oposição de equilíbrio entre um segmento politico nuer e um segmento político dinka se transforma num relacionamento onde o segmento nuer torna-se totalmente dominante, resulta numa fusão e não uma estrutura de classes. Sempre tem havido inimizade entre os dois povos. Quase sempre os Nuer têm sido os agressores, e eles encaram pilhar os Dinka como um estado normal de coisas e como um dever, pois têm um mito que explica e justifica esse fato.
  •  A guerra entre Dinka e Nuer não é meramente um conflito de interesses, mas é também um relacionamento estrutural entre os dois povos; e tal relacionamento requer um certo reconhecimento por ambos os lados, de que cada um, até determinado ponto, a partilha dos sentimentos e hábitos do outro. Somos levados por essa reflexão a notar que as relações politicas são profundamente influenciadas pelo grau de diferenciação cultural existente entre os Nuer e seus vizinhos.
  • Uma pessoa é membro de um grupo político de qualquer espécie em virtude de não se membro de outros grupos da mesma espécie. Ela os vê enquanto grupo e os membro deste a veem enquanto membro de um grupo, e as relações da pessoa com eles são controladas pela distância estrutural entre os grupos envolvidos. Mas uma pessoa não se vê como membro de um segmento do grupo que se situa fora e em posição oposta a outros segmentos do grupo. Portanto, uma pessoa pode ser membro de um grupo e, contudo, não ser membro dele. Este é um princípio fundamental da estrutura política nuer. Assim, uma pessoa é membro de sua tribo em relação a outras tribos, mas não é membro de sua tribo na relação que seu segmento mantém com outros segmentos do mesmo tipo.
  • Os valores políticos estão sempre em conflito, falando-se em termos de estrutura, um valor vincula uma pessoa a seu grupo e um outro a um segmento do grupo em oposição a outros segmentos do mesmo, e o valor que controla suas ações é uma função da situação social em que a pessoa se encontra. Pois uma pessoa vê a si mesma como membro de um grupo apenas enquanto oposição a outros grupos e vê um membro de outro grupo como membro de uma unidade social, por mais que esta esteja fragmentada em segmentos opostos.
  • As relações políticas são relativas e dinâmicas. Estas são colocadas melhor enquanto tendências para conformar-se a certos valores em certas situações, e o valor é determinado pelos relacionamentos estruturais das pessoas que compõe a situação. Assim, se e de que lado um homem irá lutar depende do relacionamento estrutural das pessoas envolvidas na luta e do seu relacionamento com cada um dos lados.
  • Precisamos fazer referência a outro importante princípio da estrutura política nuer: quanto menos o grupo local, mais forte o sentimento que une seus membros; Mas é também evidente que, quanto menor o grupo, maiores os contatos entre seus membro, mais variados são esses contatos e mais cooperativos são eles; Os laços tornam-se menos e mais distantes quanto maior for o grupo, e a coesão de um grupo politico depende sem dúvida alguma do número e força dos vínculos de tipo não politico.
  • Também deve ser dito que as realidades políticas são confusas e conflitantes. São confusas porque nem sempre, mesmo num contesto político, estão de acordo com os valores políticos, embora tenham tendências a conforma-se a eles, e porque os vínculos sociais de tipo diverso operam no mesmo campo, algumas vezes reforçando e outras indo em sentido contrário a eles. São conflitantes porque os valores que as determinam, devido à relatividade da estrutura política, estão, eles também em conflito. A coerência das realidades políticas pode ser vista apenas quando o dinamismo e relatividade da estrutura política são compreendidos e quando a relação da estrutura política com outros sistemas sociais é levada em consideração.

Roteiro de Leitura: Evans-Pritchard – Tempo e espaço, capítulo 3 em Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota

    1. E. Evans-Pritchard procura nos mostrar em Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1999), que os conceitos de tempo e espaço desse povo são reflexos de sua relação com o meio ambiente e das relações que mantém entre si no interior da estrutura social. Explique como essa concepção dos conceitos de tempo e espaço entre os Nuer é influenciada pelo Durkheim.
    2. Como Evans-Pritchard define estrutura social?
    3. Essa definição de estrutura social é influenciada porque autor  tem por base que linha teórico-metodológica?
    4. Descreva, em suas próprias palavras, o conceito Nuer de tempo ecológico e de tempo estrutural.
    5. Qual a relação entre os Nuer e os Dinka, segundo Evans-Pritchard?
    6. Como o mito recontado à E-P acerca das relações entre os Nuer, os Dinka e Deus (1999:138) retrata estes povos e as relações que mantém entre si?
    7. Ao descrever o sistema político dos Nuer, E-P afirma que se trata de um sistema político segmentário, acéfalo e igualitário. A) Explique o que o autor quer dizer com isso. B) Discuta ao menos uma das críticas que foram feitas em relação a esta descrição do sistema político dos Nuer.

Notas de aula 

  • A intenção da pesquisa de Evans-Pritchard é a questão da “administração” da colônia. (administração política indireta; as pesquisas trabalhavam para a administração colonial; não os ingleses que ocupavam a administração, mas sim os nativos; eles precisavam compreender como funcionava o sistema político da região para melhor dominá-la)
  • [O livro foi publicado em 1940, neste mesmo ano o autor publicou Sistemas Políticos Africanos, este livro também tinha o mesmo papel das pesquisas “exploratórias”. EP dizia no prefácio que escreveu o livro para os estudantes de antropologia e para o governo imperial]
  • A questão principal do livro é a política: eles criam uma tipologia dos sistemas políticos.
  • Encontraram sistemas sem Estado os quais chamaram de acéfalos e os Nuer é um deles (Estados “primitivos”). Há nisto uma classificação evolucionista e pejorativa.
  • O auto é muito influenciado pelas categorias do entendimento (Durkhein);
  • Como o autor define estrutura social? Estrutura social: conjunto social como o conjunto de relações entre os grupos sociais que compõe uma sociedade ou um povo (Radcliffe-Brown); a estrutura social consiste na “soma total das relações sociais de todos os indivíduos num dado momento do tempo”. Embora não possa ser naturalmente vista em sua integridade, em qualquer momento dado podemos observá-la; toda realidade fenomenal aí está.
  • Carta de Radcliffe-Brown para Lévi-Strauss “uso o termo estrutura social num sentido tão diferente do seu que a discussão fica difícil e com poucas probabilidades de ser proveitosa, para você a estrutura social nada tem a ver com a realidade mas com modelos que são construídos, eu considero a estrutura social uma realidade”
  • Estrutura social para Lévi-Strauss: influenciada pelos linguistas; discutir os aspectos formais dos fenômenos sociais; tem a ver com o “inconsciente”, uma infraestrutura, tem uma relação entre os temas, que forma os sistemas (uma estrutura deve ser sistêmica [ideia de transformação]; o modelo pertence a um grupo de transformações; previsível; seu funcionamento pode explicar todos os fatos observados).
  • Sistema social nuer [p. 107] – um sistema dentro do sistema ecológico parcialmente dependente deste e parcialmente existindo por direito próprio – é possível fazer uma tipologia dos sistemas – o sistema é dentro do sistema ecológico; ele se refere a como um grupo constrói suas relações com o meio ambiente, não é colada, porque há outros grupos que formam outros sistemas sociais parecidos. Há determinantes ecológicos e como cada grupo constrói sua relação social com ele. A relação social dependente da relação que estabeleceram com o meio ambiente, tem a ver com a estrutura social que os outros grupos sociais constroem.
  • O autor trabalha com duas categorias do entendimento [Durkheim]: sócio-espacial e sócio-temporal, essas duas categorias são aplicadas aos sistemas: tempo ecológico e tempo estrutural (tempo) distância ecológica e distância estrutural (espacial). O que está mais associado ao tempo e à distância ecológica.
  • Os nuer têm a características de ter as duas “esferas”, temporal e espacial, relacionadas com a ecologia.
  • Nuer – um povo nilota (assim como os dinka; eles também são muito parecidos; e  vivem do gado); Nilo – hamitas: shiluk e luo;
  • O gado é tão importante que o ciclo econômico e o calendário estão pautados pela vida do gado; há duas estações: chuva e seca;  eles migram conforme a necessidade do gado; o ciclo das estações está relacionado com a direção do nuer, o gado precisa se alimentar e povo que vive dele também, assim se dirigem para onde tem comida para o gado. Ficam uma parte na aldeia e outra nos acampamentos.
  • Nilo – Hamitas: Shiluk e Luo, vivem perto, mas não são “ascefalos”, tem um Estado primitivo.
  • As categorias sócio-estruturais dependem exclusivamente das relações mútuas entre os grupos, dentro da estrutura social.
  • A antropologia de EP é descritiva e visual, porque ele é um funcionalista-estruturalista. A forma de descrever é uma estratégia de convencimento [todo mundo faz isso]
  • [tempo ecológico: o tempo tem a ver com as atividades] Eles tem dificuldade de nomear o tempo no período entre 10h e 12h porque o dia começa às 4h quando tudo se movimenta em função do gado (curral, estábulo, etc); há diferenciação entre as atividades sociais, isto é muito diferente do nosso tempo que tem por base a economia industrial, recebemos salário por hora de trabalho, nosso tempo é sistemático e regrado; a lógica tem a ver com a lógica de produção. Daí percebe-se quando e porque se criou o relógio que tem a ver com o tempo social do trabalho.
  • O vocabulário também está associado à atividade social, por exemplo, há vários nomes para o gado, mas poucos para outras coisas.
  • Categorias de tempo estrutural: conjunto etários = 7 (6 + 1 extinto); geração do sistema de parentesco = 4 avós, pais, filhos e netos; linhagens. (É um povo sem escrita). Assim, a profundidade temporal é limitada (conjuntos etários).  Para classificar o tempo, eles recorrem aos eventos (casamento, nascimento, guerra).
  • Tempo estrutural enquanto reflexo da distância estrutural (p. 119 ed. 1999)
  • Linhagem: são agnáticas – consistem de pessoas que traçam sua ascendência exclusivamente através dos homens até um ancestral comum [p. 11 – tem mais dois parágrafos]
  • O sistema político Nuer: distância ecológica (acampamentos e aldeias); distância estrutural: sistema politico: inclui todos os povos com os quais tem contato (quando EP quer retratar a forma de organização politica que não diz respeito apenas aos nuer, mas suas relações com outros grupos) [lembrar do mito dos nuer e dinka que ainda com as diferenças, consideram-se irmãos, filhos do mesmo deus, lembrar também que unem-se para guerrear com um outro grupo que não seja “irmão”]
  • Crítica: ele não deu importância às alianças, ficou muito fixo nas questões patrilineares, matrimônio e sistema de parentesco bilateral.
  • EP coloca três esferas: político-jurídico à segmentos tribais e linhagens; domestico à parentesco bilateral e casamento; cultural à religião e ritual. A esfera cultural é superestrutural; A doméstica é sub-estrutural e político-jurídico é estrutural. Assim, dá mais importância à politica, deixando meio de lado as alianças (para ele a importância é apenas local, não percebendo que as alianças e incorporações entre nuer e dinka afeta todo o sistema social)
  • Povo: todas as pessoas que falam a mesma língua e que tem, sob outros aspectos, a mesma cultura e se consideram diferentes de agregados semelhantes.
  • Tribo: maior segmento político nuer
  • Segmentos globais.
  • Seção primária: Ver o que está acima na p 127
  • Linhagem: agnáticas, traça pelo lado masculino e no topo tem um ancestral comum, a maior  é o clã.
  • [ver o diagrama da p. 214 e 256; para a professora é uma parte irritante, é tudo muito arrumadinho; é uma tentativa de dar uma ordem às coisas, porém as coisas são mais confusas do que localizar as linhagens em um triângulo, é clássico do estrutural-funcionalista que quer se aproximar da exatidão]
  • Sistema politico:
  • Sociedades:
  • Segmentaria (é nisso que ele utiliza para criar segmentos/linhagens: como ela funciona; tudo funciona com relação aos segmentos, eles são complementares e também estão em oposição; isso é a base do sistema político)
  • Agnático (não é puramente patrilinear; e nas linhagens matrilineares tem menos status)
  • Acéfalo (o papel que ele atribuiu aos “chefes” como um árbitro, talvez não seja isso exatamente)
  • Igualitário (um sistema não pode ser igualitário e hierárquico ao mesmo tempo, mas tem o aspecto das guerras que são travadas entre iguais)
  • Hierárquico (idem; quanto à moradia, linhagem, etc)

Estes três últimos itens é uma confusão da porra

E quanto à contemporaneidade.

  • Livro [1991] “Etnicidade Nuer Militarizada” à o tema é a violência etnitizada que passou a permear a vida dos nuer e dinka
  • Identidade:
  • Performática: para se ser membro de um grupo é preciso desempenhar um determinado papel;
  • Essencialista (sangue): um outro povo  não se pode tornar um dinka

Quando EP escreveu poderia haver um nuer-dinka [sei lá]

  •  No Sudão independente que é liderado pelo Islã [sei lá]
  • Em 1980: dinka-nuer vivem em local com petróleo; passou a se construir oleodutos de propriedade de um grupo canadense à essa terra que era de pastagem passou a ser muito disputada; os dinka e os nuer se juntam e formam um partido SPLA, que incialmente queriam um Estado democrático e secular, ideia defendida para o Sudão como um todo.
  • Em 1990: o SPLA tem uma disputa de liderança que originalmente tem uma liderança dos dinka, [sei lá] há uma cisão que passa a defender uma autodeterminação de independência do sul do Sudão. Essa disputa de liderança é alimentada pelo exército sudanês, para matarem-se entre si e portanto, manter o controle do petróleo, isso traz uma mudança na identidade e diz respeito às mulheres, que foram muito valorizadas devido ao seu papel  reprodutivo, elas agora passam a ser alvo privilegiado de rapto e matança: diminuição da reprodução e humilhação do grupo.
  • IDENTIDADE ETNICA É SITUACIONAL, NÃO É FIXA, A TRADIÇÃO NÃO É ALGO IMUTÁVEL.
  • Tais mudanças alteram a identidade dos nuer e dos dinka

Revisão para a prova:

  • Evans-Pritchard: no Geertz tem uma discussão sobre tempo e o espaço. O tempo e espaço estrutural diz respeito ao grupo e à estrutura, sei lá… é com o homem e o ambiente; categorias do entendimento: tempo e espaço estão na estrutura; relação dos homens com o meio ambiente; os Nuer por serem nômades, com apenas 02 estações, faz com que vivam uma parte do tempo na aldeia e nos acampamentos, o espaço ecológico é importante para este povo.
  • Tempo e espaço na estrutura social, tem os segmentos, unidades políticas, patrilineares: é possível entender a estrutura deles.
  • A questão de como define estrutura social: sua concepção é baseada na linha metodológica Radcliffe-Brown: estrutural-funcionalista. A única diferença com essa linha é que a história é importante, ele acha que a antropologia deve incorporar mais a história.
  • Importante fazer uma distinção entre a linha estruturalista francesa [Lévi-Strauss]
  • Questão com os Dinka: como eles estão incorporados na vida social dos Nuer, questão da briga pelo gado; a diferença entre eles para pegar o gado de um e do outro [mito]
  • Sistema político acéfalo e igualitário [?]. Aspectos contemporâneos questionam esse sistema.
  • São acéfalos em sua contraposição [sei lá] e igualitários porque inclui todas as aldeias, embora haja clãs dominantes; eles têm posições equivalentes entre si, olha-se então para os segmentos; embora sejam equiparados, só alguns clãs são dominantes, assim há uma hierarquia [sei lá]; os dinkas só são incorporados quando casam com uma mulher dos Nuer, assim, os filhos terão uma posição dentro do grupo dominante.
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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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