Notas para a prova de antropologia: SAHLINS, Marshall. Cultura na Prática

[Isto não cai na prova, mas é importante para entender o pensamento do autor]

Grifos do Livro:

Introdução:

  • [eu acho que para ele é uma crise na antropologia; década de 60, entendi que é mais ou menos assim “aí camaradas donos da verdade, coloquem suas violas no saco”]
  • Em toda mudança existe continuidade, ideia defendida tanto quanto à bibliografia, quanto à cultura [p 10];
  • No momento da ação social, campo em que os povos indígenas lutam para abarcar o que lhes acontece nos termos de seu próprio sistema mundial, é deles o movimento que engloba uma periférica cultura da modernidade [p 10];
  • Os ensaios do livro concernem à distintividade cultural dos povos, não apenas fora ou antes do imperialismo ocidental, mas também no momento em que eles suportaram a força avassaladora do capitalismo mundial [p 10]
  • Podemos nos impressionar tanto com a dominação mundial quanto com a resistência local, com a hegemonia cultural ou com a autonomia nativa [p 11];
  • O pós-estruturalismo, o pós modernismo criaram uma sensação tão opressiva de determinismo cultural, uma ideia tão totalizante de ordem social, que chegam a invocar as noções “superorgânicas” de cultura [p 10];
  • Para White: a cultura era uma ordem independente e com moto próprio da qual a ação humana podia apenas ser a expressão; Foucault “trata de privar o sujeito de seu papel originador e analisa-lo como uma função variável e complexa do discurso”; o “discurso” é o novo superorgânico cultural – tornando ainda mais draconiano como expressão de “poder” que está em toda parte, em todas as instituições e relações cotidianas [p 12];
  • O conceito de cultura é um instrumento de discriminação – uma ideia funcional que também pressupõe tal cultura como um sistema onipotente de coerção. Ao atentarem dessa maneira para as diferenças culturais, os antropólogos conseguem encarcerar os povos em sua alteridade e com isso conspiram a favor do trabalho do imperialismo ocidental. Esse movimento bloqueia qualquer interesse sério pelos modos como os diferentes povos construíram sua existência [p 12, 13];
  • Para os estrutural-funcionalistas, a cultura era o complemento ideativo e representacional do objeto real de sua ciência antropológica, que era e estrutura social ou o sistema de relações sociais. Segundo essa visão, a cultura é o meio expressivo e costumeiro pelo qual um sistema social se mantém; […] pode-se ter uma ciência da sociedade, mas apenas uma história da cultura [p 15];
  • A crise na cultura da década de 60, que jogou o material contra o simbólico, foi exacerbada pela antítese crescente entre as ideias norte-americanas da ecologia cultural e a importação do estruturalismo francês [p 18];
  • Estruturalismo de LS: cultura era apenas um nome para comportamentos específicos da espécie, a serem compreendidos como e através de seus efeitos adaptativos, e não por seus conteúdos significativos, não mais dignos de destaque como fenômenos de natureza distinta do que os comportamentos de qualquer outra espécie animal. Tudo podia ser reduzido ao comportamento e, ainda por cima, ao comportamento utilitarista, e o símbolo se perdia [p 18];
  • O caráter impregnante do simbólico resolveu parte da tensão entre as determinações culturais da utilidade… [entretanto] era preciso questionar como disse Geertz “a pura e simples possibilidade de que alguém, de dentro ou de fora, apreendesse algo tão vasto quanto o todo de um estilo de vida, e encontrasse as palavras para descrevê-lo” […] o que se busca é a lei e não a cultura [p 20];
  • “A destruição da consciência moral do Vietnã” não foi apenas essa experiência que desconstruiu a minha antropologia cientifica, foi o envolver-me na invenção de um movimento para por fim à guerra que teve reflexos curiosos e contraditórios no que eu vinha fazendo intelectualmente [p 24]
  • [quanto às manifestações na universidade contra a guerra]  o que aconteceu não foi apenas uma virada cultural decisiva, mas, para mim, foi também uma parábola antropológica.
  • A ação histórica é uma relação com a ordem cultural: uma encarnação de poderes coletivos em pessoas individuais [que lindo], quer essa materialização seja efetuada pela feliz oportunidade situacional de um ato, que esteja constituída na autoridade estrutural do ator […] se o professor que o inventou [a manifestação] teve uma influencia poderosa, foi apenas porque o ato foi potencializado pela conjuntura sócio-histórica […] e assim a ação foi incluída na agenda – não em oposição à estrutura, mas em certas relações com ela [p 26];
  • “O retorno do evento, outra vez! Se refere à posição estrutural complementar da ação: a eficácia histórica dos chefes fijianos, que provém de sua posição constituída numa totalidade social ou, mais precisamente, da encarnação da coletividade em suas pessoas particulares, de modo que seus atos individuais, bons ou ruins, inteligentes ou néscios, são necessariamente eventos universais. O mais interessante é que a totalidade que eles assim influenciaram não determinou, a sua individualidade [p 26]. Pois toda a ideia de que a ação individual depende de sua potencialização cultural bem poderia passar por algo que nada tem de novo – ou pior ainda, por um determinismo cultural antiquado – caso não se observasse também existirem razões para que o ato de que estamos tratando tivesses um caráter diferente de suas dimensões coletivas [p 27];
  • [Satre] a formação social não determina a individualidade dos lideres que ela se dá – ainda que dê a esses lideres, e portanto, à suas individualidades, certos poderes sobre o destino da mesma [p 27];
  • Parece [que fofo] que a totalidade da cultura é assim, composta de práticas cujas razões são suficientes para sua existência, mas nunca necessárias […] um esquema cultural tem uma espécie de liberdade que o universo físico não possui […] tudo o que é culturalmente necessário é que as coisas sejam suficientemente lógicas, inteligíveis e comunicáveis, e que façam sentido num certo universo de significado [p 28]
  • [Bakhtin] uma relação complexa de  diferenças compartilhadas – que explica porque a história pode ser culturalmente ordenada sem ser culturalmente prescrita; dizer que uma dada frase é gramatical não equivale a dizer que a gramatica tenha determinado o que foi dito; dizer que certo ato foi lógico, que fez sentido cultural, não significa que a logica tenha determinado sua execução, nem que outros atos não teriam sido logicamente adequados e socialmente autorizados [p 28, 29];
  • [pesquisa no Havaí] reconhecimento crescente de que os esquemas culturais havaianos haviam ordenado significativamente essa história, ao mesmo tempo que eles próprios eram reordenados no decorrer dela [p 29];
  • As culturas são formas de vida relativas e históricas, cada qual com uma validade particular, sem uma necessidade universal […] as coisas físicas têm causas, mas as coisas humanas têm razões – razões simbólicas construídas, mesmo quando são fisicamente causadas [eu gosto dele] […] o caráter distintivo do saber antropológico está em que ele envolve uma unidade substancial do sujeito conhecedor com aquilo que é conhecido [p 30];
  • Quanto mais sabemos sobre os objetos físicos, menos familiares eles se tornam, mais se distanciam de qualquer experiência humana [p 31];
  • Quando se chega à natureza mais profunda das coisas materiais, tal como descoberta pela física quântica, ela só pode ser descrita sob a forma de equações matemáticas, a tal ponto essa compreensão se distancia de nossas maneiras ordinárias de perceber e pensar os objetos [p 32];
  • Dos feitos humanos temos uma compreensão ‘por meio das causas’, do porque de serem feitos como são, porem, das coisas não humanas só temos uma compreensão pelos atributos, por aquilo que são [p 32]
  • O primeiríssimo principio da nova ciência antropológica teria de ser o ‘respeito à especificidade do objeto cultural’. Essa antropologia poderia então realizar seu destino singular de Cosmologia das Formas Simbólicas

Notas de aula:

  • Sobre a introdução: a questão das partes do livro se referem a uma revisão de sua própria trajetória, como o seu modo de pensar e de abordar mudaram [ele quer dar uma lógica à sua trajetória intelectual]
  • Os textos da primeira parte correspondem ao período de 1960 – 1970; da 2ª parte são sobre a guerra do Vietnã, 1970; e 3ª a parte é de 1980 – 1990. Nessa parte ele começa a discutir a relação entre história e cultura, estrutura e processo, evento e estrutura.
  • Os textos da 1ª parte estão em torno de uma discussão sobre o que é cultura para o autor, e também uma discussão em que ele se contrapõe a dois tipos de determinismo, o biológico e econômico/utilitarismo = razão simbólica X razão prática [sua questão se aprofunda mais da contraposição entre determinismo econômico X razão prática]
  • Ele também pensa quanto à relação entre natureza e cultura [assim como Geertz]
  • Quando pensa “A sociedade Afluente Original” ainda faz uma discussão sobre as origens do homem.
  • [Ele começou como neo-evolucionista; tinha um interesse pela evolução; depois teve influências de alguém que eu não consegui entender o nome] [no início de sua carreira teve interesse sobre o neo-evolucionismo e isso mostra o quanto ele mudou sua abordagem]
  • [neo-evolucionista – 1950 – muito importante nos EUA; no que ele se difere do evolucionismo? O evolucionismo claro tem uma evolução unilinear, um olhar etnocêntrico de progresso, que parte de hoje para trás; eles veem o topo da evolução na civilização ocidental, assim olha-se para trás partindo de sociedades contemporâneas fazendo uma equivalência com as sociedades pré-históricas, isso é incoerente. O neo-evolucionismo diverge porque ele não é unilinear, não tem a visão de que as transformações da sociedade foram em uma única direção, entendem que há uma diversidade que influenciam o caminhar das sociedades, porém eles têm muito interesse de como surgiram as civilizações; dão ênfase à tecnologia – o estudo do desenvolvimento de tecnologias que possibilitaram o surgimento de civilizações-; tal como o evolucionismo clássico, utilizando a tecnologia, fazem uma classificação das sociedades do ponto de vista do trabalho e da política – assim, a ideia de evolução ainda está presente de alguma maneira]
  • Preocupação com o surgimento das sociedades – estuda o período do Paleolítico. [essa questão do neo-evolucionismo será vista hoje a partir do texto]
  • [ele também é influenciado, nesta parte, por L.S.]
  • [Darcy Ribeiro tinha interesse no neo-evolucionismo]
  • Como ele aborda sua trajetória: aconteceu a guerra do Vietnã e isso mudou o seu enfoque teórico/metodológico que tem a ver com o impacto desse processo histórico/evento.
  • Por que a guerra gerou impacto? Ele está preocupado com o modo de produção e economia; quer ver como é um modo de vida [confusão da porra]; houve pela primeira vez movimentos sociais que geraram impactos políticos na história dos EUA [se iniciou na faculdade, ele participou porque era professor; utilizavam a faculdade para discutir a guerra, suspendendo as aulas e toda atividade tradicionalmente acadêmica; esse movimento ganhou as ruas e fez com que finalmente o governo americano saísse do Vietnã]
  • Assim, a partir de sua participação nesses eventos políticos mudou o seu enfoque teórico e metodológico, ele começa a achar interessante como eventos podem alterar a história, eventos com significados simbólicos impactantes conseguem gerar transformações.
  • Repensar como a cultura se transforma a partir dos eventos [?]
  • [Ele muda de neo-evolucionismo, para o estruturalismo, depois tem mais, mas eu perdi]
  • [ele sempre tem preocupação com o econômico/produção, isso o diferencia de LS]
  • [entender a lógica cultural da sociedade americana = utiliza o método estruturalista]
  • [razão simbólica = a cultura é construída a partir de uma lógica simbólica e essa lógica simbólica vai englobar o modo de produção, vai organizar o modo como se dão as relações de produção]
  • Sua pergunta: como eventos impactantes conseguem transformar as sociedades [eu acho isso meio óbvio… sei lá];
  • Outra pergunta: Qual a relação entre as sociedades diversas e o capitalismo?
  • Na última fase seu importante interlocutor é Wallersten, que escreveu um livro sobre capitalismo enquanto sistema mundial, e Sahlins contesta o conceito de capitalismo como sistema mundial.
  • Acho que na última parte passa a pensar em história e processo = eventos. Opondo razão prática com razão simbólica.
  • 3 autores importantes: LS, Leslie White e Wallersten [influenciadores importantes em cada fase teórica e metodológica do autor – a professora disse que é importante guardar esses nomes, não sei porque… tá bom]

Sobre o período Paleolítico [neo-evolucionismo]: Livro “A origem da Sociedade [1960]

  • Neste texto ele pergunta como o homem se diferencia dos outros primatas. [o que é natureza e cultura, como o homem se transforma em homem? Seria um texto influenciado por LS]
  • Estes estudos partem de inferências, o autor utiliza estudo de sociologia primata [a estrutura social dos primatas] e também utiliza o estudo de caçadores e coletores; são estudos contemporâneos e por meio de inferência quer utilizar estes estudos para falar alguma coisa sobre o paleolítico, sobre a origem da espécie.
  • Ele sabe que as sociedades são diferentes, mas o que ele vai tirar das sociedades contemporâneas seriam traços comuns que estariam presentes nas sociedades humanas originais [paleolítico = época em que o homem está fazendo instrumentos de pedra, são caçadores e coletores]
  • Faz pesquisas sobre caçadores e coletores contemporâneos nas áreas da África e outro lugar que eu perdi, e faz um contraste quanto à organização social dos primatas superiores e o homem.
  • O autor enfatiza LS, a questão do sexo, dos tabus em relação ao sexo. Mas ele não fica apenas na proibição do sexo, mas também enfatiza a organização social, a questão da família e na família a divisão sexual do trabalho, ele vê a família como unidade de produção.
  • “Se eu olho os primatas superiores eu vejo que eles começam a viver em bandos e que em alguns desses primatas as relações sexuais já não se dão apenas na época do cio, não estaria ligado apenas à reprodução”. O sexo é importante na organização sexual, organizam-se a ordem em função da disputa pelas fêmeas, por exemplo. No caso dos homens haveria um grande contraste, pois as questões dos primatas são inatas, o homem para a questão sexual, estabelece regras, que podem ser de parentesco e aliança garantem a sobrevivência e a cooperação, assim, a família seria a unidade de produção e estabelecimentos de relação com outros bandos.
  • As sociedades de caçadores e coletores não tem guerra. O estabelecimento da cultura se dá por intermédio da colaboração, assim ele se contrapõe a uma série de autores que nas décadas de 50 e 60 diziam que o homem era por natureza agressivo [interessante].
  • [LS escreve estruturas elementares do parentesco em 49, assim o autor já tinha tido acesso a esse estudo]
  • Quanto ele chega ao texto “a sociedade afluente original”, a partir dos caçadores e coletores contemporâneos, que anteriormente se contrapôs ao determinismo biológico [agressividade natural do homem], ele agora se contrapõe com os deterministas econômicos.

Grifos do texto: Introdução à parte I

  • Se uma sociedade investe de sentido a diferença entre o vermelho e o amarelo, ela buscará os contrastes referenciais máximos desses termos, o vermelho e o amarelo vivos e saturados; não é que os nomes das cores tenham seus sentido impostos pelas limitações da natureza humana e física, ao contrário, eles adquirem essas limitações na medida em que são dotados de sentido [p 38, 39]
  • [cores para pessoas daltônicas que passam a significar as cores assim como as pessoas que enxergam normalmente] elas aprendem  a estabelecer distinções de brilho em seu próprio espectro, correspondem às discriminações que as outras pessoas fazem da coloração […] mas, o que parece mais estupendo, como um poderoso comentário sobre a natureza da cultura, é que as pessoas possam participar plena e mutuamente de uma mesma sociedade, num mesmo universo de sentido, tendo experiências totalmente diferentes do mundo. Pensar por conceitos, como disse Durkheim “não é meramente ver a realidade em seu aspecto mais geral, mas projetar sobre a sensação uma luz que a ilumina, penetra e transforma [suspiros] [p 39]; o fenômeno do daltônico que é competente em matéria de cor é uma lição sobre a construção cultural da natura [p 40];
  • Comparação: pelas diferenças aprendem-se as propriedades [p 40];
  • Um dos aspectos mais tristes do atual clima pós modernista e antiessencialista é a maneira como ele parece lobotomizar alguns de nossos melhores pós-graduandos, sufocando-lhes a imaginação por medo de estabelecer alguma ligação estrutural interessante ou uma generalização comparativa. O único essencialismo seguro que lhes resta é o de que não existe ordem [p 41];
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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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