Notas para a prova de antropologia: SAHLINS, Marshall. Cosmologias do Capitalismo. In Cultura na Prática

Grifos do texto: A economia do desenvolvi-gente

  • 1839 – John Williams transformado em mártir por alguns melanésios […] tanto ao chamá-lo de “assassinato” quanto ao qualificar os melanésios de “selvagens”, inscreve caracteristicamente os atos dos ilhéus nas nações dos ocidentais. A tradição historiográfica de tais incidentes melhorou desde então, mas não a ponto de se livrar da virtude cristã de compreender os melanésios com base na alegação de que não teriam atirado a primeira pedra. Como se eles não pudessem ter suas próprias razões nem sua própria violência [p 443]
  • Morte de Williams faz lembrar capitão Cook […] os ilhéus nada têm a fazer senão reagir à presença determinante do estrangeiro .  Estou evocando a sina do missionário em termos metafóricos, a fim de integrar ao coro antropológico de protestos contra a ideia de que a expansão global do capitalismo ocidental, ou sistema mundial, transformou povos colonizados e ‘periféricos’ em objetos passivos de sua própria história, e não em seus autores, e de que, por meio de relações econômicas tributárias, transformou da mesma maneira suas culturas em bens adulterados […] Wolf: essas pessoas são seres históricos, e são mais do que as ‘vítimas e testemunhas silenciosas’ de sua própria subjugação […] nada parecia restar à antropologia senão fazer a etnografia global do capitalismo […] Outras sociedades eram vistas como já não possuindo suas próprias ‘leis de movimento’, tampouco haveria nelas qualquer ‘estrutura’ ou ‘sistema’, exceto os fornecidos pela nominação capitalista ocidental. Mas, não seriam porventura essas ideias a forma acadêmica da mesma dominação? É como se o ocidente, depois de haver invadido materialmente a vida de outras sociedades, agora se dispusesse a lhes negar intelectualmente qualquer integridade cultural [p 444]
  • Precisamos levar mais a sério o entendimento marxista da produção como apropriação da natureza […] decorre daí um modo de produção que não especifica nenhuma ordem cultural […] A apropriação cultural que as pessoas fazem de condições externas que elas não criam, e das quais não podem escapar, constitui o próprio princípio de sua ação histórica […] Não se trata de sugerir que desconheçamos as forças devastadoras modernas, mas apenas que seu curso histórico deve ser visto como um processo cultural […] Relações e bens do sistema mais amplo também passam a ocupar lugares dotados de significado na ordem local das coisas […] as mudanças históricas na sociedade local estão em continuidade com o esquema cultural suplantado, a nova situação vai adquirindo uma coerência cultural de natureza distinta [p 445] seu próprio sistema de mundo.
  • É verdade que os havaianos foram transformados num proletário rural, mas não é verdade que o curso da história havaiana tenha sido regido por esse resultado […] se o Havaí sucumbiu às pressões imperialistas, foi precisamente porque os efeitos do comércio exterior foram ampliados pela sua inclusão em uma competição polinésia por poderes celestiais […] as forças capitalistas materializaram-se em outras formas e finalidades, em lógicas culturais exóticas muitos distantes do fetichismo da mercadoria […] o sistema mundial não é uma física de relações proporcionais entre impactos econômicos e reações culturais. Os efeitos específicos das forças material-globais dependem das várias maneiras pelas quais elas são mediadas nos esquemas culturais locais [p 446]
  • Mais do que uma física planetária, esta é uma história do capitalismo mundial […] atestará duplamente a autenticidade de outros modos de vida. Primeiro pelo fato de que a ordem global moderna foi decisivamente moldada pelos chamados povos periféricos, pelas diversas maneiras segundo as quais esses povos articularam culturalmente o que lhes estava acontecendo. Segundo, e a despeito das terríveis perdas sofridas, a diversidade não está morta. Ela persiste na esteia da dominação ocidental […] a história mundial moderna foi marcada pelo desenvolvimento simultâneo de uma integração global e de uma diferenciação local […] antropólogos e historiadores foram iludidos […] dominação ocidental: ideia pretenciosa […] de que o capitalismo levaria ao fim de todas as outras formas de história cultural [p 447]
  • Os povos das ilhas do Pacífico e das terras continentais asiáticas e americanas adjacentes moldaram reciprocamente o impacto do capitalismo e o curso da história mundial […] os produtos e até as pessoas do Ocidente foram incorporados como potências nativas. As mercadorias europeias apareceram como signos de benefícios divinos e dádivas míticas, negociados em trocas e exibições cerimoniais […] assimilados a ideias nativas de objetos de valor sociais ou espécies sagradas […] enriquecimento do sistema local […] os povos do interior passam a adquirir mais produtos de valor social extraordinário com menos esforço do que jamais puderam fazer na época de seus ancestrais [p 447]
  • O processo inteiro é um desenvolvimento, nos termos culturais do povo em questão […] não há dúvida de que existe uma continuidade cultural […] a mais rigorosa continuidade pode consistir na lógica da mudança cultural. Desenvolvimento neotradicional […] desenvolvi-gente […] auto-realização cultural […] nem por isso correspondentes à simples penetração das relações capitalistas de mercado. A dependência da economia mundial que tem suas próprias razões e seu curso pode vulnerabilizar o desenvolvi-gente local, a mais longo prazo. Mas destino não é história e nem é sempre trágica [p 448]
  • A Grã-Bretanha só consegui superar a balança comercial desfavorável resultante de seu vício em chá, ao infligir aos chineses um vício ainda maior, o ópio importado da Índia […] a fraqueza humana desconhece raças [vixe] [p 449]
  • A ideia geral é que o sistema mundial é a expressão racional de uma lógica cultural relativa, entenda-se, sua expressão em termos de valor de troca […] um mercado global de fraquezas humanas no qual todas podem ser comercializadas lucrativamente num meio pecuniário comum […] O fetichismo é o costume da economia mundial capitalista [p 449]
  • É claro que a capacidade de reduzir as propriedades sociais a valores de mercado é exatamente o que permite ao capitalismo dominar a ordem cultural […] uma história do sistema mundial precisa descobrir no capitalismo a cultura mistificada [p 450]
  • O comércio com a China:
  • O imperador Quialong não foi o primeiro nem o último governante a descartar as coisas do Ocidente: “minha dinastia não valoriza produtos vindos do exterior, os utensílios estranhos e engenhosamente produzidos de vossa nação não têm para mim o menor atrativo” [p 451]; o comércio era cada vez mais controlado e hostilizado pelas regulamentações chinesas [p 452]; A única coisa aceitável eram as moedas de prata [eles vendiam chá]. Quanto aos ocidentais, essa drenagem contínua do metal precioso não apetecia nem um pouco o seu paladar mercantilista [p 453]
  • [os chineses não davam importância aos presentes britânicos, estes eram vistos pelos chineses como bárbaros…bem feito… rarará] Foi traçada uma distinção entre presentes (como os chamavam os britânicos) e tributos (como os chamavam os chineses […] Seus presentes eram amostras de seus produtos […] expressar a superioridade da civilização britânica […] o objetivo era surpreender os chinês com o poder, o conhecimento e a engenhosidade […] para os britânicos, seus presente eram signos auto-evidentes de uma lógica industrial do concreto – os signos de ‘nossa preeminência’. Esperava-se que transmitissem uma cultura política, intelectual e moral inteira. No entanto, se houve algum dia quem tentasse ensinar a missa ao vigário, este foi o povo britânico ao levar signos de civilização para os chineses [ideia de superioridade ocidental capitalista… ô coitados] [p 459]
  • Esse contraste simbólico é uma chave da política comercial do império [p 460]
  • AS ILHAS SANDWICH:
  • [ao contrário dos chineses] Eles queriam a identidade dos europeus ilustres [p 469]
  • Os homens brancos eram percebidos como portadores de poderes civilizadores e divinos [p 470];
  • No Havaí o comércio de sândalo suplantou um comércio anterior de amenidades que já haviam transformado as ilhas num grande caravançará [Grande hospedaria onde se reúnem viajantes de todos os países] na rota do comércio de peles entre a Costa Noroeste e Cantão [p 472]; os havaianos assumiram o controle principal desse comércio, usando privilégios tradicionais, como seus poderes de estabelecer tabus, para organiza-los de acordo com seus próprios interesses [p 473]
  • A febre do consumo da elite era alimentada por dois sistemas de rivalidade que se cruzavam: de um lado, os mercadores americanos, que competiam entre si por vantagens aduaneiras, e de outro, os chefes havaianos, que tinha o costume de competir entre si [p 474]
  • Os produtos comerciais eram gloriosas extensões artificiais do corpo sagrado dos chefes, já esticado até seus limites orgânicos, todos os seus prazeres pareciam destinar-se a ampliar a pessoas deles [p 475]
  • Características do mercado polinésio: busca interminável da novidade, a mania pelo que estava na última moda em Boston, e a acumulação de produtos estrangeiros vistos como signos e projeções da pessoa civilizada [p 476]
  • Ligada à produção por esses interesses de consumo, a nobreza havaiana não tardou a se mostrar incapaz de competir com as crescentes formas capitalistas de exploração dos recursos das ilhas. Adam Smith: “é raro um grande proprietário ser um grande introdutor de melhorias” […] os chefes estavam obsoletos como classe dominante e simplesmente não souberam servir-se dos recursos sociais disponíveis para se reproduzirem como tais [p 477]
  • KWAKIUTL:
  • Alguns produtos ocidentais foram subsumidos como valores indígenas […] [com relação aos havaianos] diferença: os kwakiutl adquiriam poderes cósmicos não por meio do consumo das riquezas da economia de mercado, a despeito de envaidecer suas próprias pessoas, mas mediante a dádiva ostensiva de bens, de um modo que significava a incorporação de outras pessoas [p 478]
  • O comércio ocidental havia possibilitado um processo espetacular de desenvolvi-gente, na elaboração do sistema do potlach […] empilhar montanhas de cobertores da baía do Hudson e outros artigos bizarros para doações colossais [p 478] Os cobertores substituíram as peles trabalhadas de vários animais e as túnicas de casca de cedro […] as distinções de classe, feitas por diferentes tipos de peles, já não se expressavam dessa maneira, uma mudança que parece correlacionada à participação de plebeus e mulheres tradicionalmente reservadas à nobreza [479]
  • [cobertores na celebração do casamento] eles incorporam as mesmas qualidades de modo mais intenso, uma vez que os cobertores da baía de Hudson são o produto de negociações sucessivas entre a vida e a morte, na caça, e entre o índio e o estrangeiro, no comércio [p 482]
  • Os índios queriam quantidades cada vez maiores do mesmo produto, signo padronizado de poderes universais, que ao ser publicamente distribuído, teria comparações quantitativas entre suas diferenças qualitativas. A expansão do comércio capitalista descortinou novos panoramas sociais para os chefes kwakiutl e além disso, um processo espetacular de desenvolvi-gente local [p 483]

 

Notas de aula

  • Cosmologia = ideologia = visões de mundo.
  • Por que cosmologias do capitalismo? Seriam as diversas formas como as culturas lidam/lidaram com o capitalismo.
  • Por que o setor transpacífico? Porque não entra Inglaterra, é ela e os EUA fazendo comércio com os povos da China; para fomentar o setor transpacifico teve-se que mobilizar o sistema “mundial” como um todo; utilizou escravos africanos por exemplo.
  • Nossa visão de capitalismo é da perspectiva do ocidente, achamos que quando chega o capitalismo todos se renderiam a ele.
  • [A professora está falando bastante da questão da China que não queria saber das engenhosidades dos britânicos, mas eu não achei isso tão interessante, a questão do desenvolvi-gente parece ser mais legal]
  •  É a ordem cultural que dá sentido às coisas, ele assim utiliza a questão da China? … sei lá…
  • Uma parte da configuração que o sistema mundial foi ganhando, tem a ver com as determinações dos atores [chineses, havaianos… eu acho]
  • Os havaianos compram produtos de luxo; os chefes disputam status e poder; tem que ser luxoso e tem que ser novidade. Os havaianos não se submetem ao que o capitalismo quer vender, eles escolhem, são ativos.
  • Os kwakiutl no potlash passam a usar cobertores e assim há uma exacerbação do ritual, há uma alteração a partir do contato com o ocidente e as peles não utilizadas passaram a ser comercializadas
  • Esse trabalho ocupa uma posição central na obra de Shalins? Incorpora a reflexão sobre a história, retoma o conceito de estrutura da conjuntura e a relação entre evento e história > o evento atualiza a estrutura ou ordem cultural, reproduzindo-a e transformando-a; retoma a crítica da razão prática: o capitalismo é entendido como uma ordem cultural, com características globais e especificações locais.
  • O que determina é a ação simbólica; o significado atribuído é o que significa e cada sociedade significa de uma maneira. Ele retoma o capitalismo como sendo da ordem cultural
  • Relação entre o global e local [está em Geertz e também em raça história de LS]
  • [globalização também leva a uma localização – a professora Roseli falou sobre isso]
  • Quais as teses centrais do trabalho?
  • Cada povo desenvolve relações com o capitalismo com base em suas próprias concepções cosmológicas
  • Qual a concepção da expansão global do capitalismo que o autor combate?
  • Ele debate com um autor dos sistemas mundiais; os povos periféricos reagem passivamente à dominação do sistema capitalista que, e sua expansão global, destrói as culturas locais – ele contesta esse pensamento. Ele mostra que não há passividade
  • Qual a crítica ao sistema mundial?
  • Transforma os povos colonizados em objetos passivos de sua própria história
  • É uma “expressão superestrutural do próprio estruturalismo [444]”
  • Qual a concepção que tem da história mundial do capitalismo?
  • A história do capitalismo envolve uma interação global e diferenciação local “a ordem global [446-7]”
  • Como o autor retoma o conceito de estrutura da conjuntura?
  • “o modo pelo qual as categorias culturais se atualizam num contexto específico, por meio da ação [297]”
  • Um dos aspectos comuns do processo de articulação histórica dos 03 povos periféricos ao capitalismo. Em todos os 03 povos, alguma forma da lógica da dádiva era um princípio importante de suas relações internas e de sua forma de se relacionar com os colonizadores; o capitalismo, simultaneamente, exclui e pressupõe a dádiva, mas sempre como algo que lhe é exterior, dela alimentando-se em algumas instâncias e em outras as destruindo
  • Seriam lógicas diferentes [valor; troca; etc]
  • Quais as principais criticas à Sahlins?
  • Deixa de lado a violência ocidental. Deixa de lado o tema da produção de energia e seu controle, como características distintas da civilização ocidental, tema este desenvolvido por Leslie White e retomado por LS em Raça e História
  • Mas a crítica não seria válida porque Shalins faz o seu recorte [o autor fala da violência, mas não é o seu foco]
  • Quanto à energia: é cobrado do autor [pensar na produção de energia é perceber a produção daquela cultura; avanço tecnológico]; LW trabalhou nisto, então porque Sahlins que foi seu aluno não pensou? Sei lá. Bom… ele fala na espoliação dos havaianos para o aceleramento da produção de sândalo… bom, acho que as críticas de Lanna não são lá essas coisas. Quanto mais energia, mais exploração e mais pobreza… agora me embananei. Enfim… a abordagem de Sahlins era outra.

 

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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