Notas para a prova de sociologia: ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. pp 248 – 281.

Trechos do texto

  • Fenômeno da cultura de massa – “sociedade de massas”; cultura de massas: é a cultura de uma sociedade de massas; senso de reprovação; sociedade de massas uma forma depravada de sociedade; hoje em dia se tornaram respeitáveis; adicionar ao kitsch uma dimensão intelectual. Essa intelectualização do kitsch é justificada com base em que a sociedade de massas, gostemos ou não, irá continuar conosco no futuro previsível; por conseguinte, sua cultura, a cultura popular [não pode] ser relegada ao populacho. A questão é saber se o que é legitimo para a sociedade de massas também o é para a cultura de massas, se a relação entre sociedade de massas e cultura será idêntica à relação anteriormente existente entre sociedade e cultura [p 248, 249]
  • A questão da cultura de massa desperta o problema do relacionamento entre sociedade e cultura; cultural e educado, igualmente irritante, da sociedade europeia, onde a cultura adquiriu um valor de esnobismo e onde tornou-se questão de status ser educado o suficiente para apreciar cultura [p 249, 2550]
  • A sociedade de massa sobrevém quando ‘a massa da população se incorpora à sociedade’; a sociedade de massas indica um novo estado de coisas no qual a massa da população foi a tal ponto liberada do fardo de trabalho fisicamente extenuante que passou a dispor também de lazer de sobra para a ‘cultura’. Sociedade de massas e cultura de massas parecem ser fenômenos inter-relacionados, porém seu denominador comum não é a massa, mas a sociedade na qual também as massas foram incorporadas [p 250]
  • A ‘boa’ sociedade [séc. XVIII e XIX] originou-se provavelmente das cortes europeias do período absolutista; o verdadeiro precursor do moderno homem de massa é esse indivíduo que foi definido e de fato descoberto por aqueles que se encontraram em rebelião declarada contra a sociedade [Rousseau e Stuart Mill, por exemplo]. Desde então, a estória de um conflito entre a sociedade e seus indivíduos tem-se repetido com frequência, tanto na realidade como na ficção; o indivíduo moderno constitui parte integrante da sociedade contra a qual ele procura se afirmar e que tira sempre o melhor de si [p 251]
  • Existe uma importante diferença entre os primeiros estágios da sociedade e da sociedade de massas com respeito à situação do indivíduo; a sociedade propriamente dita se restringia a determinadas classes da população; se baseavam na presença simultânea; os motivos pelos quais os indivíduos aderiam a partidos revolucionários era que descobriam, nos que não eram admitidos à sociedade, certos traços de humanidade que se haviam extinguido na sociedade; a grupos que a sociedade nunca absorve completamente; boa parte do desespero dos indivíduos submetidos às condições da sociedade de massas se deve ao fato de hoje estarem estas vias de escape fechadas, já que a sociedade incorporou todos os estratos da população [p 252]
  • [proposta] nossa atenção recai sobre a cultura sob as dispares condições da sociedade e da sociedade de massas, e portanto nosso interesse pelo artista não concerne tanto ao seu individualismo subjetivo como ao fato de ser ele, afinal, o autentico produtor daqueles objetos que toda civilização deixa atrás de si como a quintessência e o testemunho duradouro do espírito que a animou; os produtores dos objetos culturais máximos […] precisarem se voltar contra a sociedade […] se ter iniciado dessa hostilidade contra a sociedade, à qual permaneceu comprometido [p 252, 253]
  • O libelo que o artista, em contraposição ao revolucionário político, atirou à sociedade foi sintetizado muito cedo = filisteísmo; a princípio para distinguir burgueses de togados; Clemens von Brentano: sátira acerca do filisteu, designava uma mentalidade que julgava todas as coisas em termos de utilidade imediata e de valores materiais, não tinha consideração alguma por objetos e ocupações inúteis tais como os implícitos na cultura e na arte [p 253]
  • Se a questão tivesse permanecido aí, se o principal reproche dirigido contra a sociedade continuasse a ser sua falta de cultura e de interesse pela arte, o fenômeno com que lidamos seria consideravelmente menos complicado do que o fato o é; ao mesmo tempo, seria quase incompreensível o motivo por que a arte moderna se rebelou contra a ‘cultura’, ao invés de lutar simples e abertamente por seus interesses ‘culturais’ próprios. O âmago da questão é que o filisteísmo consiste no ser ‘inculto’ e vulgar [p 253]
  • A sociedade começou a monopolizar a ‘cultura’ em função de seus objetivos próprios: posição social e status; uma íntima conexão com a posição socialmente inferior das classes médias europeias – tão logo adquiriram a riqueza e o lazer suficientes – em uma luta acirrada contra a aristocracia e o desprezo desta pela  vulgaridade do mero afã de ganhar dinheiro. Nessa luta por posição social a cultura começou a desempenhar enorme papel como uma das armas, se não a mais apropriada, para progredir socialmente e para ‘educar-se’, ascendendo das regiões inferiores, onde a realidade estaria situada, para as regiões superiores; fuga da realidade por intermédio da arte e da cultura; conferido à fisionomia do filisteísmo educado ou cultivado suas feições mais características; provavelmente o fator decisivo na rebelião do artista contra seus novos protetores; eles pressentiam o perigo de serem banidos da realidade para uma esfera de tagarelice refinada [p 254]
  • Não há dúvida de que está aqui em jogo muito mais que o estado psicológico do artista; é o status objetivo do mundo cultural que na medida em que contém coisas tangíveis compreende e testemunha todo o passado registrado de países, nações e da humanidade; o único critério não social e autêntico para o julgamento desses objetos especificamente culturais é sua permanência relativa e mesmo sua eventual imortalidade; o ponto crucial é que logo que as obras imortais do passado se tornam objeto de refinamento social e individual, perdem sua qualidade. [p 255]
  • O que irritava no filisteu educado não era que ele lesse clássicos, mas que ele o fizesse movido pelo desejo dissimulado de auto-aprimoramento, continuando completamente alheiro ao fato de que Shakespeare ou Platão pudessem ter a dizer-lhes coisas mais importantes do que a maneira de se educar [p 255]
  • Kitsch do século XIX; cuja falta de senso de forma e estilo, tão interessante do ângulo histórico, guarda íntima conexão com a ruptura entre as artes e a realidade; a sociedade bem educada perdera seu domínio monopolizador sobre a cultua, junto com sua posição dominante na população como um todo [p 256]
  • Após a aparição da arte moderna: desintegração da cultura; a cultura ainda mais que outra realidades, se tornara aquilo que somente então as pessoas passaram a chamar de ‘valor’, uma mercadoria social que podia circular e se converter em moeda de troca de toda espécie de valores, sociais e individuais [p 256]
  • Os objetos culturais foram de início desprezados como inúteis pelo filisteu até que o filisteu cultivado lançasse mão deles como meio circulante; comprava uma posição mais elevada, um grau mais alto de auto estima [p 256]
  • Os valores culturais perderam a faculdade de prender nossa atenção e de nos comover; a tarefa de preservar o passado sem o auxílio da tradição e, amiúde, até mesmo contra modelos e interpretações tradicionais, é a mesma para toda a civilização ocidental; o fio da tradição está rompido e temos que construir o passado por nós mesmos [p 257]
  • Talvez a principal diferença entre a sociedade e a sociedade de massas esteja em que a sociedade sentia necessidade de cultura, valorizava e desvalorizava objetos culturais ao transformá-los em mercadorias e usava e abusava deles em proveito de seus fins mesquinhos, porém não os ‘consumia’. Mesmo em suas formas mais gastas esses objetos permaneciam sendo objetos e retinham um certo caráter objetivo; desintegravam-se até se parecerem a um montão de pedregulhos, mas não desapareciam. A sociedade de massas, ao contrário, não precisa de cultura, mas de diversão, e os produtos oferecidos pela indústria de diversões são com efeito consumidos pela sociedade exatamente como quaisquer outros bens de consumo. Os produtos necessários à diversão servem ao processo vital da sociedade, ainda que possam não ser tão necessários para sua vida como o pão e a carne. Servem para passar o tempo e o tempo vago que é ‘matado’ não é tempo de lazer; ele é antes um tempo de sobra, que sobrou depois que o trabalho e o sono receberam seu quinhão. O tempo vago que a diversão deveria ocupar é um hiato no ciclo do trabalho condicionado biologicamente [p 258]
  • Sob as condições modernas, esse hiato cresce constantemente; há cada vez mais tempo livre que cumpre ocupar com entretenimentos, mas esse enorme acréscimo no tempo vago não altera a natureza do tempo […] E a vida biológica constitui sempre, seja trabalhando ou em repouso, seja empenhada no consumo ou na recepção passiva do divertimento, um metabolismo que se alimenta de coisas devorando-as. As mercadorias que a indústria de divertimentos proporciona são ‘coisas’, sua excelência é medida por sua capacidade de suportar o processo vital e de se tornarem pertences permanentes do mundo e não deveriam ser julgadas em conformidade com tais padrões […] são bens de consumo […] desaparecem no decurso do processo vital […] os padrões devem ser julgados como novidade e ineditismo […]  julgar tanto objetos culturais como artísticos, os quais se espera que permaneçam no mundo mesmo depois que nós o deixarmos, indica o grau com que a necessidade de entretenimento começou a ameaçar o mundo cultural […] o problema não provem da sociedade de massas ou da indústria do divertimento […] a sociedade de massas provavelmente é uma ameaça à cultura menor que o filisteísmo da boa sociedade [p 258]
  • [cultura como produto] enquanto a indústria de divertimentos produzir seus próprios bens de consumo, não podemos mais censurá-la pela não-durabilidade de seus artigos, assim como não criticamos uma padaria por produzir bens que, sob pena de se estragarem, devem ser consumidos logo que são feitos […] característico do filisteísmo educado: desprezar o entretenimento e a diversão […] a verdade é que todos nós precisamos de entretenimento e diversão de alguma forma […] não passa de pura hipocrisia ou esnobismo social negar que possamos nos divertir e entreter exatamente com as mesmas coisas que divertem e entretêm as massas [p 259]
  • [aproveitam o passado de forma superficial] a indústria de entretenimento se defronta com apetites pantagruélicos […] ela precisa oferecer constantemente novas mercadorias […] os que produzem esgravatam toda a gama da cultura passada […] deve ser alterado para se tornar entretenimento, preparado para consumo fácil [p 259]
  • A cultura de massa passa a existir quando a sociedade de massas se apodera dos objetos culturais […] [redução da arte] sua natureza é afetada quando estes mesmos objetos são modificados, reescritos, condensados, resumidos, reduzidos a kitsch […] a cultura é destruída para produzir entretenimento, não é desintegração, mas empobrecimento […] os que o promovem são um tipo especial de intelectual [Ex.: Arnaldo Jabor] cuja função é organizar, disseminar e modificar objetos culturais com o fim de persuadir as massas [p 260]
  • A cultura relaciona-se com objetos e é um fenômeno do mundo; o entretenimento relaciona-se com pessoas e é um fenômeno da vida. Um objeto cultural na medida em que pode durar […] o grande usuário e consumidor de objetos é a própria vida […] a vida é indiferente à qualidade de um objeto enquanto tal; ela insiste em que toda coisa deve ser funcional […]
  • A cultura é ameaçada; os objetos e coisas seculares são tratados como meras funções para o processo vital da sociedade; nessa funcionalização é praticamente indiferente saber se as necessidades em questão são de ordem superior ou inferior […] a beleza de uma catedral transcende necessidades e funções, jamais transcende o mundo; transforma conteúdos e preocupações religiosas e supra-mundanas em interesses e conteúdos seculares [p 261]
  • Do ponto de vista da mera durabilidade, as obras de arte são claramente superiores a todas as demais coisas; e, visto ficarem no mundo por mais tempo do que tudo o mais, são o que existe de mais mundano entre todas as coisas. Elas são, além disso, os únicos objetos sem qualquer função no processo vital da sociedade; estritamente falando, não são fabricadas para homens, mas antes para o mundo que está destinado a sobreviver ao período de vida dos mortais […] isoladas da esfera das necessidades humanas [p 262]
  • A questão aqui não é saber se a mundanidade, a capacidade para fabricar e criar um mundo, constitui parte integrante da natureza [p 262] […] Esse lar terreno somente se torna um mundo no sentido próprio da palavra quando a totalidade das coisas fabricadas é organizada de modo a poder resistir ao processo vital consumidor das pessoas que o habitam, sobrevivendo assim a elas. Somente quando essa sobrevivência é assegurada falamos de cultura, e somente independentemente de Todas as referências utilitárias e funcionais e cuja qualidade continua sempre a mesma, falamos de obras de arte [p 263]
  • Qualquer discussão acerca de cultura deve de algum modo tomar como ponto de partida o fenômeno da arte [como assim?] […] o critério apropriado para julgar aparências é a beleza [qual beleza?] […] para nos tornarmos cônscios das aparências é necessários sermos livres para estabelecer certa distância entre nós mesmos e o objeto [super fácil] […] esquecer a nós mesmos […] não usurpemos aquilo que admiramos, mas deixemo-lo ser […] tal atitude só pode ser vivida depois que as necessidades do organismo vivo já foram supridas […] liberados das necessidades de vida, os homens passam a estar livres para o mundo [p 263]
  • Problema da sociedade de massa: sociedade do consumo […] energia vital, não mais despedida na labuta de um corpo no trabalho, precisa ser gasta pelo consumo, é como se a própria vida se esgotasse, valendo-se de coisas que jamais foram a ela destinadas. O resultado não é a cultura de massas, que em termos estritos não existe, mas sim o entretenimento de massas, alimentando-se dos objetos culturais do mundo [isso é importante: entre o passado e o futuro = o nosso presente] [p 264]
  • [breve conclusão da parte I] o fato é que uma sociedade de consumo não pode absolutamente saber como cuidar de um mundo e das coisas que pertencem de modo exclusivo ao espaço das aparências mundanas, visto que sua atitude central ante todos os objetos, a atitude do consumo, condena à ruína tudo em que toca [p 264]
  • [parte II] cultura e arte são a mesma coisa; o problema da natureza da cultura e de seu relacionamento ao âmbito da política [desenvolvimento do pensamento da autora quanto à política = consequências] [p 265]
  • Palavra cultura [origem romana] colere: cultivar, habitar, tomar conta, criar e preservar; relaciona-se com o trato do homem com a natureza; um carinhoso  cuidado; oposição a todo esforço de sujeitar a natureza à dominação do homem; conexão da cultura com a natureza; cultura = agricultura; a agricultura era tida em alta conta em Roma em oposição às artes poéticas e de fabrico [p 265]
  • A grande arte e poesia romana veio a existir sob o impacto da herança grega que os romanos, mas jamais os gregos, souberam como tomar sob cuidado e como preservar. O motivo por que não há nenhum equivalente grego para o conceito romano de cultura repousa na prevalência das artes de fabricação da civilização grega. Ao passo que os romanos tendiam a enxergar mesmo na arte uma espécie de agricultura, de cultivo da natureza, os gregos tendiam a considerar mesmo a agricultura como parte integrante da fabricação, incluída entre os artifícios ‘técnicos’ ardilosos e hábeis com que o homem, mais imponente do que tudo que existe, doma e regra a natureza […] os gregos não sabiam o que é cultura porque não cultivavam a natureza, mas em vez disso arrancavam do seio da terra os frutos que os deuses haviam ocultado dos homens […] Conjuntamente, cultura no sentido de tornar a natureza um lugar habitável para as pessoas e cultura no sentido de cuidar dos monumentos do passado ainda hoje determinam o conteúdo e o significado que temos em mente ao falarmos de cultura [p 266]
  • Compreendemos por cultura a atitude para com, ou melhor, o modo de relacionamento prescrito pelas civilizações com respeito às menos úteis e mais mundanas das coisas, as obras de artistas, poetas, músicos etc […] Péricles: ‘amamos a beleza dentro dos limites do juízo político, e filosofamos sem o vício bárbaro da efeminação’ […] o sentido dessas palavras começa a despontar para nós, há muito motivo para surpresa [real sentido das palavras] [p 267]
  • Seria possível que o amor à beleza permanecesse bárbaro a menos que acompanhado da faculdade de fazer mirar no julgamento, por essa curiosa e imprecisa capacidade que chamamos de gosto? Será possível que esse reto amor à beleza, o adequado modo de relacionamento com as coisas belas – a cultura animi que torna o homem apto a cuidar das coisas do mundo e atribuída por Cícero, em contraposição com os gregos, à Filosofia -, tenha algo a ver com a política? Pertenceria o gosto à classe das facultadas políticas? [p 268]
  • Aqui cultura e arte não são a mesma coisa [oxente] […] os gregos possuíam uma palavra para filisteísmo […] uma mentalidade exclusivamente utilitarista, uma incapacidade para pensar em um coisa e para julgá-la à parte de sua função ou utilidade […] o filisteísmo era considerado como um vício cuja ocorrência seria mais de esperar naqueles que houvessem dominado uma tékhne, em fabricantes e artistas […] a desconfiança e efetivo desprezo pelos artistas surgiram de considerações políticas:  a fabricação de coisas, incluindo a produção de arte, não pertence ao âmbito das atividades políticas; põe-se em oposição a elas […] a fabricação, mas não a ação ou a fala, sempre implica meios e fins; de fato, a categoria de meios e fins obtém sua legitimidade da esfera do fazer e do fabricar, em que um fim claramente reconhecível, o produto final, determina e organiza tudo que desempenha um papel no processo […] os gregos suspeitavam que tal filisteísmo ameaçava também o âmbito da política [p 269] e o próprio âmbito cultural, visto levar a uma desvalorização das coisas enquanto coisas […] em consequência, perderão seu valor intrínseco e independente, degenerando por fim em meros meios [p 270]
  • A maior ameaça à existência da obra acabada emerge da mentalidade que a fez existir […] padrões e regras […] decorar o mundo de coisas em que nos locomovemos perdem sua validez e se tornam positivamente perigosos ao serem aplicados ao próprio mundo acabado [p 270]
  • O homo faber não está, face ao âmbito público e sua publicidade, no mesmo relacionamento que as coisas que ele faz com sua aparência, configuração e forma. Para estar em posição de constantemente acrescentar coisas novas ao mundo já existente, deve ele mesmo isolar-se do público, precisa ser defendido e dissimulado dele. Atividades verdadeiramente políticas, por outro lado, o agir e o falar, não podem de forma alguma ser executadas sem a presença de outrem, sem o público, sem um espaço constituído pelo vulgo […] esta é a verdadeira indisposição do artista, não pela sociedade, porém pela política, e seus escrúpulos e desconfiança da atividade política não são menos legítimos que a desconfiança dos homens de ação contra a mentalidade do homo faber . Nesse grupo emerge o conflito entre arte e política, e tal conflito não pode nem deve ser solucionado [p 271]
  • O ponto em questão é que o conflito dividindo em suas respectivas atividades o político e o artista, não mais se aplica quando voltamos nossa atenção da produção artística para seus produtos, para as próprias coisas que precisam encontrar um lugar no mundo […] no encobrimento da vida privada e da posse privada, objetos de arte não podem atingir sua própria validez inerente; é forçoso que sejam protegidos da possessividade dos indivíduos […] o lugar onde os colocamos seja característico de nossa ‘cultura’, nosso modo de comunicação com eles; a cultura indica que o domínio público, que é politicamente assegurado por homens de ação, oferece seu espaço de aparição àquelas coisas cuja essência é aparecer e ser belas. Cultura indica que a arte e política, não obstante seus conflitos e tensões, se inter-relacionam e até são dependentes […] a beleza é a própria manifestação da imperecibilidade […] pode durar sobre o mundo na medida em que se lhe confere beleza. Sem a beleza, a imortalidade potencial é manifestada; toda vida humana seria fútil [p 272]
  • O elemento comum que liga arte e política é serem ambos fenômenos do mundo público. O que medeia o conflito do artista com o homem de ação é a cultura animi, uma mente de tal modo educada e culta [?] que se lhe pode confiar o cuidado e a preservação de um mundo de aparências cujo critério é a beleza [p 273]
  • Kant [amooooo] analítica do belo; do ponto de vista do espectador ajuizante; toma como ponto de partida o fenômeno do gosto, entendido como uma conexão ativa com o que é belo [p 273]
  • Faculdade do juízo; implica uma atividade mais política que meramente teórica; Crítica da Razão Prática: trata da faculdade legislativa da razão; imperativo categórico; “age sempre de tal maneira que o princípio de tua ação possa se tornar uma lei universal” [eu quero o Kant para mim]; por o pensamento racional em harmonia consigo mesmo; o ladrão, por exemplo, está na realidade em contradição consigo mesmo; uma lei desse tipo privá-lo-ia imediatamente de sua própria aquisição […] Sócrates: “como sou um, para mim é melhor discordar de todos que estar em discórdia comigo mesmo”; Kant: não bastaria estar em concórdia com o próprio eu, e que consistia em ser capaz de ‘pensar no lugar de todas as demais pessoas: mentalidade alargada [ahhhh, é um tudo mesmo!] [p 274]
  • Esse modo alargado de pensar não pode funcionar em estrito isolamento ou solidão, ele necessita da presença de outros […] Como a lógica, para ser correta, depende da presença do eu, também o juízo, para ser válido, depende da presença de outros. O juízo é dotado de certa validade específica, mas não é uma universalmente válido [p 275]
  • Que a capacidade para julgar uma faculdade especificamente política, exatamente no sentido denotado por Kant, a saber, a faculdade de ver as coisas não apenas do próprio ponto de vista mas na perspectiva de todos aqueles que porventura estejam presentes; que o juízo pode ser uma das faculdades fundamentais do homem enquanto ser político na media em que lhe permite se orientar em um domínio público, no mundo comum: a compreensão disso é virtualmente tão antiga como a experiência política articulada. Os gregos davam a essa faculdade o nome de phrónesis, ou discernimento, e consideravam-na a principal virtude ou excelência do político, em distinção da sabedoria do filósofo [p 275]
  • Kant: ao examinar o fenômeno do gosto, uma espécie de juízos, dizerem respeito a questões estéticas, sempre se supôs jazerem além da esfera política, assim como o domínio da razão. Kant que decerto não era super-sensível às coisas belas, era profundamente cônscio da qualidade pública da beleza […] o gosto na medida em que, como qualquer outro juízo, apela ao senso comum, é o próprio oposto dos ‘sentimentos íntimos’; juízos estéticos; certa subjetividade pelo mero fato de que cada pessoa ocupa um lugar seu, do qual observa e julga o mundo; A atividade do gosto decide como esse mundo deverá parecer e soar; o gosto julga o mundo em sua aparência e temporalidade; para os juízos do gosto, o mundo é objeto primário, e não o homem, nem a vida do homem, nem seu eu [p 276]
  • Kant: a pessoa que julga pode apenas ‘suplicar a aquiescência de cada um dos demais’, para se chegar a algum acordo. Esse suplicar para os gregos é o discurso convincente e persuasivo tido para eles como a forma tipicamente política de falarem […] a persuasão regulava as relações entre os cidadãos da polis porque excluía a violência física […] para Aristóteles o diálogo do filósofo consistia no conhecimento e na descoberta da verdade, exigindo um processo de prova. Cultura e política, nesse caso, pertencem à mesma categoria porque não é o conhecimento ou a verdade que está em jogo, mas sim o julgamento e a decisão, a judiciosa troca de opiniões sobre a esfera da vida pública e do mundo comum [p 277]
  • Todos nós sabemos muito bem com que rapidez as pessoas se reconhecem umas às outras e percebem afinidades que as identificam; é como se o gosto não apenas decidisse como deve ser o mundo, mas quem pertence a uma mesma classe de pessoas; no âmbito da política podemos ter um princípio aristocrático de organização; por seu modo de julgar a pessoa revela algo de si mesma [Bingo] […] o domínio político se opõe ao domínio no qual vivem e em última instancia, o que importa é a qualidade, os talentos do fabricante e a qualidade das coisas que ele fabrica. O gosto não julga essa qualidade; a qualidade está além de discussão, ela não é menos coercivamente evidente que a verdade e se situa além das decisões do juízo […] o gosto enquanto uma atividade da mente realmente culta [eita] – cultura animisomente vem à cena quando a consciência de qualidade se acha amplamente difundida, o gosto discrimina e decide entre qualidades [p 278] ele introduz, no âmbito da fabricação e da qualidade, o fator pessoal, confere-lhe uma significação humanística. O gosto humaniza o mundo do belo; cuida do belo à sua própria maneira ‘pessoal’ e produz assim uma ‘cultura’ [p 279]
  • Cícero: para o autêntico humanista, nem as verdades do cientista, nem a verdade do filósofo podem ser absolutas; o humanista não é um especialista, exerce uma faculdade de julgamento e de gosto que está além da coerção que nos impõe cada especialidade [GOSTEI] “no que concerne à minha associação com homens e coisas, recuso-me a ser coagido, ainda que pela verdade e pela beleza” [p 280]
  • Esse humanismo é resultado da cultura animi, de uma atitude que sabe como preservar, admirar e cuidar das coisas do mundo. Ele tem a tarefa de servir de árbitro e mediador entre as atividades puramente políticas e fabris. Enquanto humanistas, podemos nos elevar acima desses conflitos entre o político e o artista, do mesmo modo como nos podemos nos elevar em liberdade acima das especialidades; nos elevarmos acima da especialização e do filisteísmo; aprendamos como exercitar livremente o nosso gosto; seremos capazes de compreender que mesmo que toda a crítica a Platão esteja correta, Platão ainda será melhor companhia que seus críticos.
  • Uma pessoa culta para os romanos: alguém que soubesse como escolher sua companhia entre homens, entre coisas e entre pensamentos, tanto no presente como no passado [p 281] 

Notas de aula: 

  • Esse livro a autora julga ser sua iniciação.
  • Os capítulos são independentes e tratam de questões cruciais para o seu pensamento: liberdade, educação, autoridade, crise na cultura, verdade e política; neste livro temos uma amostra do seu pensamento.
  • Arendt se insere no paradigma na fenomenologia, e se diz como uma expatriada, uma judia que vive nos EUA; ela é influenciada por Heideguer [?] este era um nazista.
  • Seu tema central é o totalitarismo.
  • Sobre o conceito de pensar: ela se preocupa em restituir sentidos perdidos das palavras, que estão no senso comum, mas que têm em suas origens pistas sobre seus reais sentidos.
  • Foi polêmica porque inocenta um nazista, ela diz isso não como uma nazista, mas como uma judia, ela não se sentiu representada pelo tribunal dos judeus, pois era um crime contra a humanidade, não contra os judeus, ela diz que ele era inocente porque ele não era capaz de pensar, isso significa que ele não pensou de acordo com o sentido do pensamento que para ela é situar-se entre o passado e o futuro e isso é o presente.
  • Entre o passado e o presente há uma banalização dos sentidos, há uma perda da tradição isso é o desenvolvimento do raciocínio que nasce na antiguidade, há uma lógica do desenvolvimento de conceitos que estão na atribuição de sentidos, abrindo um abismo entre o passado e o presente, dando em uma imaterialidade e incapacidade de atribuir sentidos concretos, uma ausência de pensamento é não conseguir aprender com o passado, ver o presente e pensar no futuro.
  • O nazista não conseguindo pensar, quer dizer que não soube olhar para o passado para analisar o que propiciou o campo de concentração e perceber as consequências futuras. Esse tipo de dinâmica está presente em vários indivíduos e é característica da modernidade é o filisteísmo.
  • Nós, por exemplo, temos um conceito de política que está associado à violência, ao uso da força física, mas para a autora seu sentido está desvinculado da violência e sim ao diálogo, esse sentido é buscado no passado, na antiguidade, assim, o nazista é inocente de acordo com essa visão, condená-lo seria como condenar uma criança.
  • A lacuna entre o passado e o futuro, o espaço entre eles, a autora chama de fenda, brecha ou abismo, esta lacuna diz respeito ao presente. Para preencher este espaço é preciso o pensar, assim ela reivindica uma forma de atribuir sentidos ao presente buscando sentidos no passado para estabelecer uma ação de projeto futuro.
  • Ela olha para a realidade com vistas a se cuidar e atribuir sentido ao mundo de forma a obter projetos futuros para a melhoria da sociedade, a ausência dessa forma de pensar gera o autoritarismo ou os regimes autoritários.
  • [o período da autora é muito influenciado pela guerra]
  • [Fenomenologia: não existe uma verdade absoluta [sei lá] é um método rigoroso, mas que não tem um ponto de chegada absoluto, ou seja, não se pode dizer o que se quiser]
  • A base é influenciada por Roma, mas às vezes recorre à Grécia.
  • Este texto é referente à crise na cultura e foi escolhido porque tem um ponto de vista diferente do que estudamos até agora, assim temos a oportunidade de comparar o método de produção das ideias: cartesianos e fenomenologia
  • Por que ela diz que não existe cultura na Grécia? Ela toma a cultura a partir de colere: é um tema latino que dá origem a palavra cultura e significa cuidado. Esse cuidado é inicialmente com a agricultura, a agricultura é um cuidado com o solo, isso é importante porque quando diz que na Grécia não existia cultura, significa que existe a contemplação da vida e não uma vida ativa = Vita contemplativa e vita activa. A contemplativa é a filosofia, a vida do espírito e a vida ativa é a vida concreta, a vida material. A vida material se organiza em algumas atividades como ação, trabalho labor.
    • Ação = homo politikós
    • Trabalho = homo faber
    • Labor = animal laborans
    • Não há uma correspondência direta entre vida contemplativa e as três atividades acima
  • A ação é um modo de viver, mas na Grécia também está associado à vida contemplativa, isso serve para que possamos pensar os conceitos fragilizados pelo senso comum, se recuperarmos esses conceitos conseguimos compreender melhor as nossas ações.
  • Na antiguidade o conceito de Vita é biós [formas de viver que remetem diretamente à política] e zoé [vida animal]
  • Se olhamos hoje, o debate da autora começa com Marx que tem uma visão do trabalho que é conceituado com os três elementos, para a autora não é assim, são ações que têm implicações diferentes para o homem. Se seguirmos Marx estaremos reduzindo a condição humana à zoé [vida animal], para Marx seria apenas uma questão de manter o indivíduo vivo, para Marx em alguns momentos, o que importa para humanidade é manter-se vivo e isso gira em torno da necessidade de igualdade entre os homens, seriam apenas questões materiais, haveria necessidades reais e as fabricadas, as necessidades concretas seriam para a manutenção da vida, a desigualdade seria material.
  •  O pensamento de Marx é importante porque seria colocada zoé acima da bios [sei lá]
  • Aquele nazista cumpria ordens isso desconsiderando as referências do passado e a proposta do pensar da autora.
  • Quando tomamos uma atitude, como mandar alguém embora, com ausência de pensamento, podemos reconhecer que aquela atitude é voltada para o mal [no livro do nazista se fala da banalidade do mal], se todos forem dotados do pensamento não haveria atitudes prejudiciais.
  • Se aquele nazista tivesse pensado à longo prazo, o horror não teria acontecido.
  • A perda do pensar se deveria ao cartesianismo que teria iluminado demais a razão, uma ideia de que quanto mais eu ilumino, menos eu enxergo [lembrar da cegueira branca do Saramago]
  • Fenomenologia: só é possível ter pistas sobre a verdade. A capacidade de pensar é a capacidade de lidar com os cacos do passado.
  • A fenda é a perda da tradição, que seria uma herança sem testamento. Não saberíamos o que fazer com a riqueza do passado, assim podemos utilizar essa riqueza de maneira equivocada.
  • Para a autora a vida contemplativa e a ativa constituem apenas uma vida. O abandono dos conceitos seria uma forma de banalizar a vida, seria uma vida vivida através da causalidade.
  • Hoje por exemplo, o conceito de cidadania por ser o fato de não se jogar lixo na rua, mas o conceito original é muito maior. Essa simplificação dos conceitos poderia gerar  consequências para o futuro. Não jogar lixo não deveria estar ligado a um pensamento individual, mas sim às consequências [vistas ao futuro] do jogar o lixo [cai no bueiro, dá enchente, etc]
  • Se eu não atribuo sentido ao mundo o mundo se torna banal, os homens lidam com o mundo de forma consumista. Isso faz com que o mundo desapareça
  • Qual a diferença entre ação, trabalho e labor:
    • Ação: interação, domínios, materialização da liberdade [a liberdade para a autora só é possível com o controle; a internet possibilita resistir à sociedade do controle, mas é a interação que torna possível o controle – eita papo de doido – na internet se responde à interação, assim se controla; em Maquiavel o que garante a liberdade é a lei – bacana. Política. Desenvolvimento da biós
    • Trabalho: é uma ação cujo produto fornece durabilidade ao mundo, o homo faber tem por produto algo que fornece durabilidade [construção de um aqueduto romano, por exemplo, um livro, etc. um artista é um homo faber]
    • Labor: cujo trabalho é consumido, o produto é feito para desaparecer, o produto tem um caráter transitório, descartável [padeiro, por exemplo] trabalha com o zoé, a autora coloca animal laborans e não homo, porque seria a sua atividade mais animalesca, só se preocupa com a manutenção da vida. A modernidade fez o labor vencer o homo faber. O duradouro pelo efêmero. Marx já lida com a vitória do animal labor sobre o homo faber. [sinceramente? Não acho que isso é totalmente verdade, acho que sempre há uma visão de catástrofe no humano… sei lá…]
  • Ética da responsabilidade não é um termo da autora, mas se aplica ao seu pensamento quanto à liberdade que existe apenas sob controle. [o professor deu o exemplo do ENADE boicotado por ex-alunos da ESP, foi um ato irresponsável que não foi ‘pensado’ conforme a ideia de pensamento de Arendt – ponte entre o passado e o futuro]
  • A autora termina o texto citando Platão do qual ela é contrária, mas diz preferir Platão do que seus autores, porque o primeiro simboliza o conceito ‘puro’ e seus críticos não [sei lá], quanto mais distante do conceito ou quanto menos os executamos mais ele perde os seus fundamentos.
  • [O que está acima quer mostrar os conceitos centrais da autora, questões que dizem respeito ao fazer a sua matéria, agora vamos falar do texto propriamente dito]
  • Pergunta: sociedade e cultura de massa se mantém? Há uma mudança na maneira de olhar o mundo trazida pela sociedade de massa, entre os termos sociedade e cultura há complementariedade, a questão é se essa relação se mantém.
  • A cultura continua mantendo o papel de ser o produto do homo faber emprestando durabilidade ao mundo. Se não há isso, se há uma cultura inteira consumida, um dia ela desaparece.
  • O que legitima a propriedade é o trabalho [Locke]. A cultura da terra a mantém, é o trabalho do homo faber, ele deixa vestígios de humanidade pelo mundo, sabe-se do homem porque ele fabrica produtos que deixam seus vestígios sobre a terra.
  • O homem toma o cuidado de, onde ele põe a mão, estabelecer um sentido com a sua ‘obra’: pensar na fachada de uma casa. A condição humana implica a necessidade da atribuição de sentido. A cultura de massa privaria o homem de atribuir sentido ao mundo, fazendo dele descartável, um mundo que não suscite novos sentidos para as relações sociais.
  • Temos a figura do filisteu que é o individuo que simboliza a cultura de massa, ele é aquele que não cuida do mundo, que age sob a ética da finalidade última, não age sob a ética da responsabilidade que envolve toda a responsabilidade da coletividade. Ele usa a palavra no sentido imediato sem recorrer aos conceitos do passado. Ele não avalia as consequências da banalização dos conceitos. Não faz a reflexão e banaliza. Ele tem o objetivo de se ‘divertir’, sustentar a sua vida e sua família, as grandes construções ficam para os outros, quando há um tempo livre ele descansa; se contenta com a vida que tem; priva o individuo de encontrar outras alternativas para a sua existência. Ele não tem tempo para desenvolver outros raciocínios para a sua vida. Um sujeito 100% filisteu passa pelo mundo sem que ninguém o tenha percebido.
  • O tempo livre tem sido associado à diversão, o tempo livre que fora utilizado para a vida contemplativa, está esvaziado. O tempo livre poderia ser utilizado para a contemplação e para execução das ações, homo faber e animal laborans.
  • O tempo na sociedade de massa traz uma espécie de imobilidade, acaba com a mobilidade, não há a possibilidade de se mover fora do modelo da sociedade de massa [capitalismo, temporalidade do trabalho, mídia, etc].
  • A ideia de massa é a homogeneidade, a cultura de massa quer ser a única cultura e esse processo só pode ser freado com a ação do homo faber, o político poderia se negar a receber o produto do labor, mas não pode construir uma alternativa e quem constrói é o homo faber, mas a politica é importante no sentido da viabilização da produção.
  • O filisteu opera com a lógica do utilitarismo, isso elimina o caráter afetivo do homem [casamento para isso, posição social para aquilo outro]. Os objetos culturais são vistos como valores de troca, lida-se com a obra de arte legítima como comércio e valores de troca, a consequência é que a arte legítima se desgasta.
  • Um objeto da cultura é feito para durar para sempre, mas quando vira mercadoria ele se consome, se perde.
  • O rompimento da tradição significa que não importa o sentido de cidadania do passado, significa que o usarei de acordo com as minhas necessidades do agora.
  • O objeto artístico convoca o humano a pensar, mas uma vez que seja consumível não haveria a possibilidade da reflexão sobre a obra de arte e consequente mudança no status quo.
  • É causado nos indivíduos um acostumar-se a não olhar para o passado. Nós alunos, quando fazemos um trabalho sempre recorremos à bibliografia para que possamos nos fundamentar, isso é uma forma de pensar de acordo com o conceito da autora.
  • As considerações da autora trazem reflexões importantes quanto à condição humana, uma reflexão filosófica. Se pensarmos sobre todos os autores que escreveram sobre o humano, perceberemos que eles emprestaram sentido à condição humana [ah… que lindo]
  • Não se é possível dizer exatamente sobre o que é condição humana, há várias atribuições de sentido, cada um pegará as referências que lhe dizem respeito, porém de maneira fundamentada, para atender a ideia da autora e da fenomenologia.
  • Cultura de massa pode simbolizar algo como consumível, portanto fadado a desaparecer.
  • A cultura de uma forma geral é a possibilidade de fazer a natureza habitável para todos.
  • Um cenário onde possa haver a existência do homem é o cuidado com o passado.
  • Cultura e política: arte e política são conflitantes porque ambas são fenômenos públicos e disputam a audiência e uma visibilidade no mundo. A autora não vê essa contradição como negativa, acha positiva; estetização da política, quando a arte dá forma a politica, e a politização da arte, seria um emprestar sentido para colocar o homem em ação [Guernica, por exemplo]. Se a arte é utilizada na política, esta fica muito mais maquiavélica, chamar a emoção do público é uma estetização da política. 

Aula Especial – Hannah Arendt

  • [a base desta aula é um artigo do professor]
  • Sete imagens que trazem contribuições para a construção de um olhar sociológico
  • 1ª imagem: poema de Manoel de Barros – retrato como coisa; olhar voltado para a terra, para as pequenas coisas da vida [outsiders]; atenção aos detalhes da sociedade; relações de inclusão e exclusão [Elias e Goffman]
  • 2ª imagem: poema de Carlos Drummond de Andrade; o poema narra o próprio autor caminhando por uma estrada [metáfora da vida], em busca da máquina do mundo: busca pelas respostas do mundo; sua vida se resume a esta busca; aparece a máquina que lhe dá todas as respostas, ele se nega a aceita-la, ela desaparece, e ele continua pela vida refletindo pela perda da máquina;
  • 3ª imagem: filme; imagens sem palavras ficam doentes, o mundo é feito de imagens, o mundo humano é protegido pelas palavras; vivemos em um mundo encoberto que deve ser descoberto, mas como fazer o mundo sem palavras? A ideia é fazer uma referência ao imaginário e como ele se divide em imagens que vão para a tela ou para a caverna ou ainda para as palavras; estamos mais próximos de sentir o mundo do que entender o mundo, somente o que temos é a palavra, não sabemos sentir sem as palavras; é mais importante o que fica fora do que dentro do quadro [filme]; o sociólogo escolhe por que tem que escolher a história que irá contar; quantas histórias a civilização deixou de contar? Não há outra maneira de viver a não ser escolhendo entre uma coisa e outra; Doxa = opinião; Platão rompe com o socratismo e com a tal da doxa; Arendt e Benjamim e a questão do narrador;
  • 4ª imagem: historiador como pescador de pérolas; Arendt não é preocupada com o passado, mas é essa espécie de pescadora de pérolas, o passado deve ser resgatado para ser ressignificado no presente; quando não se pode ressiginificar o passado é impedida a sabedoria prática com a sabedoria teórica; o pescador de pérolas é também uma metáfora do cientista social; seria preciso olhar para o passado em busca das preciosidades;
  • 5ª imagem: quadro [é um anjinho em primeiro plano que mantém o olhar para trás, um olhar para o passado, para fora da tela]; Arendt: se não sabemos quem somos e de onde viemos, como podemos comunicar coerentemente algo a alguém? A história deve deixar de ser pensada como uma sucessão de eventos, deve haver correspondências entre o passado e o presente; a narrativa deve buscar o passado que está fragmentado [Arendt]; todas as mágoas são suportáveis quando podemos conta-las e refletir sobre elas; qualquer sujeito é ator e narrador; o importante não é estar aqui ou lá, é preciso SER [Drummond]
  •  6ª imagem: artista que se desloca da realidade para agir e pensar; é sobre o filme de Capra, sei que tem o político que é ‘negativo de pensamento’ que não deveria ser, este deveria ser o ser provido de pensamento [não estou entendendo porra nenhuma];

Tema da liberdade

  • Compromisso com a ciência e educação;
  • As regras são inevitáveis, são elas que permitem a convivência, mas elas precisam ser dosadas; o limite indica até onde as coisas podem ser suportadas e a liberdade pode ser prejudicial ao convívio; a liberdade é algo que se exerce; exerce a liberdade quem entende os limites, é preciso reconhecer seus paradoxos;
  • Kafka: ‘o castelo, é uma obra do autor’; não enxergamos o trágico presente do cotidiano [lembrar do mito do cara que rola a rocha até o cume da montanha todos os dias; condenado a um trabalho eterno e sem retorno; ausência de consciência; alienação] Creio que está tudo bem: é uma frase maldita; uma frase dos resignados, dos conformados; o cotidiano dos homens, quando alienados, é cheio de esperanças; os cientista social teria um olhar trágico, diferente do olhar alienado; o nosso olhar deve ser de fora;
  • A perda da tradição não é a perda do passado [Arendt]; tradição é a transmissão de certos conteúdos e vínculos com o passado; uma ligação com cada geração e seus aspectos específicos, para que o passado não seja esquecido;
  • A época moderna conduziu o homem que, onde quer que vá, só encontra a si mesmo, é uma perda do mundo [não importância do passado]; eles vivem em uma situação, não atribuem novos sentidos, assim não seria possível pensar em nossa existência [Arendt]; daí a importância para o cientista social prestar atenção às pequenas coisas do cotidiano, como sugere Manoel de Barros;
  • Os indivíduos têm plenas condições de pensar na época da modernidade, pois esta época é uma época de solidão e para Arendt o pensamento é um ato solitário; mas esta ação solitária não deve perder o mundo de vista;
  • A liberdade não é livre arbítrio, este denota uma vontade egoísta, liberdade é o agir coletivamente e politicamente para o bem comum;

Voltando:

  • 7ª imagem: ser vivente na arte: o artista enquanto coisa; perde-se de si, é o que se chama solidão; [Arendt]
  • A sociedade é uma dinâmica de empréstimo de sentido; ao estudar um objeto o que se tem é a atribuição de sentidos a este objeto; não existe um mundo em si mesmo à espera de ser estudado ou conhecido; isso é niilismo e eu não sei o que é isso [eita ignorância]; isso tudo eu acho que faz parte do pensamento de Nietzsche.
  • A negação da máquina do mundo de Drummond significa que a vida é a busca incessante; se o homem tivesse todas as respostas, ele deixaria de existir.
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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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