Pensamento Político e Social Brasileiro

por Alê Almeida

Questão: Dois temas são marcantes no pensamento político brasileiro das primeiras décadas do século XX: Nação e Modernização. Explique porque e como eles se articulam na análise da realidade e na elaboração de projetos futuros.

O pensamento político brasileiro, desenvolvido pelos intelectuais nas primeiras décadas do século XX, pode ser compreendido como uma tentativa de encontrar soluções para o conflito entre o “não ser e o ser o outro”. Levando em consideração que todo pensamento é construído socialmente, cabe aqui, apresentar que, do ponto de vista da história mundial, o Brasil estava por existir, e considerando que todo pensamento é desenvolvido para um determinado fim, tal fim seria inventar o que não existia. De modo que o Brasil, a sua gente e a sua presença ativa no cenário mundial estavam apenas no campo da ideia daqueles intelectuais. Como uma tela em branco, o Estado brasileiro foi sendo projetado.

Uma vez que o Brasil não possuía referências históricas próprias, a elite intelectual brasileira passa a projetar o Estado brasileiro com valores e ideias europeias. O povo que aqui vivia não dialogava com aquelas ideias, assim, também deveria ser projetado. Em pleno século XX o Brasil começa a ser pensado, entretanto o mundo já estava seguindo o seu curso na era da modernidade, de modo que o tempo não vivido pelo Brasil deveria ser alcançado. Assim, para que o projeto de Brasil fosse colocado em prática, atendendo aos ideais e modelos europeus, seria preciso fundar uma nação para construir um povo, e moderniza-se para tornar-se contemporâneo de seu tempo.

As ideias norteadoras do pensamento político brasileiro, para a construção da nação e da modernização do Brasil, têm um caráter prescritivo e um tom elitista. Para Oliveira Vianna “a realização de um grande ideal nunca é obra coletiva da massa, mas sim de uma elite, de um grupo” (PÈCAUT, 1990: 29), para Azevedo Amaral “a própria natureza essencial da ação política é de ordem intelectual, isto é, exerce-se pelo domínio da inteligência de minorias privilegiadas cerebralmente sobre maiorias intelectualmente inferiores” (PÈCAUT, 1990: 30). De acordo com estes pensamentos dá-se como legítimo o estabelecimento de um Estado autoritário, fechado em si e para si mesmo, com o poder de determinar o que é e como é o exercício do poder e a maioria das pessoas que aqui viviam, para enfim conquistar o ideal de Brasil. Percebe-se um fascínio pela conquista da modernidade, mesclado com um horror à realidade, o repouso deste conflito só encontra abrigo no âmbito do imaginário, onde o pensamento pode se sobrepor ao pensado.

A realidade não teria sido analisada de fato, pois ela não dava condições para que se efetivasse o projeto de Brasil e o devir da nação. A sensação é que o país ainda era para o futuro, porque aquele presente não era satisfatório. O pensamento político brasileiro foi orientado por uma herança imperial, uma ordem estamental, por ideias e valores de outro tempo e espaço, inaplicáveis ao nosso contexto, gerando uma infinita tentativa de preencher o vazio da história brasileira com o conteúdo da história europeia e parir um povo das entranhas ibéricas em pleno território nacional. Driblar o tempo colocando a modernização com feição de modernidade e concebendo o povo como uma nação a ser realizada, que por ora servia apenas como força de trabalho para o avanço econômico do Brasil, foi o que possibilitou mudanças moleculares e perspectivas de futuro.

As questões que ficam é que uma nação não se funda exteriormente e que o tempo não vivido não retrocede. Assim, a ideia de Brasil é apenas uma ideia, não tem condições efetivas de prática, o resultado é a separação entre povo e Estado, uma conduta de servo e senhor, é um descompasso entre pensamento e pensado, moderno e atrasado, uma nação real que fica fatalmente aquém do que seria a nação idealizada. O conflito entre o “não ser e o ser o outro” está introjetado no povo e ronda o pensamento político brasileiro.

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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