Paper: A Insaciabilidade do Mercado de Trabalho e a Limitação da Educação Profissional

Alessandra Felix de Almeida

A Insaciabilidade do Mercado de Trabalho e a Limitação da Educação Profissional
Capital de origem, trajetória de vida e qualificação profissional
como componentes da inserção ou distinção do trabalhador
no mercado de trabalho

Trabalho Temático apresentado aos orientadores das disciplinas
Sociologia do Trabalho e Estatística,
referente ao quinto semestre do curso de graduação em Sociologia e Política – FESPSP

 Resumo: Este trabalho, através de pesquisas em dados secundários quantitativos e referências bibliográficas, tratará da reflexão sobre a atual configuração do mercado de trabalho que sugere exigências relativas à qualificação profissional, no entanto tal qualificação parece não estar restrita à técnica profissional. Recentes estudos apontam para uma qualificação como um conjunto de fatores, como o próprio domínio do exercício da profissão, capacidade de raciocínio abstrato, habilidades e destrezas genéricas, capacidades intelectuais e estéticas. Em tese a qualificação profissional seria viabilizada pela educação, porém o referido conjunto de fatores parece estar também associado ao capital de origem e trajetória de vida dos indivíduos. De modo que pode haver um descompasso entre expectativas do indivíduo que busque uma situação de mercado através da educação e o entendimento do mercado de trabalho quanto ao que seria a qualificação profissional.

 Palavras Chaves: Capital de Origem. Distinção dos Trabalhadores. Inserção no Mercado de Trabalho. Qualificação Profissional. Situação de Mercado.

1.   Introdução

No início do século XX com o Taylorismo e o Fordismo a capacidade criativa do trabalhador foi absorvida pela Gerência Científica (BRAVERMAN, 1981: 117) e com a Tecnologia aplicada aos meios de produção (HARVEY, 2007: 148), havia pouca distinção entre os trabalhadores. No entanto, após a década de 70, com o advento da acumulação flexível e suas demandas por inovações no processo produtivo, a especialização profissional, a adaptabilidade e a multifuncionalidade passam a ser diferenciais e potenciais fatores de desigualdade e/ou distinção entre os trabalhadores (HARVEY, 1981: 140, 146). Neste sentido, é possível sugerir que o mercado de trabalho passa a ter um caráter de arena de disputas por vagas de trabalho. De modo que nesta disputa a qualificação profissional pode se tornar um elemento de distinção, pois teria em si os componentes: domínio do exercício da profissão, capacidade de raciocínio abstrato, habilidade e destrezas genéricas, capacidades intelectuais e estéticas (SHIROMA e CAMPOS, 1997).

Podemos entender que a Qualificação Profissional seria obtida através de Cursos Universitários ou técnicos[1]. Os Cursos Universitários, normalmente, têm duração de quatro anos. Por hipótese, quatro anos não seriam suficientes para transmitir ou absorver todos os fatores que compreendem a qualificação profissional. Recorrendo a Florestan Fernandes (1978), Bourdieu (2006) e Weber (1982) é possível afirmar que este período é insuficiente para atender à demanda do mercado profissional, tal demanda seria atendida também pelo capital de partida, trajetória de vida e técnica profissional, estes itens seriam importantes para a absorção do aprendizado, para a sua prática e para o posição do indivíduo do mercado de trabalho. Assim, a distinção estaria além da técnica profissional e um mesmo curso universitário não proporcionaria iguais possibilidades profissionais, pois os sujeitos são diferentes, no que se refere ao capital global de cada um deles (BOURDIEU, 2006: 107).

2.   Objetivos e hipóteses

Temos dois momentos, no primeiro, no início do século XX, havia pouca distinção entre os trabalhadores e no segundo, a partir da década de 70, a distinção começa a ser marcada através da qualificação profissional e os seus respectivos componentes, que em tese seriam adquiridos através da educação, porém, nos termos de Bourdieu (2006) e Weber (1982), tanto o capital herdado quanto as experiências pessoais contribuem para a formação dos indivíduos e para o seu posicionamento na sociedade. Dito isto, por hipótese, é possível sugerir que a qualificação proporcionada pela educação superior, não dê conta de atender às expectativas do mercado de trabalho e na posição que o trabalhador ocupará, pois além da formação superior os quesitos sugeridos pelos referidos autores têm valor tanto no exercício da profissão, quanto em seu posicionamento profissional.

O objetivo deste trabalho é, através da relação entre os dados pesquisados, apresentar que mesmo com a expressiva oferta de vagas de trabalho e com o aumento da escolarização, as taxas de desemprego continuam altas entre os jovens, ou seja, estas altas parecem paradoxais, assim, o conceito e o valor atribuídos à qualificação profissional podem estar além do aprendizado técnico oferecido pela educação superior.

3.   Metodologia

A pesquisa está classificada na área de conhecimento das Ciências Sociais. Sua finalidade básica é o levantamento bibliográfico e de dados secundários acerca do tema, sua aplicabilidade é a aquisição de conhecimentos através da descrição das características (GIL, 2010: 26, 27) do mercado de trabalho relacionadas com a educação. O método aplicado é a pesquisa quantitativa, foram pesquisados dados em fontes secundárias de institutos de pesquisas, com o intuito de avaliar uma possível lacuna entre o que é solicitado pelo mercado de trabalho, no que diz respeito à qualificação, e a educação que pretende atender a esta solicitação. Procuramos relacionar os dados secundários com o debate acadêmico sobre o tema, a fim de criar um diálogo que oferecesse uma sugestão de trabalho futuro sobre a educação para o trabalho que deveria ser considerada além da técnica profissional.

Os dados secundários pesquisados são apresentados em tabelas para uma visualização geral dos cenários, posteriormente foram submetidos a cálculos estatísticos a fim de demonstrar suas médias e como elas se relacionam, tanto em resultados numéricos, quanto gráficos.

Amostra

Os dados pesquisados têm fonte secundária, de acordo com a possibilidade das fontes, foram delimitados na região metropolitana de São Paulo, entre os jovens de 15 a 25 anos e são relativos aos índices e números do mercado de trabalho e da educação superior. A pesquisa ocorreu no período de 10/05/2012 a 22/05/2012.

4.   Trabalho, Educação e Qualificação

O trabalho é o que diferencia o homem dos demais animais, esta afirmação é defendida desde Marx e em suas palavras “não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz” (MARX, 1985: 151). O trabalho, em sua divisão é ainda, nos termos de Durkheim, “a fonte da civilização” (DURKHEIM, 1978:23). Isto posto, podemos conceber o trabalho como uma condição para o homem ser homem e para que o grupo de homens seja civilizado, assim, o trabalho pode ser entendido como central na vida dos indivíduos.

Considerando o trabalho como central na vida dos homens, podemos presumir que a inserção do homem no mercado de trabalho baste para sua realização, entretanto, considerando que o mercado de trabalho e sua respectiva flexibilização solicitam cada vez mais inovação, adaptabilidade e qualificação dos profissionais (HARVEY, 2007: 140), podemos presumir que além da inserção no mercado de trabalho o homem deve estar devidamente qualificado para que além de estar inserido, possa estar posicionado, de modo que o posicionamento do homem-profissional pode estar vinculado à sua qualificação. Aqui consideraremos que a qualificação é viabilizada pela educação.  Porém, em qual momento da vida teria início a qualificação profissional? Ela estaria limitada às técnicas e aos métodos transmitidos pela educação profissional? O que o mercado de trabalho entenderia sobre a qualificação?

Silvia Maria Manfredi (1999) analisa as relações entre trabalho, qualificação e educação. Segundo a autora, na última década o termo qualificação tem sido substituído por Modelo de Competência, “particular relevância se outorga no novo modelo ao conjunto de habilidades, conhecimentos, criatividade e responsabilidade requeridas dos trabalhadores nos novos postos de trabalho” (MANFRED, 1999 apud CARRILO, 1994: 140-141). Essa competência seria

a capacidade de mobilizar saberes para dominar situações concretas de trabalho e transpor experiências adquiridas de uma situação concreta a outra. A qualificação de um indivíduo é sua capacidade de resolver rápido e bem os problemas concretos mais ou menos complexos que surgem no exercício de sua atividade profissional. O exercício dessa capacidade implicaria a mobilização de competências adquiridas ou construídas mediante aprendizagem, no decurso da vida ativa, tanto em situações de trabalho como fora deste, reunindo: “saber fazer”, “saber ser”, “saber agir” (MANFRED, 1999 apud LEITE, 1996: 162).

Diante desta visão sobre o que compõe a qualificação, podemos deduzir que um curso superior teria em si a responsabilidade de dar conta de questões além da técnica profissional, tais questões seriam um processo desenvolvido ao longo da vida do indivíduo e dificilmente suprido pelo curso universitário. Florestan Fernandes (1978), considerado um dos mais importantes sociólogos brasileiros, relata suas dificuldades em acompanhar o ensino superior, segundo o sociólogo, este ensino parte do princípio de que a maioria dos alunos tem um mesmo capital intelectual, negligenciando assim a educação básica, o sociólogo reconheceu que o estudante chegava à universidade com uma bagagem muito pobre (FERNANDES, 1978: 5, 6, 21), assim cabe considerar que os alunos apreendem as técnicas profissionais de maneiras diferentes, portanto a distinção pode se manifestar já no ingresso na universidade e se reproduzir no trabalho, na posição profissional e no tempo de permanência no emprego, mesmo que tenha formação superior.

As possíveis disputas por uma posição profissional podem demandar dos indivíduos elementos de distinção, conforme exposto nesta pesquisa. Eneida Oto Shiroma e Roselane Fátima Campos (1997) questionam se estamos Rumo à polivalência ou à politecnia,

polivalência significa uma educação de caráter geral, abrangente, abstrata, habilidade prática e capacidade de raciocínio abstrato, domínio de algumas funções determinadas, mas, também, conhecimento suficiente das funções conexas. Polivalente é a formação que capacita a pessoa a diferentes postos de trabalho, isto é, prepara para o desempenho de uma família de empregos qualificados e, sobretudo, para compreender as bases gerais, científico-técnicas e socioeconômicas da produção em seu conjunto. Uma formação que conjugue a aquisição de habilidades e destrezas genéricas e específicas com o desenvolvimento de capacidades intelectuais e estéticas. (SHIROMA e CAMPOS, 1997)

Independente da nomenclatura atribuída às exigências profissionais, é possível afirmar que a capacidade de raciocínio abstrato, a habilidade de ser flexível em diversas funções, o conhecimento técnico, “uma formação que conjugue a aquisição de habilidades e destrezas genéricas e específicas com o desenvolvimento de capacidades intelectuais e estéticas”, (SHIROMA e CAMPOS, 1997), dificilmente sejam viabilizadas no tradicional período de quatro anos de uma formação superior.

4.1. Perfil da Juventude Brasileira[2]

4.1.1.   Conceitos Relacionados ao trabalho

Foi perguntado aos jovens qual dos conceitos, Necessidade, Independência, Crescimento, Autorrealização ou Exploração, poderia ser atribuído ao Trabalho. Os conceitos Independência e Crescimento representaram 50% de todas as respostas em todos os níveis de escolaridade. A maior diferença está no conceito Autorrealização, para quem tem escolaridade fundamental este conceito representa 20% e para quem tem escolaridade superior representa 51%. O conceito Necessidade foi o mais atribuído em todos os níveis de escolaridade.

4.1.2.   Posição na ocupação

Mais de um terço dos jovens ocupados não são registrados no regime CLT, portanto sem direitos trabalhistas, sugerindo assim, que a instabilidade tanto no trabalho, quanto financeira pode estar mais marcada. Uma possibilidade de ingresso no ensino superior, principalmente em instituições privadas, poderia ficar prejudicado.

4.2. A Transição da universidade ao mercado de trabalho na ótica do jovem

Simone Lopes de Melo e Livia de Oliveira Borges (2007) discutem no artigo “A transição da universidade ao mercado de trabalho na ótica do jovem” a frustração dos jovens quanto ao ingresso no mercado de trabalho após a graduação, nesta transição seria necessário “reformular seus projetos de vida, adotando outras trajetórias, tais como a opção de um novo curso universitário ou de uma pós-graduação, a aceitação de um emprego de menor remuneração para a aquisição da experiência na profissão” (MELLO e BORGES, 2007 apud ARAÚJO e SARRIERA, 2004). A inserção profissional demandaria ainda a articulação de variáveis da titulação, como qualidade da instituição formadora, gênero, classe social, procedência geográfica, rendimento acadêmico, formação complementar, imagem do papel profissional e construção da identidade ocupacional (MELLO e BORGES, 2007 apud GAZO-FIGUEIRA, 1996).

Para a elaboração do referido artigo, foram entrevistados vinte jovens, entre os questionamentos, ressaltamos a percepção do jovem em torno da realidade do mercado de trabalho. Quanto à visão sobre a Universidade, os jovens entrevistados demonstraram que

A própria Universidade nem sempre articula a vida acadêmica dos seus universitários e a futura experiência profissional destes a partir do seu ingresso, com a intenção de prepará-los não só tecnicamente, mas também em termos comportamentais, para o mercado de trabalho. Observa-se, entretanto, que alguns jovens pesquisados buscam preencher as deficiências individuais fora da Universidade (por exemplo: realizando cursos técnicos, estagiando voluntariamente em organizações, etc.), o que permite a alguns obter mais qualificação técnica necessária para o exercício de sua profissão. A competitividade, provavelmente, tem levado o jovem a assumir sua própria formação técnica antecipadamente, minimizando a responsabilidade das organizações em investir em qualificação e capacitação. (MELLLO e BORGES, 2007)

Mais de um terço dos jovens reconhece o crescimento das exigências quanto à qualificação. Um terço dos entrevistados vê como negativa a dinamicidade das ocupações. Isso pode significar que a dificuldade em acompanhar esta dinamicidade esteja relacionada com o capital global do profissional, que não seria oferecido pela universidade.

 

5.   Qualificação e Mercado de Trabalho

5.1. O “Apagão da Mão de Obra”

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – Dieese, o aumento da produção brasileira e a respectiva criação de novos postos de trabalho geraram a sensação de escassez de trabalhadores qualificados no mercado de trabalho. Essa percepção, inicialmente formulada pelo meio empresarial, foi rapidamente absorvida pela mídia e refletida nos meios de comunicação na forma de um “apagão de mão de obra”. (DIEESE, 2011). Nas palavras do Dieese

Tal informação torna-se relevante para que se entenda que o Brasil não enfrenta um “apagão de mão de obra” – no sentido de uma escassez generalizada de trabalhadores qualificados – mas apresenta sim, maiores dificuldades no recrutamento de determinadas ocupações de setores da economia aquecidos com o crescimento brasileiro no período recente. O contexto histórico do desenvolvimento das forças produtivas auxilia na compreensão e valoração da educação, enquanto um importante fator no mercado de trabalho. Isso porque há uma correlação entre estágios mais avançados de desenvolvimento de uma economia e o nível da demanda por trabalhadores mais escolarizados. (DIEESE, 2011: 7, 55)

O maior índice de desemprego está para as pessoas com ensino médio completo, sendo 15,6 vezes maior do que para as pessoas que com ensino superior completo. O ensino médio completo representa o maior índice de desemprego e emprego e em contrapartida, o ensino superior completo representa o menor índice nas duas categorias. De acordo com estes dados, podemos colocar duas questões: O mercado de trabalho seria composto por uma massa sem necessidade de qualificação especializada e/ou há uma faixa pequena de pessoas com ensino superior[4].

A permanência de pessoas sobrequalificadas é praticamente o dobro daquelas subqualificadas. Este dado pode representar uma considerável rotatividade empregatícia entre as pessoas com menor nível de escolaridade, sugerindo que não haja segurança quanto à renda, mais uma vez o ingresso na universidade privada pode se apresentar como um risco.

 

5.2. Características do Emprego Formal – RAIS[8] 2010

A diferença entre vagas disponíveis para as pessoas com ensino superior completo é 232% maior do que as disponíveis para quem tem o ensino médio completo. Assim, é possível sugerir que um curso universitário poderia ampliar a quantidade de vagas trabalho.

6.   Educação Superior

6.1. Resumo Técnico – Censo da Educação Superior de 2010[9]

O número total de Ingressos no ano de 2010 dobrou em relação a 2001. Os Ingressos na universidade privada é 3,7 vezes maior do que na universidade pública, representando 79% do total de matrículas no período, no entanto, apenas 25% dos ingressantes concluem o curso, sendo que nas universidades públicas a porcentagem de concluintes é de 50%.

 

6.2. Instituições Privadas de Ensino Superior

Levando em consideração a expressiva diferença entre o número de Ingressantes e Concluintes nas Instituições de Ensino Privada com relação às Públicas, foi realizada uma breve pesquisa quanto à publicidade veiculada pelas 14 maiores universidades privadas – em número de matrículas referentes ao ano de 2008 – de São Paulo (UOL, 2008), quanto aos seus Slogans e/ou motes publicitários, a fim de detectar qual seria o maior apelo que gerasse interesse por parte dos aspirantes a uma formação superior. A questão financeira representa 57,14% dos motes publicitários. Assim, temos de um lado a possibilidade da obtenção de uma formação universitária que atenderia à demanda do mercado de trabalho e de outro, a possibilidade de financiar esta qualificação.

6.2.1.  Programas de acesso à educação superior

Ainda pelo alto grau de ingressos nas universidades privadas, e por conta do apelo publicitário, foram pesquisados programas governamentais de acesso ao ensino superior, sendo eles o ProUni[10] e o Fies[11].

Os dois programas apresentam crescimento de adesão. O Fies, que não necessita de prova, tem adesão mais expressiva, no período de 2010 a 2012, cresceu 127%. Por hipótese, este crescimento pode estar relacionado a não necessidade de prova, visto que é apenas a renda que dá condições para o ingresso, diferentemente do ProUni, que além da renda o estudante também é avaliado.

7.   Considerações Finais

O Mercado de Trabalho Contemporâneo buscaria por profissionais qualificados que reunissem “saber fazer”, “saber ser” e “saber agir” (MANFRED, 1999 apud LEITE, 1996: 162). A qualificação Profissional através da Educação Superior, em um período de quatro anos daria conta de transmitir todos estes saberes? Segundo Florestan Fernandes (1978), dificilmente. A desigualdade de saberes teria início na Universidade. O sociólogo estudava, no mínimo 18 horas por dia, para conseguir acompanhar o curso, pois os professores partiam da lógica de que todos os alunos teriam o mesmo capital intelectual (FERNANDES, 1978: 5). Temos aqui um possível ponto de partida da Distinção: volume e estrutura de capital econômico e cultural que se complementa com a técnica profissional.

O universitário sente-se frustrado quando da transição para o mercado de trabalho, pois na universidade não há preparo além da técnica e isso dificulta o seu ingresso no mercado profissional, porém estes jovens entendem a necessidade da qualificação (MELLO e BORGES, 2007), eles ingressam nas universidades, aderem aos programas governamentais, mas, em média, apenas 37,5% dos ingressantes concluem a formação. Este número pode estar relacionado tanto com a dificuldade em acompanhar o curso – que pode estar relacionado ao capital de origem e à trajetória de vida -, quanto por questões financeiras, visto que a maioria dos jovens ocupados não trabalham pelo regime CLT, portanto com menores chances de estabilidade financeira.

A questão do alto número de vagas de trabalho não dialoga com o também alto número de jovens desempregados. “O Apagão da Mão de Obra”, o título da Pesquisa do Dieese, mostra que os jovens estão mais escolarizados quando ingressam no mercado de trabalho, no entanto, o desemprego destes jovens revela a complexidade dos obstáculos para conseguirem uma oportunidade de trabalho, essa dificuldade de inserção é também reflexo do descompasso entre os ritmos de expansão da escolaridade e os ritmos de oferta e demanda de trabalhadores (DIEESE, 2011: 10).

Esta parece ser a resposta preliminar à hipótese deste trabalho: “Complexidade dos obstáculos e descompasso entre escolaridade e demanda por profissionais qualificados”, ou seja, a insaciabilidade do mercado de trabalho e os limites da educação. Assim, a distinção pode representar um elemento para a inserção no mercado de trabalho, sugerindo que a educação profissional não teria início no curso universitário, que o trabalhador estaria sempre um passo atrás da demanda do mercado, que a união de saberes é um fator a ser considerado tanto pela universidade, quando se propõe a formar profissionais, quanto pelos empregadores, que podem transformar o alto grau de exigências, em alto grau de falta de mão de obra qualificada, ou melhor, do que é entendido como mão de obra qualificada pelo mercado de trabalho.

Aqui a centralidade parece ser a distinção e o trabalho a sua consequência. 

8.   Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.

BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista. A degradação do trabalho no século XX. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981

DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Qualificação e mercado de trabalho: apontamentos para política pública em regiões metropolitanas. São Paulo: DIEESE, 2011. Disponível em http://sistemaped.dieese.org.br/analiseped/2011/201112QualificacaoMercadoTrabalho.pdf.  Acesso em 10/05/2012.

DURKHEIM, Émile. Da Divisão Social do Trabalho. São Paulo: Nova Cultural, 1978. (Os Pensadores).

FERNANDES, Florestan. A condição de sociólogo. São Paulo: Hucitec, 1978

FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Perfil da Juventude Brasileira. 2004. Disponível em http://www.fpabramo.org.br/uploads/perfil_juventude_brasileira.pdf. Acesso em 07/04/2012

GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 5º Edição. São Paulo: Atlas, 2010.

HARVEY, David. Do fordismo a acumulação flexível. In Condição Pós-moderna. 16ª ed. São Paulo: Loyola, 2007

INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Censo da educação superior: 2010 – resumo técnico. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2012. Disponível em http://download.inep.gov.br/educacao_superior/censo_superior/resumo_tecnico/resumo_tecnico_censo_educacao_superior_2010.pdf. Acesso em 15/05/2012.

IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Mercado de trabalho: conjuntura e análise. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego, 2012.

MANFREDI, Silvia Maria. Trabalho, qualificação e competência profissional – das dimensões conceituais e políticas. Educ. Soc., Campinas, v. 19, n. 64, Sept. 1999 . Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73301998000300002&lng=en&nrm=iso. Acesso em 07/04/2012.

MARX, Karl. O Capital. Livro I, Tomo I. São Paulo: Nova Cultural, 1985. (Os Economistas).

MEC – Ministério da Educação. Quadros Informativos ProUni e Fies. Disponível em http://siteprouni.mec.gov.br/images/arquivos/pdf/Quadros_informativos/numero_bolsas_ofertadas_por_uf_primeiro_semestre_2011.pdf;  http://siteprouni.mec.gov.br/images/arquivos/pdf/Quadros_informativos/numero_bolsas_ofertadas_por_uf_segundo_semestre_2011.pdf;  http://siteprouni.mec.gov.br/images/arquivos/pdf/Quadros_informativos/numero_bolsas_ofertadas_por_uf_primeiro_semestre_2010.pdf;   http://siteprouni.mec.gov.br/images/arquivos/pdf/Quadros_informativos/numero_bolsas_ofertadas_por_uf_segundo_semestre_2010.pdf; http://painel.mec.gov.br/painel.php?modulo=principal/detalhamentoIndicador&acao=A&detalhes=pais&indid=240. Acessos em 10/05/2012

MELO, Simone Lopes de; BORGES, Livia de Oliveira. A Transição da universidade ao mercado de trabalho na ótica do jovem. Psicol. cienc. prof.,  Brasília,  v. 27,  n. 3, set.  2007 . Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932007000300002&lng=pt&nrm=iso. Acesso 09/05/2012.

MTE – Ministério do Trabalho e Emprego. Relação Anual de Informações Sociais – RAIS. Disponível em http://portal.mte.gov.br/rais/o-que-e-a-rais.htm e http://www.mte.gov.br/rais/2010/sp.pdf. Acesso em 14/05/2012.

SHIROMA, Eneida Oto; CAMPOS, Roselane Fátima. Qualificação e reestruturação produtiva: um balanço das pesquisas em educação. Educ. Soc., Campinas, v. 18, n. 61, dez. 1997. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73301997000400002&lng=pt&nrm=iso. Acessado em 07/04/2012.

UOL – Universo On Line. Censo da Educação Superior Presencial. Disponível em http://download.uol.com.br/educacao/estatisticas/2008_censoeducsuperior_presencial.xls. Acesso em 08/05/2012.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia, Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1982.


[1] Para efeito de delimitação do tema, aqui serão utilizados os números referentes aos Cursos Superiores.

[2] A Fundação Perseu Abramo realizou a pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira”, com jovens entre 15 e 24 anos, residentes no território nacional. A amostra contou com 3.501 entrevistas, distribuídas em 198 municípios (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2004: 6).

[3] Em 2010, através da Síntese de Indicadores Sociais 2010, publicado pelo IBGE, verificou-se que há diferença entre os sexos no que tange à informalidade do trabalho. 69,2% das jovens de 16 a 24 estavam em trabalhos informais.  Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1717&id_pagina=1. Acesso em 20/05/2012.

[4] 14 a cada 100 jovens de 18 a 24 anos frequentavam (em 2010) algum tipo de educação superior. Mercado de trabalho: conjuntura e análise / Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA); Ministério do Trabalho e Emprego. Maio/2012, p 33.

[8] A Relação Anual de Informações Sociais – RAIS tem por objetivo o suprimento às necessidades de controle da atividade trabalhista no País, e ainda, o provimento de dados para a elaboração de estatísticas do trabalho e a disponibilização de informações do mercado de trabalho às entidades governamentais

[9] O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) realiza anualmente o Censo da Educação Superior, o qual coleta informações sobre Instituições de Educação Superior (IES), cursos de graduação e sequenciais de formação específica de alunos e docentes vinculados a esses cursos. O objetivo do Censo é retratar a educação superior brasileira, disponibilizando informações para a sociedade em geral, incluindo gestores, pesquisadores, administração pública, além de organismos internacionais. (INEP, 2012). O Resumo Técnico, referente ao ano de 2010, utilizado neste trabalho tratará dos dados relativos, aos jovens da região sudeste, entre 18 e 24 anos.

[10] O Programa Universidade para Todos (ProUni) foi criado em 2004 e tem como finalidade a concessão de bolsas de estudos integrais e parciais a estudantes de cursos de graduação e de cursos sequenciais de formação específica, em instituições privadas de educação superior (Portal do Ministério da Educação).

[11] O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) é um programa do Ministério da Educação destinado a financiar prioritariamente estudantes de cursos de graduação. (Portal do Ministério da Educação).

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