Uma abordagem sobre “Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo” de Rosani Cristina Rigamonte, 1996

Adriana Bibini

Alessandra Felix de Almeida

Introdução

Neste trabalho trataremos da pesquisa elaborada por Rosani Cristina Rigamonte, intitulada Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo de 1996. A autora é graduada em Ciências Sociais e Licenciatura Plena pela PUC-SP (1987/88), é mestre em Antropologia Social pela USP (1997), atualmente é professora adjunta e Coordenadora do Departamento de Pedagogia da Fundação de Ensino de Mococa e professora adjunta da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do Rio Pardo, atuando principalmente nos temas: Migrantes, São Paulo, Antropologia Urbana, Lazer e sociabilidade[1]. Rigamonte (2001), para a elaboração da referida pesquisa, utilizou como método a descrição etnográfica, procurando tratar das práticas de lazer e sociabilidade dos migrantes nordestinos no contexto da metrópole paulistana através de inventários locais (RIGAMONTE, 2001: 239) e para sua análise utilizou os conceitos redes de comunicação e relação previstos pela Escola de Manchester e ainda as categorias mancha e pedaço desenvolvidas por Magnani (1992), em sua análise também é possível identificar a categoria circuito desenvolvida pelo referido autor em 2002.

Neste trabalho, além de oferecer um panorama geral da pesquisa de Rigamonte (1996), queremos destacar a utilização de métodos e categorias desenvolvidos por outros autores e estudiosos de linhas de pesquisas que dialogam com temas que nos interessam, sua utilização se apresenta como importantes instrumentos que nos auxiliam no desenvolvimento e ordenação de nossas hipóteses e perguntas de pesquisas, proporcionando um caráter científico aos nossos trabalhos.

Aspetos gerais

O texto trata da pesquisa desenvolvida por Rigamonte (1996) em seu Mestrado na área de Antropologia Social do Departamento de Antropologia da FFLCH-USP (RIGAMONTE, 1996: 233), cujo objeto é a presença da população nordestina na cidade de São Paulo. Neste sentido, a autora procura responder às questões: Quais são as marcas dessa presença cultural [dos nordestinos em São Paulo] hoje na cidade? Apresenta mudanças significativas com relação às primeiras formas? Interage com outras modalidades e instituições características da metrópole contemporânea? (RIGAMONTE, 1996: 233).

A análise se deu a partir de uma etnografia realizada pela autora, através de inventários locais (RIGAMONTE, 1996: 239), que trata de práticas de lazer e sociabilidade dos migrantes nordestinos no contexto da metrópole paulistana. A pesquisa utilizou as categorias redes de comunicação e relação; mancha e pedaço cunhadas por Magnani em 1992. No entanto, em 2002, o mesmo autor incorporou a categoria “circuito” aos seus estudos de etnografia urbana e esta categoria também pode ser utilizada na análise do trabalho apresentado por Rigamonte, como sugere o próprio Magnani (2002):

Rosani Rigamonte (2001) mostrou que a cultura nordestina na cidade de São Paulo se apoia num circuito que inclui não apenas as conhecidas Casas do Norte e os forrós tradicionais, mas também pequenas cidades do interior baiano como Piripá, Barrinha, Condeúba, as quais, entre outras, recebem considerável revoada de nordestinos já morando em São Paulo por ocasião das festas juninas. Sua inclusão no circuito não se dá como uma referência distante e nostálgica, mas como pólo efetivo num sistema de trocas de longo alcance (MAGNANI, 2002: 24).

Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo, Rosani Rigamonte

A diversidade da cultura humana está atrás de nós, à nossa volta e à nossa frente. A única exigência que podemos fazer valer a seu respeito (exigências que cria para cada indivíduo deveres correspondentes) é que ela se realize sob formas em que cada um seja uma contribuição para a maior generosidade das outras (LÉVI-STRAUSS, 1989: 98).

A autora inicia o texto declarando São Paulo como a maior cidade nordestina do país, defende que a sua presença na cidade teve um importante impacto no processo de desenvolvimento, tanto urbano quanto industrial, além de exercer uma influência cultural. A autora também não deixa de fazer menção à manifestação de preconceito que os “baianos” recebem.

O peso do contingente migratório originário do Norte e Nordeste na população da cidade, sua participação como mão de obra no processo de desenvolvimento urbano e industrial e a influência da cultura típica daquelas regiões – não obstante os surtos de preconceito contra os “baianos” – constituem realidade indiscutível (RIGAMONTE, 1996: 233).

O texto busca responder às questões mencionadas, problematizando a presença do povo nordestino na vida cotidiana da cidade de São Paulo, sua forma de interação, pertencimento e presença. Para tanto, os objetos observados para responder às questões e respectivas problematizações foram:

  • Forró do Severino;
  • A Praça Silvio Romero; e
  • Centro de Tradições Nordestinas (CTN)

O Forró do Severino

No início do texto a autora reúne e dispõe sua análise utilizando-se de um código comum para caracterizar e reforçar os vínculos nordestinos, o forró. Entretanto a análise não é edificada em qualquer forró, mas particularmente no Forró do Severino, um migrante nordestino.

O Senhor Severino José da Silva, analfabeto, saiu de Itorá, interior de Pernambuco, em 1948 aos 16 anos e passou a residir em Recife buscando melhores condições de vida. Sua história segue para o Rio de Janeiro e em 1960 chega à cidade de São Paulo. O Senhor Severino foi proprietário do salão de baile onde a atração principal era o forró. Este, localizado na Favela da Vila Prudente, zona Leste da cidade de São Paulo, tinha o propósito inicial de promover comemorações de família. O local foi aberto ao público e o número de frequentadores foi tão expressivo que o local original não tinha mais condições de atender ao público, o Forró do Severino sofreu uma progressiva mudança e devido ao seu sucesso o salão chegou a preencher um espaço de quase dez mil metros quadrados, o equivalente a dez ou onze barracos conforme citação no texto.  O Forró do Severino ficou claramente demarcado por frequentadores que se reconheciam pelo modelo de vida semelhante, um local de sociabilidade onde o uso de códigos comuns reforçava o vínculo entre os que ali frequentavam. Conforme descreve a autora, o território foi demarcado por uma rede específica de relações, entre conhecidos e conterrâneos nordestinos.

Em paralelo, a cidade de São Paulo crescia, atingia elevados números populacionais e consequentemente as mudanças urbanas refletiam no salão de baile. Tal situação resultaria em uma dificuldade em ministrar o empreendimento devido ao seu tamanho, o auxílio dos filhos, esposa, noras e genros, para dar continuidade na administração do local, já não eram suficientes. Por este motivo, em 1984, O Forró do Severino encerra suas atividades, tendo atuado por mais de catorze anos sustentando um laço de sociabilidade, previamente com familiares e frequentadores nordestinos, e posteriormente atendendo um público variado.

A categoria “pedaço” no contexto da pesquisa

Conforme descrito por Magnani (1992), a noção de pedaço, teria surgido em uma pesquisa desenvolvida pelo autor relativa às “formas de cultura popular e modalidades de lazer que ocupam o tempo livre dos trabalhadores, nos bairros da periferia de São Paulo” (MAGNANI, 1992: 192), portanto, em diálogo com a pesquisa de Rigamonte (1996) que também observou um espaço destinado ao lazer. A noção de espaço que recebeu o atributo de categoria é definida por:

uma ordem espacial, físico, sobre o qual se estendia uma determinada rede de relações. […] configurava um território claramente demarcado: o telefone público, a padaria […] o terminal da linha de ônibus […], e outros pontos mais delineavam seu entorno (MAGNANI, 1992: 193).

No entanto, os equipamentos citados que definem as fronteiras do pedaço também constituem um “lugar de passagem e encontro”, de modo que para “ser do pedaço”, não basta que o indivíduo passe por este território ou o frequente esporadicamente, é necessário que ele esteja situado “numa peculiar rede de relações que combina laços de parentesco, vizinhança, procedência, vínculos definidos por participação em atividades comunitárias e desportivas etc.” (MAGNANI, 1992: 193).

Assim, o Forró do Severino que, nos termos de Magnani (1992), configurava um pedaço, um pedaço tradicional, passou a incorporar a paisagem da metrópole que utilizou da cultura e dos símbolos daquele pedaço, como produtos para consumo de massa, de modo que as condições que lhe atribuíam a categoria pedaço foram esvaziadas. A autora procura expor a maneira pela qual o tradicional dialoga com o moderno na cidade, as escalas de relações sociais que sofrem alterações devido ao crescimento urbano. O pedaço tradicional, concentrado em propagar laços culturais, através de redes de parentesco, vizinhança, procedência, ou seja, relações próximas, passou a ser incorporado pela metrópole transformando este em um local de consumo para um amplo grupo e não mais para um grupo específico, deste modo o Senhor Severino reformulou o seu Forró, firmando uma sociedade para um novo Salão de Baile, agora situado no Bairro da Vila Alpina. Assim, aquelas características do pedaço tradicional também passaram por transformações, as redes específicas de relações limitadas às fronteiras do bairro, foram ampliadas para fora dele, configurando assim e nos termos de Magnani (1992), o pedaço no centro. No entanto, o Forró do Severino também não resistiu a essa nova configuração, encerrando definitivamente suas atividades. Sugerimos que esse encerramento se deu em decorrência do propósito inicial que era o fortalecimento do pedaço tradicional que diante da expansão da cidade acabou se perdendo, podemos verificar essa “frustração” nas palavras no próprio senhor Severino:

O que eu queria era uma festa pra gente se sentir em casa, pra dançar e se divertir como era na nossa terra, depois que tudo mudou, eu mudei também. Do jeito que tinha de ser eu não queria mais. […] Era muito bom, tenho muita saudades, mas já não era mais pra mim, o que eu queria eu já tinha conquistado, pra continuar tinha que mudar. Fechei o forró na favela e entrei de sócio em um salão de baile, na vila Alpina. Era diferente, fiquei mais ou menos um ano lá. Num sábado, no meio do salão, teve briga e mataram uma pessoa. Veio polícia e fechou tudo, acabou a festa. Foi aí que eu tive certeza do meu sentimento, aquilo já não era mais pra mim (RIGAMONTE, 1996: 236, 237).

A categoria Manchas e os Nordestinos em São Paulo

A cultura nordestina pode ser reconhecida e é marcada por produtos específicos, locais típicos, espaços de disseminação da tradição do Norte e Nordeste brasileiro, que não são necessariamente partilhados por pessoas que possuem relações que “combinam laços de parentesco, vizinhança, procedência, vínculos definidos por participação em atividades comunitárias e desportivas” etc. (MAGNANI, 1992: 193), o que determinaria o pedaço tradicional. Neste sentido, e nos termos de Magnani (1992), teríamos outra categoria denominada mancha. Seus frequentadores não necessariamente se conhecem “ao menos não por intermédio de vínculos construídos no dia-a-dia do bairro – mas, sim se reconhecem enquanto portadores dos mesmos símbolos que remetem a gostos, orientações, valores” etc. (MAGNANI, 1992: 195). Deste modo, os territórios específicos para propagar atividades que proporcionem o reconhecimento entre seus frequentadores imprimem diversas manchas na cidade, tais manchas podem ser entendidas como “áreas identificadas por seu caráter próprio, cujo inter-relacionamento determina a identidade da área como um todo” (MAGNANI, 1992: 195).

As manchas têm a intenção de disseminação da tradição, símbolos, personagens, enfim, reafirmação da identidade nordestina. Apresentam-se inseridos no espaço urbano, contribuindo para a dinâmica cultural da cidade.  O funcionamento das manchas ocorre da seguinte maneira, conforme cita o texto: a partir do ponto de chegada, ou seja, o desembarque de nordestinos na cidade de São Paulo, uma mancha em seus arredores se forma recriando suas características próprias e demarcando sua cultura, fazendo com que se torne um ponto de referência, conforme exemplo:

Até meados dos anos 70, um dos mais conhecidos pontos de desembarque de nordestinos na cidade era a estação ferroviária Roosevelt, localizado próximo ao lago da Concórdia, no bairro do Brás. As imediações do local se adaptaram para receber os novos habitantes que chegavam no famoso “trem baiano”; logo proliferaram as pensões, casas de produtos típicos, bancas com folhetos de cordel. O antigo terminal rodoviário da Luz recebeu, até 1978, os migrantes que chegaram à cidade de ônibus. Nas imediações da estação da Luz também se formou um ativo e complexo centro comercial popular marcado pelos hábitos, gostos e produtos nordestinos (RIGAMONTE, 1996: 239).

Tal característica se repete em 1982 com a inauguração do novo terminal rodoviário Tietê, ou seja, um novo ponto de chegada recebe uma nova mancha naquele espaço. As manchas não são somente demarcadas nos locais de chegada e partida da cidade, como estações ferroviárias e terminais de ônibus, mas locais com facilidade de acesso onde proporcione o encontro e a disseminação da tradição do Norte e Nordeste brasileiro, como o caso da Praça da Sé, ponto central e de grande fluxo na cidade de São Paulo.

Dentre as manchas citadas no texto, a autora aborda os dois locais considerados os mais tradicionais que são a Praça Silvio Romero, situada no bairro do Tatuapé, Zona Leste da capital e o Centro de Tradições Nordestinas – CTN, no Bairro do Limão, Zona Norte.

A observação da Praça Silvio Romero e do CTN, possibilitou a elaboração de um quadro de oposições (RIGAMONTE, 1996: 240):

  1. Milhares de pessoas X local para um grupo restrito e identificado pelo local de origem; e
  2. Utilização de equipamentos de comunicação de massa X utilização de redes de comunicação informal, o boca-a-boca.

A Praça Silvio Romero

A Praça Silvio Romero, conhecida pelos encontros matinais de domingo, é dedicada, em período específico, a trocas de informações entre nordestinos residentes na capital e seus parentes no interior do Nordeste. O sistema de informação e o contato ocorrem desde os anos 60. Um grupo de amigos, com o objetivo de sanar a dificuldade de transporte rodoviário entre determinadas regiões do interior da Bahia e São Paulo desenvolveram um sistema alternativo de ponte entre os dois pólos utilizando caminhonetas como peruas Kombi que trafegavam no trecho Nordeste – Sudeste.

Seu objetivo era um meio alternativo de trânsito de pessoas e comunicação, os migrantes remetiam encomendas, recados, presente e até dinheiro (baseado em um sistema de confiança, reforçando os laços entre os integrantes daquele grupo). O ponto de encontro para troca destas mercadorias era a Praça Silvio Romero devido à sua localização central na cidade e fácil acesso por meio de transportes públicos. Nos anos 70 o fluxo de pessoas na corrente migratória sofreu uma diminuição refletindo também no sistema de comunicação alternativo. Alguns dos “perueiros” venderam seus veículos e compraram caminhões, pois o fluxo de encomendas era maior que o fluxo de pessoas. Atualmente onze caminhões atendem quinzenalmente este serviço de trânsito de informações. A encomenda mais esperada são as cartas, devido ao fato de os trabalhadores da construção civil, terem dificuldades de obtenção de uma residência fixa, pois habitam onde trabalham, assim, quando a obra termina eles migram para outra obra (mudam de trabalho e de endereço), por isso a carta na Praça Silvio Romero é a maneira mais segura de enviar e receber informações dos familiares, pois devido a precariedade no sistema de postagem no Nordeste Brasileiro, demoraria muito para fazer com que a encomenda chegasse às mãos do destinatário e vice-versa. Segundo informações relatadas no texto, semanalmente recebem-se de 80 a 100 cartas.

À esta forma de utilização da mancha, também pode ser atribuída a categoria circuito cunhada por Magnani (2002). Esta categoria “descreve o exercício de uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma relação de contiguidade espacial, sendo reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais” (MAGNANI, 2002: 23). O circuito também possibilita o exercício da sociabilidade por meio de encontros, comunicação, manejo de códigos de forma mais independente com relação ao espaço, é nesta sociabilidade que a Praça Silvio Romero faz uma ligação com o Nordeste e vice-versa. E esta prática pode ser identificada na pesquisa de Rigamonte (1996) embora o termo tenha sido desenvolvido em 2002.

Em princípio, faz parte do circuito a totalidade dos equipamentos que concorrem para a oferta de tal ou qual bem ou serviço, ou para o exercício de determinada prática, mas alguns deles acabam sendo reconhecidos como ponto de referência e de sustentação à atividade (MAGNANI, 2002: 24)

O Centro de Tradições Nordestinas – CTN

Fundado em 1991, tem o objetivo de tornar-se, além de ponto de encontro da comunidade nordestina residente em São Paulo, um local de divulgação e preservação da cultura do Nordeste Brasileiro. O CTN possui uma área de vinte e sete mil metros quadrados, tem capacidade de estacionamento para quatrocentos carros e é um local de fácil acesso pela Marginal Tietê. Atende dez restaurantes, nove quiosques que servem comida típica e um palco onde lançou diversos nomes, hoje, populares da música nordestina. Conforme a autora expõe no texto, ao entrar no CTN duas imagens características dão destaque, uma do padre Cicero Romão Batista, padroeiro de Juazeiro do Norte e outra de frei Damião, missionário enviado para atuar no nordeste por volta dos anos 50. No local onde se situa o palco a presença de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, é destacada junto a presença de Lampião, Maria Bonita e por fim, Zumbi, do Quilombo dos Palmares, tais imagens destacam a característica de personagens importantes na cultura nordestina.

Considerações finais de Rosani Rigamonte

A autora conclui que os registros da chegada dos nordestinos na cidade de São Paulo datam há bastante tempo. Seu local de origem era diverso, vinham de Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Bahia, Sergipe, Paraíba, em geral, vinham do Norte, mas quando em São Paulo chegavam eram intitulados de “baianos”. Estes chegaram para atender a crescente necessidade de mão-de-obra devido ao grande crescimento da cidade, gente simples buscando por trabalho simples, classificado também por trabalho de baixa qualificação, o que inferiorizava o seu reconhecimento social. Um povo, uma comunidade de ascendência compartilhada não consegue mudar uma terceira, mas pode acrescentar e adicionar. Entretanto, o choque e incômodo destas diferentes culturas enraizadas pela história e pelo tempo podem surgir, como exemplifica o relato da autora: “Em outubro de 1992, com efeito, num período próximo às eleições para prefeito da cidade de São Paulo, o CTN teve seus muros pichados com a frase ‘Fora nordestinos!’ e com o símbolo nazista (RIGAMONTE, 1996: 248). Tais práticas são pouco frequentes na cidade de São Paulo, mas o preconceito existe e se exerce, ora mais enfaticamente, ora menos, no entanto, o que vale destacar é a considerável participação e importância da cultura nordestina na formação e impressão do povo brasileiro e na estrutura da cidade de São Paulo. Os locais observados demonstram como os nordestinos foram ganhando espaço pela cidade (RIGAMONTE, 2001: 237); demonstram também que o sertão não está imune às “contaminações” que o mercado urbano-industrial pode provocar.

Na medida em que ocorreram transformações e modernizações, tanto no campo, quanto na cidade, pode-se entrever a possibilidade de contato entre ambas as pontas deste processo mediante o ir e vir destes migrantes, que carregam consigo pedaços da cidade e pedaços do sertão, “contaminando” ambos os lados desta rede (RIGAMONTE, 2001: 241).

A análise do Forró do Severino, da Praça Silvio Romero e do CTN apresenta o diálogo entre tradições, modernidade e sociedade urbano-industrial. Os migrantes ressignificam seus referenciais de origem e passam a dar importância também aos gostos e modismo das grandes cidades, isso não significa perda de origem ou identidade, mas sim um movimento de integração (RIGAMONTE, 2001: 241). Os reflexos da contemporaneidade através dos meios de comunicação referem-se às fronteiras enfraquecidas, transformando o meio em que vivemos num universo “globalizado”, o migrante, o campo, a cidade, todos estes referenciais passam por transformações. Há poucas possibilidades de se estar desintegrado ou dissociado deste processo (RIGAMONTE, 2001: 242, 243).

Nem o sertão e nem a metrópole estão livres de serem contagiados pelos reflexos que advêm tanto de um meio como de outro. O campo e a cidade hoje vivem em uma troca e um intercâmbio (RIGAMONTE, 1996: 243).

Influências da Escola de Manchester na pesquisa de Rosani Rigamonte

Rigamonte reconstrói a trajetória do nordestino e sua dimensão relacional na cidade e com seu lugar de origem, com estes dados podemos relacionar a análise dos antropólogos urbanos da Escola de Manchester, pois estes focam suas análises nas redes sociais para explicar o comportamento provocado pelas migrações, trabalho assalariado nas cidades, contradições entre novas regras sociais, tais temas foram recorrentes no grupo. A intenção com a análise era dar conta de explicar a vida social do grupo dos nordestinos, na verdade, um grupo que teria novas dinâmicas no contexto da cidade “grande”. Os antropólogos da Escolar de Manchester documentaram a relação entre a estrutura da rede pessoal e a conduta pessoal em situações baseadas em lutas políticas, conflitos sociais em alguns ambientes, como o ambiente de trabalho. O que nos salta aos olhos no texto de Rigamonte é a forma com que se estruturam as relações sociais do migrante nordestino, na sua trajetória até o momento de sua edificação na cidade de São Paulo. Ou seja, a Escola de Manchester foca no estudo de comunidade e na investigação das redes de apoio social e como estas se constroem. Conforme exemplificada no texto, estas redes são construídas/constituídas por parentes, amigos e vizinhos que proporcionam socialização, informação e ajuda em geral. Do nosso ponto de vista, são estas redes que fortalecem e sustentam os laços sociais, principalmente em situações de migração, proporcionando que os indivíduos se sintam mais seguros (ou menos inseguros) ao terem que interagir em um ambiente que a princípio não lhes é familiar e quiçá em ambientes que não lhes acolham.


Referências Bibliográficas

MAGNANI, José G. Da periferia ao centro: pedaços & trajetos. In: Revista de Antropologia, Vol. 35, pp. 191-203, 1992.

____________________. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana In: Revista Brasileira de Ciências Sociais – RBCS, 17 (49), pp. 11-30, 2002.

RIGAMONTE, Rosani Cristina. Sertanejos contemporâneos: entre a metrópole e o sertão. São Paulo: HUMANITAS/FFLCH/USP: FAPESP, 2001.

____________________. Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo. In: Na Metrópole: textos de antropologia urbana. José Guilherme C. Magnani, Lilian de Lucca Torres (orgs.). São Paulo: EDUSP/FAPESP, 1996.

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