Notas sobre a ambiguidade do populismo

por Alê Almeida

O traço mais expressivo da primeira metade do século XX é o autoritarismo e, por conseguinte, a ausência da ideia de um sistema representativo efetivo, o que configurava a sociedade, principalmente aquela apartada das esferas do poder, em uma situação de apatia política. Os objetivos previstos para a República nada mais do que frustraram a população em sua vida prática, a Constituição de 1891, em vigor até 1934, não trouxe praticamente nenhum avanço em questões de direitos sociais, o que teria frustrado a população diante de qualquer sistema político. A cidadania, ou seja, aquilo que pode embasar qualquer reflexão social a fim de medir a participação da população ficou no âmbito do discurso, fazendo com que ela perdesse sua definição ficando assim aberta a qualquer tipo de denominação e função. E é nessa abertura que o populismo encontrou o seu lugar.

A relação entre sociedade e Estado pode ser identificada como uma comunicação cujos idiomas são diferentes e apenas algumas das palavras desses idiomas se correspondem. Temos uma sociedade com demandas diversas e um posicionamento do Estado que não consegue atender a todas, deste modo procura aquelas palavras compreensíveis e carregadas de ideologia para um ou outro setor da sociedade a fim de manter o seu poder. Neste sentido o populismo tem discursos sazonais, “ele” discursa conforme a demanda de cada “classe” mesmo que tais discursos sejam contraditórios.

Quando Weffort afirma que “a manipulação populista é uma relação ambígua, tanto do ponto de vista social como do ponto de vista político”, entendemos que tal afirmação se deve a uma ilusão causada, haveria uma falsa ideia de inclusão e de participação social e política, pois os discursos não estavam pautados por objetivos efetivos, mas sim pela manutenção da figura carismática que os proferia. A ideologia que fundamentava os discursos populistas relacionados com o histórico nacional, tornava-os contraditórios, esvaziando a política e os seus atores, fazendo com que ambos fossem algo a ser construído, construído exclusivamente pela mão do líder populista que a cada passo dessa “construção” fortaleceria seu poder e a sua imagem.

As definições dos objetivos do Estado e da cidadania, uma vez esvaziados, foram construídas na era Vargas com seu principal instrumento político, o populismo. O Estado passa a ter como objetivos a modernização e neste sentido a cidadania passa a ser o trabalho, a construção da nação se daria pelo direcionamento do Estado a partir dos braços da população, um diálogo entre modernização e trabalho interpretados pelas figuras do Estado e do cidadão. Questões sociais e políticas não se fazem necessárias neste cenário, tratava-se de uma missão nacional, é possível entender o sentido dessa missão nas palavras de Oliveira Vianna: “liberdade e democracia não são os únicos bens do mundo; como a civilização e a nacionalidade” (BARRETO e PAIM, 1989: 443).

A existência do populismo seria uma consequência da ausência de uma classe média com ideias políticas próprias e de um centro urbano direcionado apenas ao trabalho e à modernização, onde as “classes” não se concretizam, não há posicionamento político em nenhuma esfera da sociedade que não seja aquela já no poder, tratava-se de um vasto campo a ser explorado. A inclusão da massa trabalhadora na política, através da ideia de cidadania orientada para o trabalho com status de direito social, traria a ela sensações e não a prática da política. A ideia de classe foi apenas uma ideia, pois as classes não existiam de fato, foram tomadas como tal e denominadas como “a classe trabalhadora” para a sua manipulação política de modo a garantir o prestígio do governo populista. O que estava em jogo, na realidade, era gerar expectativas individuais, por conta de demandas individuais, o espírito de nação ainda estaria por vir e se viesse seria pela mesma mão do populismo.

O populismo encontrou sua legitimidade na carência do Estado enquanto instituição, toda manipulação social e política teve como fim ideológico a construção da nação brasileira, bem como, o reforma da identidade nacional, no entanto a sua prática fomentou o fortalecimento da dificuldade em encontrar uma separação entre figura pública e figura privada, o Estado não buscava, do ponto de vista social, o seu fortalecimento enquanto instituição, mas a personificação do chefe de Estado em árbitro da nação.

Se do ponto de vista da modernização do aparelho de Estado e da indústria encontramos avanços no período em que o populismo teve o seu auge, por outro lado tivemos o agravamento da consciência política e social, a manipulação de ambos fez com que eles perdessem a sua razão de ser, não precisariam ser, essa função foi dada ao Estado por ele mesmo.

Anúncios

Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
Esse post foi publicado em FESP. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s