A minha teoria da conspiração: tragédia ou farsa?

redeOntem no salão de beleza:

Lúcia (a manicure): Eu acho que tem que mudar o sistema político.
Eu: O que você propõe?
Lúcia: Ah, sei lá… socialismo ou ditadura… essas coisas.

Eu fiquei em silêncio, afinal era ela quem estava com o alicate na mão.

Ontem no táxi:

Taxista: enquanto pudermos ficar na faixa exclusiva de ônibus, o trânsito, para nós, é menos pior.
Eu: vocês poderão utilizar a faixa até quando?
Taxista: acho que é até o Carnaval. Participamos de uma assembleia, eu e mais meia dúzia. Mas parece que não conseguiremos continuar na faixa, porque o secretário disse que ninguém da sociedade se manifestou ao nosso favor.
Eu: o que vocês podem fazer?
Taxista: nada, é só esperar. Não somos unidos. Nem quem pega táxi é unido, eles deveriam se unir por nós, nos ajudar. Quem é unida é a polícia, o Choque.
Eu: e o que o senhor acha disso?
Taxista: eu sei que o choque é ruim, já tomei muita borrachada na época da ditadura. Mas, acho que quem anda de táxi não tomou borrachada. Você não imagina o tanto de gente que entra aqui [no táxi] que diz que sente saudades da ditadura, que aquela época sim era boa, tinha emprego para todo mundo, e quando vagabundo via a viatura da polícia se jogava dentro do bueiro.

Eu apenas suspirei e paguei a corrida.

Tenho percebido, através da rede social Facebook, um aumento de manifestações de ódio por parte de pessoas contrárias ao PT, não sei exatamente qual o fundamento deste ódio, sei apenas que ele existe, nem sei se é contra o PT, é um ódio da Esquerda, seja lá o que isso for, e de um comunismo que anda por aí, sabe-se lá onde. Estas mesmas pessoas se dizem de Direita, mas não sei o que isso significa para elas, a Direita parece ser apenas o oposto da Esquerda, uma saída para o que não se quer, uma saída para o que se odeia.

Fiz um cálculo das pessoas da minha rede no Facebook. Das 415, 14% delas tiveram atividades nas últimas 6 horas, em média (excluindo os extremos, tipo 5000 “amigos”), cada uma delas tem outras 407 pessoas ligadas aos seus perfis. Nas últimas 24 horas, os posts da página “Canal da Direita”, foram compartilhados 3.140 vezes. Assim, imaginando que cada pessoa que compartilhou tenha 407 pessoas em sua rede, podemos dizer que, potencialmente, 1.277.980 de usuários viram esse compartilhamento, mas, certamente, de acordo com a métrica de atividades da minha rede, no mínimo, 181.689 pessoas viram o bendito post. O que isso significa em relação aos 76 milhões de usuários em todo o Brasil (dados de 2013)? Muito pouco, quase nada.  No entanto, como dito anteriormente, tenho percebido um considerável aumento de mensagens de ódio à “Esquerda”.

Se de um lado o PT não poderia ser qualificado como um partido de Esquerda (aquela revolucionária que está no nosso imaginário), também não temos um partido de peso que possa ser classificado como de Direita, o partido que mais se aproxima é o PSDB, isto também, no imaginário dos supostos direitistas. De todo modo, consideremos que o PT é um partido de Esquerda, ele possui um líder, que é o Lula, pois todas as mensagens de ódio que tenho visto se remetem a ele (falam muito da Dilma, mas percebo que ela é vista como um desdobramento do Lula). E qual é o líder da Direita? Em minhas leituras diárias, não consegui identificar um. Agora, o que tenho visto é a exaltação de figuras que já passaram desta para melhor, como Geisel e Figueiredo, o mais incrível é que esta exaltação tem partido de pessoas entre os 30 e 45 anos, ou seja, elas não viveram de maneira ativa o período de exceção, eu tenho 40 anos e lembro que hasteávamos a bandeira do Brasil e cantávamos o hino nacional às quartas-feiras, que aos domingos, no Canal 4 – TVS, passava o programa “Semana do Presidente”, que minha mãe sempre dizia ao meu pai, antes que ele saísse, “não se esqueça de levar a Carteira Profissional” e que eles, minha mãe e meu pai, choraram quando Tancredo Neves morreu. O que isso significa para mim? 1) A Direita não tem um líder, só que não há espaços vazios de poder, logo, alguém ocupará este espaço. Quem? Geisel e Figueiredo não podem mais, os candidatos à presidência da república para o próximo exercício, segundo as últimas pesquisas, não estão com essa bola toda, Fernando Henrique Cardoso, que poderia ser um líder, não exatamente da Direita idealizada pelos supostos direitistas, já está com 80 anos de idade; e como consequência: 2) As pessoas que têm ódio da “Esquerda” estão perdidas, não conseguem identificar uma linha que as representem e estão tentando buscar no passado algo que lhes dê alguma esperança, mesmo que este passado não tenha tido uma vivência efetiva. Que fazer?

Marx já tinha avisado em seu 18 Brumário de Luis Bonaparte “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Qual seria a personagem a ser repetida? Não vejo uma personagem, mas percebo o momento, o momento dos anos 1960.

De maneira bem geral, assim como na década de 60 – pelos menos à primeira vista, não há a presença dos militares – temos visto a forte presença da polícia e de sua violência. Assim como nos anos 1960, temos uma efervescência cultural e política, temos muitos movimentos sociais que têm colocado a população nas ruas. Assim como em 1960 temos um líder de “Esquerda” que é visto pelos “direitistas” como populista e corrupto, mas que é simpático à parcela mais pobre da população, que é percebida pelos conservadores como ignorante e improdutiva. Em 1960 passávamos por uma séria crise financeira, hoje não mais, no entanto, os veículos tradicionais de comunicação, nacionais e até internacionais, insistem em anunciar a nossa bancarrota. Tomada as devidas proporções, assim como Jango, para horror dos odiosos, o atual governo tem viabilizado políticas públicas de cunho social, beneficiando os mais pobres.

Jango, simpático à massa e visto pelos conservadores como populista e socialista, toma posse em setembro de 1961, conversa vai, conversa vem, em 13 de março de 1964, toca no calcanhar nos latifundiários, das pessoas com mais de um imóvel e do petróleo, os conservadores se mobilizam. Em 19 de março de 1964 tivemos a Marcha da Família com Deus pela Liberdade[1] (em São Paulo a marcha contou com trezentas mil pessoas e convocava a população a reagir contra Jango, na época, a população da cidade era de 3.667.899 pessoas[2]) e em 31 de março dá-se a desgraça do Golpe Militar, justificado por uma revolução necessária. Há um evento na rede social Facebook, marcado para o dia 22/03/2014 (curiosamente no mesmo mês dos 50 anos do Golpe), chamado “Marcha da Família com Deus II – O retorno”, até o momento há 22 pessoas confirmadas. É pouco? É, é bem pouco. Estamos próximo de um Golpe Militar? Pouco provável. Mas o mundo não foi feito em um único dia.

A Lúcia quer que o sistema mude, tanto faz socialismo quanto ditadura, mas alguns passageiros do taxista sabem o que querem: emprego para todo mundo e vagabundo dentro do bueiro. Farsa ou tragédia? O tempo dirá.

Anúncios

Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
Esse post foi publicado em Pois é. Bookmark o link permanente.

7 respostas para A minha teoria da conspiração: tragédia ou farsa?

  1. Brandino disse:

    Alê, seu comentário está perfeito. Entendo que este ódio vem se disseminando há tempos. É claro que muito políticos ajudam, mas nossa imprensa, nossas emissoras de TV e de rádio só veiculam notícias negativas do Congresso, e isto cria a ideia de que todo político é corrupto. Além do mais, creio eu que estamos vivendo um período em que o diálogo perdeu para a barbárie. Sem argumentos para o debate, parto para a baixaria; sem argumentos para o diálogo com as instituições, parto para a violência.

    • Alê Almeida disse:

      Lu, Querido.
      Primeiramente, obrigada por ter lido o post.
      O posicionamento da imprensa me assombra. Para mim, é um posicionamento perverso, pois é legítimo que a população acredite no que ela noticia, porque, em tese, ela é imparcial, tem compromisso com a verdade dos fatos e o dever de comunicar. Antes, quando alguém falava que viu tal notícia no Jornal ou na TV e eu, de alguma maneira, sabia que aquela notícia ela enviesada, eu pensava “pobre pessoa, está sendo enganada”. Mas, hoje, refletindo melhor, o expectador não pensa que está sendo enganado, ele acredita no que ouve e lê porque este seria o certo.
      É foda!
      Andei até lendo a Lei de rádio e difusão, para ver o que poderia ser feito… eu piro… às vezes acho que posso fazer alguma coisa. Sei lá… quem sabe.
      Beijos para você, Saudades…

  2. rvianna80 disse:

    Parabéns Alê!!!! Uma bela reflexão do cenário atual no qual vivemos. Seja como tragédia ou farsa, sabemos o que não queremos… Bj

    • Alê Almeida disse:

      Ricardo, querido.
      Primeiramente obrigada por ter lido o post.
      Hoje o que mais desejo é não perder de vista o que quero, não deixar pra lá, sabe?
      Beijos para você *.*

  3. Wilson Toledo disse:

    Parabéns Alê Almeida texto excelente,
    Veja a partir de que momento as manifestações de ódio tiveram crescimento.
    Sendo modesto, metade da população é conservadora, será que elas querem mudanças que lhe estão sendo impostas?
    Participe das redes sociais conservadoras, não precisa debater, exclua as manifestações tolas, e concentre-se nos anseios contidos nas manifestações sérias.
    não siga esse pensamento “é melhor ouvir um paralelepípedo do que o pensamento de alguém conservador (de direita)”
    A tendência de polarização radical é crescente, infelizmente.
    bjs
    Wilson

    • Alê Almeida disse:

      Oi Wil, tudo bem com você? Espero que esteja tudo ótimo.

      Ah Querido, sinceramente, eu não sei quando começou essa onda de ódio. De todo modo, o ódio não é e nunca foi um bom conselheiro, principalmente em política, lembra do que Weber nos ensinou em “Política como vocação”? Acredito que a leitura da política deve ter esse ponto inicial, sem uma reflexão responsável, invariavelmente, seremos irresponsáveis e essa irresponsabilidade não é um fim em si mesma, ela transborda para toda a sociedade. Lembra da ética da convicção e da ética da responsabilidade? É isso, nada além disso.

      Você tem razão quanto à infelicidade da tendência de polarização radical. Desejo apenas que ninguém tenha que morrer por isso.

      Continuemos analisando de maneira responsável, este é o nosso papel.

      Um grande beijo para vocês.

  4. Fernanda Peron disse:

    Esse texto foi escrito há pouco mais de um ano atrás e eu li como se tivesse sido escrito ontem. Muito bom! Uma pena que não tenhas mais postado aqui, adoraria ler a tua opinião sobre as últimas manifestações que têm “estourado” pelo Brasil.
    Abraços

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s