Salve o dia da Trabalhadora e do Trabalhador

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Há aproximadamente seis anos, quando eu morava no Belenzinho, todos os dias no caminho para o trabalho, em direção ao Metrô, caminhavam à minha frente uma mulher com quatro filhos. Um, bem pequeno, ela carregava no colo, outro maiorzinho segurava em uma mão, este dava a mão a outro um pouco maior, que segurava a mão do mais velho. Eles ocupavam toda a calçada e assim, eu seguia atrás deles um pouco constrangida.

Era uma mulher negra, muito magra. Carregava duas mochilas, provavelmente das crianças, e uma bolsa, em que provavelmente levava os seus pertences. Invariavelmente vestia camiseta e calça jeans, e calçava sempre a mesma sandália, mesmo nos dias mais frios. Ela seguia em silêncio, assim como as crianças. Nunca vi o rosto daquela mulher. Via apenas o rosto do filho que ela carregava no colo, ele era o único que sorria e não tirava os olhos de mim. O meu constrangimento fazia com que eu imaginasse que ele quisesse me dizer alguma coisa e eu temia que ele dissesse.

Acompanhei esta cena durante muito tempo e para mim, ela é o retrato de uma grande parte das trabalhadoras brasileiras. Vivi boa parte da minha vida vendo o meu pai acordar todos os dias às quatro horas da manhã para trabalhar como metalúrgico. Vi diversas vezes a minha mãe fazer compressas de água morna com açúcar em seus olhos, nos dias em que ele trabalhava como soldador. E embora esta cena carregasse o mesmo silêncio da mulher com os seus quatro filhos, o silêncio dela era mais ensurdecedor, assim como era o meu diante dela.

Nunca esqueci aquela mulher com os seus quatro filhos. Se fosse hoje, sendo eu menos ignorante do que era naquele tempo, é muito provável que eu tivesse oferecido, no mínimo, as minhas duas mãos desocupadas aos seus dois filhos. Poderíamos ter juntado os nossos silêncios e os transformado em alguma conversa ou em alguma ação, se não fosse nem um nem outro, imagino que fosse ao menos um silêncio de cumplicidade, de não solidão. Nunca saberei.

Às mulheres trabalhadoras com seus tantos filhos, aos homens com olhos inflamados e a todas e a todos que dedicam suas vidas à sobrevivência a partir do trabalho: que não nos silenciemos pelo constrangimento; que enxerguemos os nossos rostos; que possamos dar vida às nossas mãos desocupadas a favor da luta daqueles que fazem parte de nós; que encontremos algum sorriso de estímulo e que não tenhamos medo dele; que tenhamos coragem de dar as mãos para seguir em frente; e que nunca fiquemos sós.

Salve o dia da trabalhadora e do trabalhador.

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Sobre Alê Almeida

Alessandra Felix de Almeida
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