A revista Aurora. Revista de Arte, Mídia e Política. ISSN 1982-6672 acaba de publicar seu último número

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A Revista Aurora apresenta seu décimo sétimo número, Abrangências, propondo uma ampliação do debate político em suas distintas perspectivas. A professora Roseli Martins Coelho, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a partir de artigo escrito por um jornalista americano que analisa a Noruega e seu walfare state, recupera uma pesquisa da Universidade de Harvard apresentando pontos críticos do sistema social americano e, com isso, evidencia contradições no próprio debate sobre o estado de bem-estar social. A estratégia, por fim, permite uma reflexão sobre as políticas públicas no Brasil. Se uma matéria de jornal serve de ponto de partida para uma análise mais ampla sobre as diferentes políticas sociais brasileiras, o artigo de Rafael Duarte Oliveira Venâncio e Ricardo Costa contribui para o debate sobre o pluralismo democrático a partir do horário gratuito de propaganda eleitoral. No texto é possível acompanhar a reflexão sobre a importância da qualificação da normatividade desse produto publicitário, elemento central do marketing político.

O artigo de Doacir Gonçalvez de Quadros e Romer Mottinha Santos, Jornal impresso e eleições 2012: a campanha eleitoral nas primeiras páginas dos jornais Gazeta do Povo e Folha de Londrina , apresenta os resultados de pesquisa realizada sobre a cobertura do pleito municipal de Londrina de 2012. A cobertura eleitoral já foi tema de dossiê da Aurora em outros momentos. Trata-se de um tema tradicional que circunda a política e a mídia e é sempre revisitado.

Os três artigos iniciais oferecem ao leitor exemplos da abrangência da relação entre a mídia e a política. A partir de casos concretos que envolvem a comunicação é possível dar forma a desdobramentos da política em suas diferentes perspectivas.

Os artigos seguintes, Mulheres trágicas de Shakespeare: Ofélia, Julieta e Lady Macbeth, de Syntia Alves, e Miró: expressão política entre as linhas e as formas condensadas das cores, de Luis Fernando Zulietti e Silvia Helena Nogueira, contribuem para a abrangência da relação entre a arte e a política. Syntia apresenta uma leitura sobre as tragédias de Shakespeare tomando algumas das suas principais personagens femininas; enquanto Luis Fernando e Silvia Helena fazem uma análise do artista plástico Miró propondo um interessante olhar para a arte e a relação com o contexto em que está inserida. O número termina com a coluna de Dorothea Voegeli Passetti: Arte, arte indígena e liberdade. O texto de Dorothea evidencia a abrangência da arte, capaz de relacionar a cultura e a política e situá-la como exercício da liberdade.

Este número também traz aperfeiçoamentos no projeto gráfico, que esperamos ser do agrado dos leitores. A Aurora procura, desde o seu início, oferecer uma contribuição para o debate que tangencia a arte, a mídia e a política. O tema é estratégico, porque possibilita cercar a condição humana e as formas de organização sociais de diferentes maneiras. O presente número foi editado com o intuito de evidenciar essas abrangências.

 

São Paulo, junho de 2013
Os editores

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Notas sobre a ambiguidade do populismo

por Alê Almeida

O traço mais expressivo da primeira metade do século XX é o autoritarismo e, por conseguinte, a ausência da ideia de um sistema representativo efetivo, o que configurava a sociedade, principalmente aquela apartada das esferas do poder, em uma situação de apatia política. Os objetivos previstos para a República nada mais do que frustraram a população em sua vida prática, a Constituição de 1891, em vigor até 1934, não trouxe praticamente nenhum avanço em questões de direitos sociais, o que teria frustrado a população diante de qualquer sistema político. A cidadania, ou seja, aquilo que pode embasar qualquer reflexão social a fim de medir a participação da população ficou no âmbito do discurso, fazendo com que ela perdesse sua definição ficando assim aberta a qualquer tipo de denominação e função. E é nessa abertura que o populismo encontrou o seu lugar.

A relação entre sociedade e Estado pode ser identificada como uma comunicação cujos idiomas são diferentes e apenas algumas das palavras desses idiomas se correspondem. Temos uma sociedade com demandas diversas e um posicionamento do Estado que não consegue atender a todas, deste modo procura aquelas palavras compreensíveis e carregadas de ideologia para um ou outro setor da sociedade a fim de manter o seu poder. Neste sentido o populismo tem discursos sazonais, “ele” discursa conforme a demanda de cada “classe” mesmo que tais discursos sejam contraditórios.

Quando Weffort afirma que “a manipulação populista é uma relação ambígua, tanto do ponto de vista social como do ponto de vista político”, entendemos que tal afirmação se deve a uma ilusão causada, haveria uma falsa ideia de inclusão e de participação social e política, pois os discursos não estavam pautados por objetivos efetivos, mas sim pela manutenção da figura carismática que os proferia. A ideologia que fundamentava os discursos populistas relacionados com o histórico nacional, tornava-os contraditórios, esvaziando a política e os seus atores, fazendo com que ambos fossem algo a ser construído, construído exclusivamente pela mão do líder populista que a cada passo dessa “construção” fortaleceria seu poder e a sua imagem.

As definições dos objetivos do Estado e da cidadania, uma vez esvaziados, foram construídas na era Vargas com seu principal instrumento político, o populismo. O Estado passa a ter como objetivos a modernização e neste sentido a cidadania passa a ser o trabalho, a construção da nação se daria pelo direcionamento do Estado a partir dos braços da população, um diálogo entre modernização e trabalho interpretados pelas figuras do Estado e do cidadão. Questões sociais e políticas não se fazem necessárias neste cenário, tratava-se de uma missão nacional, é possível entender o sentido dessa missão nas palavras de Oliveira Vianna: “liberdade e democracia não são os únicos bens do mundo; como a civilização e a nacionalidade” (BARRETO e PAIM, 1989: 443).

A existência do populismo seria uma consequência da ausência de uma classe média com ideias políticas próprias e de um centro urbano direcionado apenas ao trabalho e à modernização, onde as “classes” não se concretizam, não há posicionamento político em nenhuma esfera da sociedade que não seja aquela já no poder, tratava-se de um vasto campo a ser explorado. A inclusão da massa trabalhadora na política, através da ideia de cidadania orientada para o trabalho com status de direito social, traria a ela sensações e não a prática da política. A ideia de classe foi apenas uma ideia, pois as classes não existiam de fato, foram tomadas como tal e denominadas como “a classe trabalhadora” para a sua manipulação política de modo a garantir o prestígio do governo populista. O que estava em jogo, na realidade, era gerar expectativas individuais, por conta de demandas individuais, o espírito de nação ainda estaria por vir e se viesse seria pela mesma mão do populismo.

O populismo encontrou sua legitimidade na carência do Estado enquanto instituição, toda manipulação social e política teve como fim ideológico a construção da nação brasileira, bem como, o reforma da identidade nacional, no entanto a sua prática fomentou o fortalecimento da dificuldade em encontrar uma separação entre figura pública e figura privada, o Estado não buscava, do ponto de vista social, o seu fortalecimento enquanto instituição, mas a personificação do chefe de Estado em árbitro da nação.

Se do ponto de vista da modernização do aparelho de Estado e da indústria encontramos avanços no período em que o populismo teve o seu auge, por outro lado tivemos o agravamento da consciência política e social, a manipulação de ambos fez com que eles perdessem a sua razão de ser, não precisariam ser, essa função foi dada ao Estado por ele mesmo.

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Notas sobre Coronelismo no Brasil

por Alê Almeida

Tomando a História como um processo que dialoga com conjunturas específicas, situamos o Brasil, em sua nascente, como um território destinado à extração de recursos para o abastecimento do comércio exterior, sendo assim, suas estruturais sociais, políticas e econômicas eram reduzidas ao mínimo, as que existiam eram as suficientes para manter o “sentido da colonização” o que posteriormente fora convertido em estruturas que fortalecessem poderes locais, que tinham em si o transbordamento da ordem privada na ordem pública na qual o patrimonialismo e o estamento eram os instrumentos principais para a formação cultural e cristalização de suas respectivas ordens sociais, econômicas e políticas. Salvo o evento de uma revolução, o que não foi o nosso caso, não há possibilidades, em um processo histórico, de transformações radicais em uma sociedade, sugerimos que há uma continuidade de ações que sofrem pequenas adaptações dadas as novas conjunturas, aqui, a que se apresenta é a República, que ainda tem em si o autoritarismo e a econômica – ou recursos financeiros -, como fatores globalizantes da sociedade brasileira. Assim, temos como principais fenômenos da República a oligarquia e coronelismo, ambos apresentam-se como desdobramentos da formação social do Brasil, ou seja, um governo de poucos com o império da força, da capacidade financeira e do interesse particular.

Na passagem do século XIX para o século XX, a sociedade brasileira ainda vivia sob uma estrutura rural, vinculada à produção agrícola de caráter latifundiário, o período que antecede a República fora marcado por instabilidade política, a parte dos militares contrários à permanência do sistema imperial, abriu brechas para a criação da Guarda Nacional, que distribuiu títulos de coronéis aos latifundiários que por sua influência local formavam seu próprio “exército”, uma espécie de milícia, composta por pessoas de sua confiança que dialogassem com seus interesses, deste modo os latifundiários ganhavam prestígio em suas regiões, ampliando sua participação no jogo político e na ordem social. Podemos entender que a construção do sistema republicano reconstruiu a ordem privada na figura do coronel, que ainda transbordava para a ordem pública, deformando o Estado previsto para uma República. O coronelismo se configura, neste sistema, como um conglomerado de interesses privados que representariam os interesses daqueles que estavam sob seus mandos, ou dependentes econômicos, fortalecendo poderes regionais, ou seja, uma representatividade distorcida daquela idealizada por uma República, porém que a implicaria sobremaneira, pois o coronel tinha sob seu domínio mais do que massa humana, tinha uma massa de votos. A base da relação entre o coronelismo e o Estado é o compromisso, uma relação de troca, na qual o primeiro tem os votos necessários para a permanência de elites no poder oficial e o segundo de benesses que fortalecem tais elites. A força dos coronéis estava nas condições precárias de vida da população rural, estas não tinham consciência de seus direitos, nem mesmo um posicionamento político, as necessidades dessa população estavam naquelas de ordem básica como alimentação e moradia, sendo assim a única figura a quem era devido respeito e obediência era o coronel, pois este supria tais necessidades de modo que qualquer mando era obedecido.

Retomando a ideia de vincular a História e seus fenômenos sociais a uma questão de processo e conjuntura, percebemos que a nascente República, enquanto ação prática e sem recorrer a juízos de valor, não tinha condições de romper definitivamente com a ordem coronelista e seu distorcido sistema representativo. Os chefes políticos “oficiais” apresentavam-se mais como figuras decorativas, as ações de fato eram tomadas pelos coronéis, no entanto o Estado começa a ampliar o seus horizontes. Somada a esta ampliação temos a história reescrevendo-se a si mesma, as crises econômicas tornam muitas fazendas decadentes, aquele caráter exclusivo de exploração da terra, manifestado pelo latifúndio, começa a esgota-se em si mesmo, os crescentes centros urbanos necessitam de itens de subsistência que as grandes lavouras de café, açúcar e algodão não davam conta, temos assim a formação de pequenas propriedades que embora ainda estivem de alguma maneira vinculadas aos domínios do coronelismo, começavam a despontar novas ideias em seus pequenos produtores que foram potencializadas pela mão de obra imigrante e pelo advento do rádio. As dificuldades daquela população de “cabresto” e sua forte dependência, em praticamente todas as esferas da vida, para com os coronéis, ainda configuravam sua existência, mas estavam passando por processos de transformação.

A partir dos anos 1940, já no Estado Novo de Getúlio Vargas que centraliza o Estado e procura privilegiar, ainda que em discurso, os interesses nacionais em detrimento daqueles regionais, são verificadas algumas “traições dos empregados aos fazendeiros”. Ao passo que o Estado amplia o seus poderes, aquela população, ainda que timidamente, também segue esta linha a partir do contato com outras pessoas de outras culturas, passa a ter possibilidades de verificar a diferença e a diversidade, mais itens passam a compor as suas necessidades individuais que estariam além de alimentação e moradia. O progresso previsto para República brasileira coloca novas fontes de informações e possibilidades de locomoção, a ilha de poder regional começa a se fragmentar, pois o isolamento do meio rural que sustentava o poder regional passa a ter suas fronteiras enfraquecidas, o formato dado das relações entre “senhores e servos” agora podem ser ressignificados, a dependência pode ser reavaliada, pois a estrutura econômica e social antes orientada pelos “humores” do coronelismo agora estaria sob os “humores” do Estado.

A ampliação do Estado e a diminuição dos poderes regionais coloca em cheque a relação de reciprocidade entre ambos, aqui o Estado passa a depender menos do poder do coronel, que tinha como moeda de troca uma massa de votos, aquele distorcido sistema representativo que deu condições de manter elites no poder começa a se esvaziar. O poder regional que tratava a política como uma extensão de seu quintal passa a ser ofuscada pela centralização do poder do Estado que, no limite, não necessitava exclusivamente daquele poder, haja visto, que estávamos diante de um sistema autoritário que desconsiderava qualquer forma legítima de representação, agora era este Estado que objetivava dominar todas as esferas da vida social. Os laços entre o Estado e o coronelismo se enfraquecem, novas formas se existência se apresentam com a urbanização e a cultura social dá mais um passo à frente. A lógica do personalismo no poder ainda se mantém, no entanto quem dá o tom deste personalismo é o Estado, não mais os coronéis, pois foi a descentralização política e a desconfiguração do Estado que permitiram a sua existência e o seu coroamento. A ampliação do Estado, de seu respectivo sistema de representação e de instituições políticas tragou a lógica do poder regional de representação, ainda que com alguma ausência de espirito público, o Estado precisava se posicionar. O Estado, enquanto conceito, se posiciona. Nossas estruturas sociais, políticas e econômicas não estão mais reduzidas ao mínimo, elas estão em processo e se desenvolverão de acordo com as conjunturas existentes, aqui o sistema de representação previsto pelo coronelismo, que deu condições para a República fazer a manutenção de seus poderes, por ela foi incorporado, por conta da complexificação da sociedade, no entanto o caráter personalista e particular da representação ainda nos ronda, isso faz parte do processo histórico e é o fortalecimento da legitimidade da representação que transformará a nossa conjuntura mudando o rumo da História.

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Curso de Formação Cidadã – Último dia de Inscrições

lideranças paulistanas

Caros Amigos,

Hoje é o último dia para as inscrições no Curso gratuito de Formação Cidadã. Este curso é dirigido aos alunos do 3º ano do ensino médio de escolas públicas. Trata-se de importante oportunidade para uma reflexão qualificada da dinâmica social, na qual estamos todos inseridos e, portanto, somos seus atores.

Com o apoio da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, em parceria com o Centro Acadêmico Florestan Fernandes (Gestão X de Agosto) e sob a orientação do Prof. Dr. Rafael Araújo, o curso será realizado no mês de junho, das 14h às 16h, na sede da FESPSP, à Rua General Jardim, 522 – Vila Buarque – São Paulo – SP (próximo ao metrô República e Santa Cecília).

Conteúdo Programático:

  • Aula 1 – História das ideias políticas e sociais
  • Aula 2 – História da filosofia e o desenvolvimento do pensamento ocidental
  • Aula 3 – Revolução Industrial e sua influência na sociologia
  • Aula 4 – Cultura e alteridade
  • Aula 5 – Modernidade e introdução ao pensamento marxista
  • Aula 6 – O Brasil no Mundo Atual
  • Aula 7 – Formação do Brasil contemporâneo
  • Aula 8 – Juventude e políticas públicas

As inscrições deverão ser efetuadas até hoje (30/05/2013), através do e-mail raraujo@fespsp.org.br onde deverá constar:

  • Nome completo;
  • Ano de nascimento;
  • Nome da escola em que cursa o terceiro ano do ensino médio; e
  • Telefone para contato.

Contamos com a sua divulgação e participação,

Forte abraço,

Alê Almeida
Lideranças Paulistas – Escolas Públicas
Projeto Lideranças Paulistas – Tem por objetivo contribuir para a formação humanista de líderes, para que possam ter subsídios para um olhar qualificado sobre a dinâmica social.

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Curso de Formação Cidadã na Escola de Sociologia e Política

Caros Amigos,

A Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, criada em 1933, pioneira no ensino e na prática das modernas ciências sociais, orientada para o estudo da realidade brasileira e para a formação de quadros técnicos e dirigentes capazes de atuar no processo de modernização da sociedade, realizará o Curso de Formação Cidadã, no mês de junho, às terças e quintas-feiras, das 14h às 16h, na sede da FESPSP, à Rua General Jardim, 522 – Vila Buarque – São Paulo – SP (próximo ao metrô República e Santa Cecília).

O curso é gratuito e destinado aos alunos do terceiro ano do ensino médio de escolas públicas.

Conteúdo Programático:

  • Aula 1 – História das ideias políticas e sociais
  • Aula 2 – História da filosofia e o desenvolvimento do pensamento ocidental
  • Aula 3 – Revolução Industrial e sua influência na sociologia
  • Aula 4 – Cultura e alteridade
  • Aula 5 – Modernidade e introdução ao pensamento marxista
  • Aula 6 – O Brasil no Mundo Atual
  • Aula 7 – Formação do Brasil contemporâneo
  • Aula 8 – Juventude e políticas públicas

Lembramos que as vagas são limitadas e as inscrições deverão ser efetuadas até o dia 30/05/2013, através do e-mail raraujo@fespsp.org.br onde deverá constar:

  • Nome completo;
  • Ano de nascimento;
  • Nome da escola em que cursa o terceiro ano do ensino médio; e
  • Telefone para contato.

Contamos com a sua divulgação e participação,

Forte abraço,

Alê Almeida
Lideranças Paulistas – Escolas Públicas

 

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Uma abordagem sobre “Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo” de Rosani Cristina Rigamonte, 1996

Adriana Bibini

Alessandra Felix de Almeida

Introdução

Neste trabalho trataremos da pesquisa elaborada por Rosani Cristina Rigamonte, intitulada Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo de 1996. A autora é graduada em Ciências Sociais e Licenciatura Plena pela PUC-SP (1987/88), é mestre em Antropologia Social pela USP (1997), atualmente é professora adjunta e Coordenadora do Departamento de Pedagogia da Fundação de Ensino de Mococa e professora adjunta da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do Rio Pardo, atuando principalmente nos temas: Migrantes, São Paulo, Antropologia Urbana, Lazer e sociabilidade[1]. Rigamonte (2001), para a elaboração da referida pesquisa, utilizou como método a descrição etnográfica, procurando tratar das práticas de lazer e sociabilidade dos migrantes nordestinos no contexto da metrópole paulistana através de inventários locais (RIGAMONTE, 2001: 239) e para sua análise utilizou os conceitos redes de comunicação e relação previstos pela Escola de Manchester e ainda as categorias mancha e pedaço desenvolvidas por Magnani (1992), em sua análise também é possível identificar a categoria circuito desenvolvida pelo referido autor em 2002.

Neste trabalho, além de oferecer um panorama geral da pesquisa de Rigamonte (1996), queremos destacar a utilização de métodos e categorias desenvolvidos por outros autores e estudiosos de linhas de pesquisas que dialogam com temas que nos interessam, sua utilização se apresenta como importantes instrumentos que nos auxiliam no desenvolvimento e ordenação de nossas hipóteses e perguntas de pesquisas, proporcionando um caráter científico aos nossos trabalhos.

Aspetos gerais

O texto trata da pesquisa desenvolvida por Rigamonte (1996) em seu Mestrado na área de Antropologia Social do Departamento de Antropologia da FFLCH-USP (RIGAMONTE, 1996: 233), cujo objeto é a presença da população nordestina na cidade de São Paulo. Neste sentido, a autora procura responder às questões: Quais são as marcas dessa presença cultural [dos nordestinos em São Paulo] hoje na cidade? Apresenta mudanças significativas com relação às primeiras formas? Interage com outras modalidades e instituições características da metrópole contemporânea? (RIGAMONTE, 1996: 233).

A análise se deu a partir de uma etnografia realizada pela autora, através de inventários locais (RIGAMONTE, 1996: 239), que trata de práticas de lazer e sociabilidade dos migrantes nordestinos no contexto da metrópole paulistana. A pesquisa utilizou as categorias redes de comunicação e relação; mancha e pedaço cunhadas por Magnani em 1992. No entanto, em 2002, o mesmo autor incorporou a categoria “circuito” aos seus estudos de etnografia urbana e esta categoria também pode ser utilizada na análise do trabalho apresentado por Rigamonte, como sugere o próprio Magnani (2002):

Rosani Rigamonte (2001) mostrou que a cultura nordestina na cidade de São Paulo se apoia num circuito que inclui não apenas as conhecidas Casas do Norte e os forrós tradicionais, mas também pequenas cidades do interior baiano como Piripá, Barrinha, Condeúba, as quais, entre outras, recebem considerável revoada de nordestinos já morando em São Paulo por ocasião das festas juninas. Sua inclusão no circuito não se dá como uma referência distante e nostálgica, mas como pólo efetivo num sistema de trocas de longo alcance (MAGNANI, 2002: 24).

Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo, Rosani Rigamonte

A diversidade da cultura humana está atrás de nós, à nossa volta e à nossa frente. A única exigência que podemos fazer valer a seu respeito (exigências que cria para cada indivíduo deveres correspondentes) é que ela se realize sob formas em que cada um seja uma contribuição para a maior generosidade das outras (LÉVI-STRAUSS, 1989: 98).

A autora inicia o texto declarando São Paulo como a maior cidade nordestina do país, defende que a sua presença na cidade teve um importante impacto no processo de desenvolvimento, tanto urbano quanto industrial, além de exercer uma influência cultural. A autora também não deixa de fazer menção à manifestação de preconceito que os “baianos” recebem.

O peso do contingente migratório originário do Norte e Nordeste na população da cidade, sua participação como mão de obra no processo de desenvolvimento urbano e industrial e a influência da cultura típica daquelas regiões – não obstante os surtos de preconceito contra os “baianos” – constituem realidade indiscutível (RIGAMONTE, 1996: 233).

O texto busca responder às questões mencionadas, problematizando a presença do povo nordestino na vida cotidiana da cidade de São Paulo, sua forma de interação, pertencimento e presença. Para tanto, os objetos observados para responder às questões e respectivas problematizações foram:

  • Forró do Severino;
  • A Praça Silvio Romero; e
  • Centro de Tradições Nordestinas (CTN)

O Forró do Severino

No início do texto a autora reúne e dispõe sua análise utilizando-se de um código comum para caracterizar e reforçar os vínculos nordestinos, o forró. Entretanto a análise não é edificada em qualquer forró, mas particularmente no Forró do Severino, um migrante nordestino.

O Senhor Severino José da Silva, analfabeto, saiu de Itorá, interior de Pernambuco, em 1948 aos 16 anos e passou a residir em Recife buscando melhores condições de vida. Sua história segue para o Rio de Janeiro e em 1960 chega à cidade de São Paulo. O Senhor Severino foi proprietário do salão de baile onde a atração principal era o forró. Este, localizado na Favela da Vila Prudente, zona Leste da cidade de São Paulo, tinha o propósito inicial de promover comemorações de família. O local foi aberto ao público e o número de frequentadores foi tão expressivo que o local original não tinha mais condições de atender ao público, o Forró do Severino sofreu uma progressiva mudança e devido ao seu sucesso o salão chegou a preencher um espaço de quase dez mil metros quadrados, o equivalente a dez ou onze barracos conforme citação no texto.  O Forró do Severino ficou claramente demarcado por frequentadores que se reconheciam pelo modelo de vida semelhante, um local de sociabilidade onde o uso de códigos comuns reforçava o vínculo entre os que ali frequentavam. Conforme descreve a autora, o território foi demarcado por uma rede específica de relações, entre conhecidos e conterrâneos nordestinos.

Em paralelo, a cidade de São Paulo crescia, atingia elevados números populacionais e consequentemente as mudanças urbanas refletiam no salão de baile. Tal situação resultaria em uma dificuldade em ministrar o empreendimento devido ao seu tamanho, o auxílio dos filhos, esposa, noras e genros, para dar continuidade na administração do local, já não eram suficientes. Por este motivo, em 1984, O Forró do Severino encerra suas atividades, tendo atuado por mais de catorze anos sustentando um laço de sociabilidade, previamente com familiares e frequentadores nordestinos, e posteriormente atendendo um público variado.

A categoria “pedaço” no contexto da pesquisa

Conforme descrito por Magnani (1992), a noção de pedaço, teria surgido em uma pesquisa desenvolvida pelo autor relativa às “formas de cultura popular e modalidades de lazer que ocupam o tempo livre dos trabalhadores, nos bairros da periferia de São Paulo” (MAGNANI, 1992: 192), portanto, em diálogo com a pesquisa de Rigamonte (1996) que também observou um espaço destinado ao lazer. A noção de espaço que recebeu o atributo de categoria é definida por:

uma ordem espacial, físico, sobre o qual se estendia uma determinada rede de relações. […] configurava um território claramente demarcado: o telefone público, a padaria […] o terminal da linha de ônibus […], e outros pontos mais delineavam seu entorno (MAGNANI, 1992: 193).

No entanto, os equipamentos citados que definem as fronteiras do pedaço também constituem um “lugar de passagem e encontro”, de modo que para “ser do pedaço”, não basta que o indivíduo passe por este território ou o frequente esporadicamente, é necessário que ele esteja situado “numa peculiar rede de relações que combina laços de parentesco, vizinhança, procedência, vínculos definidos por participação em atividades comunitárias e desportivas etc.” (MAGNANI, 1992: 193).

Assim, o Forró do Severino que, nos termos de Magnani (1992), configurava um pedaço, um pedaço tradicional, passou a incorporar a paisagem da metrópole que utilizou da cultura e dos símbolos daquele pedaço, como produtos para consumo de massa, de modo que as condições que lhe atribuíam a categoria pedaço foram esvaziadas. A autora procura expor a maneira pela qual o tradicional dialoga com o moderno na cidade, as escalas de relações sociais que sofrem alterações devido ao crescimento urbano. O pedaço tradicional, concentrado em propagar laços culturais, através de redes de parentesco, vizinhança, procedência, ou seja, relações próximas, passou a ser incorporado pela metrópole transformando este em um local de consumo para um amplo grupo e não mais para um grupo específico, deste modo o Senhor Severino reformulou o seu Forró, firmando uma sociedade para um novo Salão de Baile, agora situado no Bairro da Vila Alpina. Assim, aquelas características do pedaço tradicional também passaram por transformações, as redes específicas de relações limitadas às fronteiras do bairro, foram ampliadas para fora dele, configurando assim e nos termos de Magnani (1992), o pedaço no centro. No entanto, o Forró do Severino também não resistiu a essa nova configuração, encerrando definitivamente suas atividades. Sugerimos que esse encerramento se deu em decorrência do propósito inicial que era o fortalecimento do pedaço tradicional que diante da expansão da cidade acabou se perdendo, podemos verificar essa “frustração” nas palavras no próprio senhor Severino:

O que eu queria era uma festa pra gente se sentir em casa, pra dançar e se divertir como era na nossa terra, depois que tudo mudou, eu mudei também. Do jeito que tinha de ser eu não queria mais. […] Era muito bom, tenho muita saudades, mas já não era mais pra mim, o que eu queria eu já tinha conquistado, pra continuar tinha que mudar. Fechei o forró na favela e entrei de sócio em um salão de baile, na vila Alpina. Era diferente, fiquei mais ou menos um ano lá. Num sábado, no meio do salão, teve briga e mataram uma pessoa. Veio polícia e fechou tudo, acabou a festa. Foi aí que eu tive certeza do meu sentimento, aquilo já não era mais pra mim (RIGAMONTE, 1996: 236, 237).

A categoria Manchas e os Nordestinos em São Paulo

A cultura nordestina pode ser reconhecida e é marcada por produtos específicos, locais típicos, espaços de disseminação da tradição do Norte e Nordeste brasileiro, que não são necessariamente partilhados por pessoas que possuem relações que “combinam laços de parentesco, vizinhança, procedência, vínculos definidos por participação em atividades comunitárias e desportivas” etc. (MAGNANI, 1992: 193), o que determinaria o pedaço tradicional. Neste sentido, e nos termos de Magnani (1992), teríamos outra categoria denominada mancha. Seus frequentadores não necessariamente se conhecem “ao menos não por intermédio de vínculos construídos no dia-a-dia do bairro – mas, sim se reconhecem enquanto portadores dos mesmos símbolos que remetem a gostos, orientações, valores” etc. (MAGNANI, 1992: 195). Deste modo, os territórios específicos para propagar atividades que proporcionem o reconhecimento entre seus frequentadores imprimem diversas manchas na cidade, tais manchas podem ser entendidas como “áreas identificadas por seu caráter próprio, cujo inter-relacionamento determina a identidade da área como um todo” (MAGNANI, 1992: 195).

As manchas têm a intenção de disseminação da tradição, símbolos, personagens, enfim, reafirmação da identidade nordestina. Apresentam-se inseridos no espaço urbano, contribuindo para a dinâmica cultural da cidade.  O funcionamento das manchas ocorre da seguinte maneira, conforme cita o texto: a partir do ponto de chegada, ou seja, o desembarque de nordestinos na cidade de São Paulo, uma mancha em seus arredores se forma recriando suas características próprias e demarcando sua cultura, fazendo com que se torne um ponto de referência, conforme exemplo:

Até meados dos anos 70, um dos mais conhecidos pontos de desembarque de nordestinos na cidade era a estação ferroviária Roosevelt, localizado próximo ao lago da Concórdia, no bairro do Brás. As imediações do local se adaptaram para receber os novos habitantes que chegavam no famoso “trem baiano”; logo proliferaram as pensões, casas de produtos típicos, bancas com folhetos de cordel. O antigo terminal rodoviário da Luz recebeu, até 1978, os migrantes que chegaram à cidade de ônibus. Nas imediações da estação da Luz também se formou um ativo e complexo centro comercial popular marcado pelos hábitos, gostos e produtos nordestinos (RIGAMONTE, 1996: 239).

Tal característica se repete em 1982 com a inauguração do novo terminal rodoviário Tietê, ou seja, um novo ponto de chegada recebe uma nova mancha naquele espaço. As manchas não são somente demarcadas nos locais de chegada e partida da cidade, como estações ferroviárias e terminais de ônibus, mas locais com facilidade de acesso onde proporcione o encontro e a disseminação da tradição do Norte e Nordeste brasileiro, como o caso da Praça da Sé, ponto central e de grande fluxo na cidade de São Paulo.

Dentre as manchas citadas no texto, a autora aborda os dois locais considerados os mais tradicionais que são a Praça Silvio Romero, situada no bairro do Tatuapé, Zona Leste da capital e o Centro de Tradições Nordestinas – CTN, no Bairro do Limão, Zona Norte.

A observação da Praça Silvio Romero e do CTN, possibilitou a elaboração de um quadro de oposições (RIGAMONTE, 1996: 240):

  1. Milhares de pessoas X local para um grupo restrito e identificado pelo local de origem; e
  2. Utilização de equipamentos de comunicação de massa X utilização de redes de comunicação informal, o boca-a-boca.

A Praça Silvio Romero

A Praça Silvio Romero, conhecida pelos encontros matinais de domingo, é dedicada, em período específico, a trocas de informações entre nordestinos residentes na capital e seus parentes no interior do Nordeste. O sistema de informação e o contato ocorrem desde os anos 60. Um grupo de amigos, com o objetivo de sanar a dificuldade de transporte rodoviário entre determinadas regiões do interior da Bahia e São Paulo desenvolveram um sistema alternativo de ponte entre os dois pólos utilizando caminhonetas como peruas Kombi que trafegavam no trecho Nordeste – Sudeste.

Seu objetivo era um meio alternativo de trânsito de pessoas e comunicação, os migrantes remetiam encomendas, recados, presente e até dinheiro (baseado em um sistema de confiança, reforçando os laços entre os integrantes daquele grupo). O ponto de encontro para troca destas mercadorias era a Praça Silvio Romero devido à sua localização central na cidade e fácil acesso por meio de transportes públicos. Nos anos 70 o fluxo de pessoas na corrente migratória sofreu uma diminuição refletindo também no sistema de comunicação alternativo. Alguns dos “perueiros” venderam seus veículos e compraram caminhões, pois o fluxo de encomendas era maior que o fluxo de pessoas. Atualmente onze caminhões atendem quinzenalmente este serviço de trânsito de informações. A encomenda mais esperada são as cartas, devido ao fato de os trabalhadores da construção civil, terem dificuldades de obtenção de uma residência fixa, pois habitam onde trabalham, assim, quando a obra termina eles migram para outra obra (mudam de trabalho e de endereço), por isso a carta na Praça Silvio Romero é a maneira mais segura de enviar e receber informações dos familiares, pois devido a precariedade no sistema de postagem no Nordeste Brasileiro, demoraria muito para fazer com que a encomenda chegasse às mãos do destinatário e vice-versa. Segundo informações relatadas no texto, semanalmente recebem-se de 80 a 100 cartas.

À esta forma de utilização da mancha, também pode ser atribuída a categoria circuito cunhada por Magnani (2002). Esta categoria “descreve o exercício de uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma relação de contiguidade espacial, sendo reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais” (MAGNANI, 2002: 23). O circuito também possibilita o exercício da sociabilidade por meio de encontros, comunicação, manejo de códigos de forma mais independente com relação ao espaço, é nesta sociabilidade que a Praça Silvio Romero faz uma ligação com o Nordeste e vice-versa. E esta prática pode ser identificada na pesquisa de Rigamonte (1996) embora o termo tenha sido desenvolvido em 2002.

Em princípio, faz parte do circuito a totalidade dos equipamentos que concorrem para a oferta de tal ou qual bem ou serviço, ou para o exercício de determinada prática, mas alguns deles acabam sendo reconhecidos como ponto de referência e de sustentação à atividade (MAGNANI, 2002: 24)

O Centro de Tradições Nordestinas – CTN

Fundado em 1991, tem o objetivo de tornar-se, além de ponto de encontro da comunidade nordestina residente em São Paulo, um local de divulgação e preservação da cultura do Nordeste Brasileiro. O CTN possui uma área de vinte e sete mil metros quadrados, tem capacidade de estacionamento para quatrocentos carros e é um local de fácil acesso pela Marginal Tietê. Atende dez restaurantes, nove quiosques que servem comida típica e um palco onde lançou diversos nomes, hoje, populares da música nordestina. Conforme a autora expõe no texto, ao entrar no CTN duas imagens características dão destaque, uma do padre Cicero Romão Batista, padroeiro de Juazeiro do Norte e outra de frei Damião, missionário enviado para atuar no nordeste por volta dos anos 50. No local onde se situa o palco a presença de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, é destacada junto a presença de Lampião, Maria Bonita e por fim, Zumbi, do Quilombo dos Palmares, tais imagens destacam a característica de personagens importantes na cultura nordestina.

Considerações finais de Rosani Rigamonte

A autora conclui que os registros da chegada dos nordestinos na cidade de São Paulo datam há bastante tempo. Seu local de origem era diverso, vinham de Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Bahia, Sergipe, Paraíba, em geral, vinham do Norte, mas quando em São Paulo chegavam eram intitulados de “baianos”. Estes chegaram para atender a crescente necessidade de mão-de-obra devido ao grande crescimento da cidade, gente simples buscando por trabalho simples, classificado também por trabalho de baixa qualificação, o que inferiorizava o seu reconhecimento social. Um povo, uma comunidade de ascendência compartilhada não consegue mudar uma terceira, mas pode acrescentar e adicionar. Entretanto, o choque e incômodo destas diferentes culturas enraizadas pela história e pelo tempo podem surgir, como exemplifica o relato da autora: “Em outubro de 1992, com efeito, num período próximo às eleições para prefeito da cidade de São Paulo, o CTN teve seus muros pichados com a frase ‘Fora nordestinos!’ e com o símbolo nazista (RIGAMONTE, 1996: 248). Tais práticas são pouco frequentes na cidade de São Paulo, mas o preconceito existe e se exerce, ora mais enfaticamente, ora menos, no entanto, o que vale destacar é a considerável participação e importância da cultura nordestina na formação e impressão do povo brasileiro e na estrutura da cidade de São Paulo. Os locais observados demonstram como os nordestinos foram ganhando espaço pela cidade (RIGAMONTE, 2001: 237); demonstram também que o sertão não está imune às “contaminações” que o mercado urbano-industrial pode provocar.

Na medida em que ocorreram transformações e modernizações, tanto no campo, quanto na cidade, pode-se entrever a possibilidade de contato entre ambas as pontas deste processo mediante o ir e vir destes migrantes, que carregam consigo pedaços da cidade e pedaços do sertão, “contaminando” ambos os lados desta rede (RIGAMONTE, 2001: 241).

A análise do Forró do Severino, da Praça Silvio Romero e do CTN apresenta o diálogo entre tradições, modernidade e sociedade urbano-industrial. Os migrantes ressignificam seus referenciais de origem e passam a dar importância também aos gostos e modismo das grandes cidades, isso não significa perda de origem ou identidade, mas sim um movimento de integração (RIGAMONTE, 2001: 241). Os reflexos da contemporaneidade através dos meios de comunicação referem-se às fronteiras enfraquecidas, transformando o meio em que vivemos num universo “globalizado”, o migrante, o campo, a cidade, todos estes referenciais passam por transformações. Há poucas possibilidades de se estar desintegrado ou dissociado deste processo (RIGAMONTE, 2001: 242, 243).

Nem o sertão e nem a metrópole estão livres de serem contagiados pelos reflexos que advêm tanto de um meio como de outro. O campo e a cidade hoje vivem em uma troca e um intercâmbio (RIGAMONTE, 1996: 243).

Influências da Escola de Manchester na pesquisa de Rosani Rigamonte

Rigamonte reconstrói a trajetória do nordestino e sua dimensão relacional na cidade e com seu lugar de origem, com estes dados podemos relacionar a análise dos antropólogos urbanos da Escola de Manchester, pois estes focam suas análises nas redes sociais para explicar o comportamento provocado pelas migrações, trabalho assalariado nas cidades, contradições entre novas regras sociais, tais temas foram recorrentes no grupo. A intenção com a análise era dar conta de explicar a vida social do grupo dos nordestinos, na verdade, um grupo que teria novas dinâmicas no contexto da cidade “grande”. Os antropólogos da Escolar de Manchester documentaram a relação entre a estrutura da rede pessoal e a conduta pessoal em situações baseadas em lutas políticas, conflitos sociais em alguns ambientes, como o ambiente de trabalho. O que nos salta aos olhos no texto de Rigamonte é a forma com que se estruturam as relações sociais do migrante nordestino, na sua trajetória até o momento de sua edificação na cidade de São Paulo. Ou seja, a Escola de Manchester foca no estudo de comunidade e na investigação das redes de apoio social e como estas se constroem. Conforme exemplificada no texto, estas redes são construídas/constituídas por parentes, amigos e vizinhos que proporcionam socialização, informação e ajuda em geral. Do nosso ponto de vista, são estas redes que fortalecem e sustentam os laços sociais, principalmente em situações de migração, proporcionando que os indivíduos se sintam mais seguros (ou menos inseguros) ao terem que interagir em um ambiente que a princípio não lhes é familiar e quiçá em ambientes que não lhes acolham.


Referências Bibliográficas

MAGNANI, José G. Da periferia ao centro: pedaços & trajetos. In: Revista de Antropologia, Vol. 35, pp. 191-203, 1992.

____________________. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana In: Revista Brasileira de Ciências Sociais – RBCS, 17 (49), pp. 11-30, 2002.

RIGAMONTE, Rosani Cristina. Sertanejos contemporâneos: entre a metrópole e o sertão. São Paulo: HUMANITAS/FFLCH/USP: FAPESP, 2001.

____________________. Severinos, Januárias e Raimundos: Notas de uma pesquisa sobre migrantes nordestinos na cidade de São Paulo. In: Na Metrópole: textos de antropologia urbana. José Guilherme C. Magnani, Lilian de Lucca Torres (orgs.). São Paulo: EDUSP/FAPESP, 1996.

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A Virtù e a Fortuna na Geração de 1870: um retrato crítico do pensamento liberal brasileiro segundo a visão de Machado de Assis


Adriana Bibini[1]

Alessandra Felix de Almeida[2]

 

Resumo: O referido trabalho busca avaliar o tema da Geração de 1870, geração esta que se destacou por ser um movimento intelectual responsável pela produção de obras literárias que procuraram interpretar o Brasil. Para fazer alusão à época o grupo optou por examinar o conto Teoria do Medalhão do autor Machado de Assis, onde este, a partir de uma mescla de política, sociedade e letras busca revelar criticamente o pensamento e a conduta da referida geração.

 

Palavras Chaves: Sociedade Brasileira. Geração de 1870. Elite liberal. Virtù e Fortuna. Teoria do Medalhão.

 

1. Introdução

Em Teoria do Medalhão, conto de Machado de Assis (1881), é iluminada a questão da Geração de 1870, onde a crise do Império imprime uma singular interação social. O movimento intelectual formado pela “nova geração” – membros da sociedade brasileira -, ansiava por uma mudança na formação social do país, seus valores, práticas e modus operandi.  Esta geração mostrava seu descontentamento diante da posição marginalizada que certos grupos sociais ocupavam no âmbito político, estes, impostos pela ordem imperial. A intenção da geração, em resposta a tal situação social, era edificar um novo sistema “filosófico” que auxiliasse na composição de uma “luta” contra o status quo imperial, uma crítica à resignação da tradição do Império.

Neste sentido, podemos identificar este novo sistema filosófico como um fator social que poderia ter servido de base para a elaboração do referido conto, sendo assim, tomamos os ensinamentos de Antonio Candido (2010) com a intenção de investigar quais condições sociais que determinaram o objetivo da obra, compreendendo e indicando o seu sentido social e assim, penetrar em seu significado (CANDIDO, 2010, p. 15). Tomamos a literatura como um produto social, utilizá-la para uma reflexão política e cultural de determinada época justifica-se em seu próprio entendimento, ou seja, a obra é constituída por “fatos eminentemente associativos; obras e atitudes que exprimem certas relações dos homens entre si e que tomadas em conjunto, representam uma socialização dos seus impulsos íntimos” (CANDIDO, 2010, p. 147). Para que haja literatura e a sua respectiva comunicação social, é necessário um compartilhamento de experiências e impressões da realidade vivida, “um sistema de valores que enforme a sua produção e dê sentido à sua atividade” (CANDIDO, 2010, p. 147).

Consideramos, no entanto, que penetrar no significado de uma obra apresenta-se como uma tarefa de um profissional da crítica literária e não nos sentimos aptos para esta função, de todo modo, por considerarmos Machado de Assis um dos maiores escritores brasileiros, que soube retratar sua época – relacionando política, cultura, seus atores e seus nuances psicológicos – nos fornecendo um quadro crítico da sociedade, nos arriscaremos a tomar seu conto como referência de investigação da época narrada e de seus atores, segundo a ótica machadiana.

2. Geração de 70 e o Medalhão

A atividade do Medalhão não pode ser compreendida por um ofício braçal ou intelectual, mas sim social, do qual o pagamento é o reconhecimento do indivíduo na sociedade. Deste ofício compõem-se a atividade de estar sempre bem informado, parecer culto, frequentar festas e locais que se fique exposto ao público. A intenção não é a produção intelectual nem monetária, mas sim, estruturar uma condição privilegiada diante da sociedade. Este privilégio poderia ser vivenciado por Janjão que completara 21 anos em 1875, na época da Geração de 70.

Este período foi considerado como um “surto de ideias novas”. Silvio Romero destaca que até 1868 não tínhamos visto uma oposição à atuação da Igreja Católica, bem como a filosofia espiritualista, eclética e católica. As instituições monárquicas também não encontravam uma classe do povo capaz de enfrentá-las. Tudo estava à sombra do manto do príncipe e tudo passa a ser colocado em discussão, as eleições, as instituições policiais, a magistratura e os problemas econômicos. Nesse sentido, o Partido Liberal e o Partido Republicano iniciam suas ações voltadas à defesa da democracia (PAIM; BARRETO, 1989, p. 117).

A mobilização intelectual da Geração de 70 era composta por diversos grupos, como os liberais republicanos, novos liberais, positivistas abolicionistas, federalistas positivistas do Rio Grande do Sul e federalistas científicos de São Paulo, estes, que seriam os intelectuais, reproduziam por meio de texto e contexto histórico, ideias importadas adicionadas a uma criação de pensamento e filosofia nacionais. A intenção em importar ideias não se refere a introduzi-las no Brasil, mas buscar, com estas, equiparar situações sociais, políticas e econômicas considerando que poderíamos ter uma referência para conceber a nossa filosofia nacional. Os intelectuais da referida Geração, não tinham a intenção de efetuar uma produção teórica universal, mas sim de interpretação do Brasil. A maior parte dos temas abordados por estes são os problemas enfrentados pela sociedade brasileira imperial no período de sua da crise de 1870, mais veemente sobre o problema da organização política e o regime de trabalho.

3. Parecer ser para ser

No conto Teoria do Medalhão, publicado em 1881, Machado de Assis nos fornece a sua interpretação do que seria a conduta ideal para se alcançar um bom ofício, sendo este, o ofício de Medalhão, definido usualmente como “aquele que ostenta muitas condecorações; indivíduo sem valor real nem talento nem originalidade, cuja importância ou fama provém da habilidade em imitar ou aproveitar o que já encontra feito” (MICHAELIS, 2013).

O argumento principal desenvolvido por Machado de Assis (1881) no referido conto é a ausência do desenvolvimento de ideias próprias da sociedade da época.  Roberto Schwarz (2008) nos auxilia nesta reflexão em “Ao vencedor as batatas”, quando nos apresenta a expressão da literatura, em que seus autores criticam os comportamentos da elite brasileira. Segundo Schwarz (2008) cada autor ao seu modo, refletia sobre a hipocrisia da tentativa de aplicação das ideias liberais europeias à realidade brasileira, visto que haveria uma disparidade entre teoria e prática, gerando uma “comédia ideológica”, este caráter cômico pode ser percebido na narrativa “exagerada” de Machado de Assis (1881), as abstrações burguesas tanto utilizadas na sociedade, quanto expressadas em a “Teoria do Medalhão” de nada valiam efetivamente diante da conjuntura da época, visto que “éramos um país agrário e independente, dividido em latifúndios, cuja produção dependia do trabalho escravo por um lado e por outro do mercado externo” (SCHWARZ, 2008, p. 12-13), no entanto devemos levar em consideração que o raciocínio está no universo do abstrato e a concretude de nossa realidade tornava a sua inter-relação descompassada, daí a caricatura do Medalhão narrada por Assis (1881), a ideologia liberal passa a fundar-se em aparências, esvaziando assim o seu próprio sentido. Aqui Schwarz (2008) questiona a correspondência dessa aparência, segundo o autor “nada melhor, para dar lustre às pessoas e à sociedade que formam, do que as ideias mais ilustres do tempo, no caso as europeias”, essas ideias seriam “da ordem do relevo social, em detrimento de sua intenção cognitiva e de sistema” (SCHWARZ, 2000, p. 18).

O conto narra o diálogo entre um pai e seu filho quando este, em 1875, atinge a maioridade ao completar vinte e um anos. Este ano nos aponta uma crítica à “Geração de 70”, esta geração posicionava-se contra o Império e aqui devemos ressaltar a posição monarquista de Machado de Assis, neste sentido, sua crítica se justifica. Os representantes desta geração, segundo Ângela Alonso (2002) estavam divididos entre “liberais republicanos”, “novos liberais”, “positivistas abolicionistas” e “federalistas científicos”, e não era a doutrina ou a origem de classe que os unia, mas sim a experiência comum de “marginalização em relação à dominação saquarema”, os conservadores. Esta geração desenvolvia uma literatura enviesada pela política, seus textos de um lado incorporavam teorias estrangeiras de reforma social e, de outro lado, reinterpretavam as leituras nacionais (ALONSO apud NEMI, 2005, p. 124). Nas últimas palavras do conto, Machado de Assis (1881) nos aponta o caráter político do diálogo narrado, quando nos apresenta que “guardadas as proporções […] vale o Príncipe de Machiavelli”.

No capítulo As Razões pelas quais os homens, especialmente os príncipes são louvados ou vituperados da obra O Príncipe, Nicolau Maquiavel (2009) nos apresenta a forma como um príncipe deve proceder para com os amigos e súditos. Maquiavel (2009) aponta que não ignora que muitos já tenham escrito sobre este tema, porém anuncia que suas orientações são úteis para quem sabe entende-las, julgando ser mais conveniente “abordar a verdade efetiva das coisas e não imagina-las. Muitos reconheceram Repúblicas e Monarquias jamais vistas, e de cuja existência real nunca se soube”, haveria muita diferença entre como se vive e como se deveria viver, sendo que quem despreza o que se faz pelo que se deveria fazer acaba por arruinar-se (MAQUIAVEL, 2009, p. 82) e talvez esteja aqui um dos objetivos do diálogo entre o pai e o seu filho Janjão. O pai pretende fornecer ao seu filho orientações que atendam ao seu desejo, o de vê-lo “grande e ilustre, ou pelo menos notável”, colocando-o acima da obscuridade comum. Janjão poderia entrar no parlamento, nas letras ou nas artes, haveria infinitas carreiras possíveis, no entanto, segundo o pai, a vida é uma “enorme loteria” e para se ter alguma vantagem nesta loteria seria prudente, assim como “guardar um pão para a velhice”, desenvolver e conservar qualidades sociais que sustentassem um ofício, garantindo-lhe uma posição notável “para a hipótese de que outros falhem”, este ofício é o Medalhão. Janjão, ou aquele que estivesse empenhado em exercer este “nobre” ofício, teria como princípio o cuidado com as ideias, o ideal seria não as ter, caso as tivesse, seria conveniente “abafa-las aparelhando fortemente o espírito”. Sugerimos que a vida tomada como loteria possa ser vinculada à Fortuna e as qualidades, necessárias para as vantagens nesta loteria, seria a Virtù de Maquiavel (2009). No entanto, como o conto trata de criticar ideias autônomas, valorizando ideias alheias, que consideramos como sendo as liberais europeias, portanto inaplicáveis à conjuntura brasileira, julgamos que o propósito de Maquiavel, que segundo Aldo Fornazieri (2007) era apresentar a forma de um bom governo para um Estado, para uma república, no entanto o Brasil ainda não compreendia ambos, os interesses nacionais estavam no âmbito do particular, de modo que este possível bom governo, também estaria neste universo restrito. Maquiavel (2009) prevê ser impossível a um homem – ao príncipe -, reunir todas as qualidades julgadas boas, assim, é necessário ser cauteloso para não envergonhar-se, pois tal vergonha poderia ocasionar a perda do Estado e caso fosse necessário lançar mão de alguma qualidade julgada como negativa, para que fosse garantido o poder, que o fizesse, pois “se se refletir bem, será fácil perceber que certas qualidades que parecem virtudes levam à ruína, e outras que parecem vícios trazem como resultado o aumento da segurança e do bem-estar” (MAQUIAVEL, 2009, p. 83). Sendo assim, seria neste jogo entre virtudes e vícios que Janjão desenvolveria o seu ofício de Medalhão.

Um Medalhão deve exercitar a leitura de compêndios de retórica, ouvir discursos, jogar dominó ou cartas. Nunca deve andar sozinho, pois a solidão é a “oficina das ideais”, caso lhe falte companhia deve-se mesclar-se aos ociosos, e um bom local para este objetivo seria as livrarias, não pelos livros que lá estão, mas sim pela possibilidade de lá encontrar pessoas com as quais se possa espalhar um boato, contar uma anedota ou uma calúnia, segundo o pai, setenta e cinco por centro dos frequentadores de uma livraria compartilham do mesmo regime e este, exercido em um período de até dois anos é capaz de reduzir o intelecto, portanto fortalecendo o princípio do Medalhão. Deve-se utilizar “fórmulas consagradas pelos anos”, valendo-se de jargões e de figuras expressivas como a “hidra de Lerna, a cabeça de Medusa, as asas de Ícaro”, deve-se ainda utilizar “sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos”, pensando o pensado, jamais deve-se aplicar o pensamento, este deve apenas ser denominado. Quanto à ciência, ela merece atenção, mas deve ser decorada, igualmente não deve ser aplicada, pois assim sempre se manterão novas.  A publicidade deve ser buscada constantemente, “uma notícia traz outra, cinco, dez, vinte”, pondo o Medalhão “ante os olhos do mundo”, seja o oferecimento de um jantar, um leve acidente ou ainda um discurso na sessão inaugural da “União dos Cabelereiros”. A política pode ser visitada pelo Medalhão, no entanto, se de um lado não se deve infringir as regras e obrigações capitais, de outro, pode-se ser de qualquer partido, “liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos”. Caso o Medalhão entre no parlamento, é seu dever ocupar a tribuna, tendo como tema dos discursos, preferencialmente, a metafísica política, esta é “mais fácil e atraente”, apaixona os partidos e o público, “não obriga a pensar e descobrir”, pois “nesse ramo dos acontecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado”, não há a necessidade de nenhuma imaginação, nenhuma filosofia que desencadeie um novo pensamento, é proibido ao Medalhão “chegar a outras conclusões que não sejam as já achadas”.

3. Considerações finais

A superficialidade do intelecto do Medalhão encontra ressonância na pesquisa de Schwarz (2008) na questão do “fingimento”, de se ser o que não era, contribuindo para acentuar a caricaturização daquela elite, assim como o comportamento tinha nuances fictícios, também os tinham as residências,

O fingimento atingia o absurdo: pintavam-se motivos arquitetônicos greco-romanos […] com perfeição de perspectiva e sombreamento, sugerindo uma ambientação neoclássica jamais realizável com as técnicas e materiais disponíveis no local. Em outros, pintavam-se as janelas nas paredes, com vistas sobre ambientes do Rio de Janeiro, ou da Europa, sugerindo um exterior longínquo, certamente diverso do real (SCHWARZ, 2008, p. 23).

 

Assim como o Medalhão deveria, abstratamente, recorrer às máximas do tempo, aqui também concretamente, se recorria ao que era tido como notável e aceito, o que nos faz sugerir que aquela sociedade – aquela geração – que ambicionava o poder, orbitava o universo das aparências, de modo que uma república seria tão aparente quanto sua forma de viver.

Schwarz (2008) nos indica que esta forma de pensar e viver, é fruto de uma incansável colocação e recolocação impróprias de ideias europeias em nossos objetivos nacionais e seriam estas ações as matérias e problemas para a literatura. As ideias liberais eram impraticáveis, sendo “ao mesmo tempo indescartáveis”, não deveríamos “insistir na sua clara falsidade, mais interessante é acompanhar-lhes o movimento, de que ela, a falsidade é parte verdadeira” (SCHWARZ, 2008, p. 26-29).

Uma vez que não pudemos descartar as ideias liberais e por este motivo as aplicamos de maneira falsa, queremos sugerir um ponto a ser iluminado. Se as ideias para a constituição de uma sociedade nos foi “importada” temos como consequência, dentre outras, a ausência de uma burguesia nacional, uma vez que como consta da história a nossa nos foi “cedida”, sofremos também a ausência de uma classe social madura e organizada visando um único objetivo, sugerimos que como resultado temos uma classe média descompassada, da qual não pode apoiar-se nem na burguesia nem na classe social, uma vez que esta é fraca devido ao resultado das ausências, criou-se uma classe média rala, sem presença política e tal situação abre precedente para um Estado dominador. A baixa atuação das classes dificulta a criação de uma ideologia, um caráter nacional, por isso o Estado, representado pela elite, consegue impor ideias que lhe sejam de interesse privado e não público.

Aqui queremos aplicar a esta elite as características do Medalhão e, por conseguinte suas implicações. Sugerimos que o esvaziamento prolongado de ideias próprias enfraquece a criatividade. Esta elite com pretensões burguesas liberais, não teria se desenvolvido intelectualmente no que diz respeito às inovações, “pensamos o pensado”, no limite queremos sugerir que ausência da inovação intelectual pelos protagonistas do poder e, em tese, pelos proprietários dos meios de produção, teria contribuído para o atraso do desenvolvimento nacional e consequentemente nos colocando como dependentes de normas teóricas o que enfraquece o nosso pensamento sobre nós mesmos e ainda, dependentes tecnologicamente o que nos torna consumidores do mundo quando poderíamos ser fornecedores. Esta situação de dependência está presente até os dias de hoje, principalmente na questão tecnológica, o que enfraquece o nosso posicionamento econômico no cenário global. Não consideramos o Medalhão como um ator social que vive hoje entre nós, mas somos seus herdeiros.

 

Referências

ALONSO, Ângela. Ideais em movimento: a Geração de 1870 na crise do Brasil Império. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. 392 p. Resenha de: NEMI, Ana Lúcia Lana. ALONSO, Ângela. Idéias em movimento – A Geração de 1870 na crise do Brasil-Império. Revista Eletrônica Almanack Braziliense, n. 2, p. 123-127, nov. 2005. Disponível em: <http://www.almanack.usp.br/PDFS/2/02_resenha_1.pdf&gt;. Acesso em: 04 abr. 2013.

ASSIS, Machado. Teoria do Medalhão. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1881. 07 p. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000232.pdf&gt;. Acesso em: 04 abr. 2013.

CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 11ª Ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010. 199 p.

FORNAZIERI, Aldo. Maquiavel e o bom governo. 2007. 288 f. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2007. Disponível em: < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8131/tde-25052007-140157/publico/TESE_ALDO_FORNAZIERI.pdf&gt;. Acesso em: abr. 2013.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. 8ª Ed. São Paulo: Martin Claret, 2009. 216 p.

MICHAELIS online. Dicionário. Portal UOL. Disponível em: < http://michaelis.uol.com.br/&gt;. Acesso em: 18 abr. 2013.

PAIM, Antonio; BARRETO, Vicente. Evolução do pensamento político brasileiro. Belo Horizonte; Itatiaia; São Paulo: Editora da USP, 1989. p. 419-460.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. 5ª Ed. São Paulo: Editora 34, 2008. 240 p.

 


[1] Discente do curso de Graduação em Sociologia e Política da FESPSP. E-mail:  bibini.adriana@gmail.com.

[2] Discente do curso de Graduação em Sociologia e Política da FESPSP. E-mail:  alefelixalmeida@gmail.com.

 

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Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

4,329 films were submitted to the 2012 Cannes Film Festival. This blog had 33.000 views in 2012. If each view were a film, this blog would power 8 Film Festivals

Clique aqui para ver o relatório completo

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Artigo: A discriminação dos saberes na manutenção do mito-professor

A DISCRIMINAÇÃO DOS SABERES NA MANUTENÇÃO DO
MITO-PROFESSOR

A construção de uma estética do saber como limitadora do conhecimento e ideologização da relação professor-aluno

Alessandra Felix de Almeida[1] 

RESUMO: Trataremos de uma pesquisa bibliográfica exploratória com o objetivo de analisar uma possível postura de superioridade do professor em relação aos alunos, no que diz respeito à valorização dos saberes que norteiam as suas atividades. Ao percorrer as literaturas brasileiras do século XIX nos deparamos com a figura de um professor distanciado dos alunos, por conta de uma hierarquia, tal figura ganhava proximidade apenas pela violência, tanto física quanto moral. Percebemos assim, a construção de um mito, que por hipótese ainda está entre nós, e da necessidade de sua manutenção para legitimar distinções entre aqueles cujo saber é validado por uma estética acadêmica e aqueles cujo saber “desnormatizado” não tem possibilidades de atribuição de valor no que tange ao desenvolvimento educacional.

Palavras-chave: Relação professor-aluno. Mito educacional. Discriminação de saberes.

1. INTRODUÇÃO

A proposta deste artigo originou-se de uma frase de um professor (doutor na área das Ciências Sociais) quanto à participação dos alunos na elaboração das suas aulas, segundo o professor “os alunos não sabem fazer isso”. Sendo assim, em oposição aos que não sabem, obrigatoriamente há os que sabem, e aqui, estes seriam os professores. Araujo e Schwartzman (2002) apresentam que mesmo diante da precariedade do ensino, comprovada por dados, os professores atribuem importância e eficiência às suas atividades, sendo que qualquer desempenho insatisfatório é de responsabilidade dos próprios educandos. Aquino (2005) avalia este discurso como sendo o mesmo que “dizer que o problema da saúde são as doenças, e o da Justiça, os delitos”, Aquino (2005) atribui a este discurso “a lógica dos mitos”, sendo o maior deles “o de responsabilizar o alunado”. Temos assim um estado de coisas que pressupõe como condição única a submissão, pois o mesmo aluno que não é capaz de aprender, também não é capaz de ensinar: “não sabe fazer isso, nem aquilo”, o professor aparece aqui envolto em uma aura celestial, mitológica e cristalizada em nossa vivência educacional.

Se há uma manutenção dessa forma mitológica do saber e do professor, esta pode ser legitimada, no âmbito da normatização, por um sistema burocrático racional, no entanto há o âmbito das nossas paixões que, nos termos de Foucault (2010), pode ser entendido como um fascismo, não aquele de Hitler ou Mussolini, mas sim “o fascismo que está em todos nós, que persegue nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar essa coisa que nos domina e nos explora” (FOUCAULT, 2010: 105).

2. A PALMATÓRIA DO COSTUME E O MITO QUE LEGITIMA

O compadre expôs, no meio do ruído, o objeto de sua visita, e apresentou o pequeno ao mestre. “Tem muito boa memória, soletra já alguma coisa, não lhe há de dar muito trabalho”, disse com orgulho. “E se mo quiser dar, tenho aqui o remédio, santa férula!” disse o mestre brandindo a palmatória. O compadre sorriu-se, querendo dar a entender que tinha percebido o latim. “É verdade: faz santos até às feras, disse traduzindo. Segunda-feira cá vem, e peço-lhe que não o poupe, disse por fim o compadre despedindo-se”. Procurou pelo menino e já o viu na porta da rua prestes a sair, pois que ali não se julgava muito bem. “Então, menino, sai sem tomar a bênção do mestre?” O menino voltou constrangido, tomou de longe a bênção, e saíram então (ALMEIDA, 1987: 58).

[O professor Policarpo] Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem […]. Na verdade, o mestre fitava-nos […] metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as ideias e as paixões […]. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada no portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, dependurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca (ASSIS, 2001: 33).

“Memória de um Sargento de Milícias” (ALMEIDA, 1987) e “Conto de Escola” (ASSIS, 2001) foram publicados, respectivamente, em 1853 e 1896. Nos trechos reproduzidos acima podemos entender como se apresentava a figura do professor. Nos dois casos é possível perceber dois aspectos de poder disciplinador, o primeiro físico através do recurso da palmatória, e o segundo moral, através do constrangimento e do exercício da força do costume.

Este artigo não tem como objeto uma análise literária, embora a literatura seja um produto social, composta por fatos associativos, onde as obras acabam por expressarem certas relações dos homens entre si, e que, “tomadas em conjunto, representam uma socialização dos seus impulsos íntimos” (CANDIDO, 2010: 29, 147). Assim, ao iniciar este artigo com citações literárias, procurou-se apresentar como a relação professor-aluno se manifesta na comunicação para com os grupos, visto que “toda obra brota de uma confidência, um esforço de pensamento, um assomo da intuição, tornando-se uma ‘expressão’” (CANDIDO, 2010: 147).  Para que haja literatura e a sua respectiva comunicação social, é necessário um compartilhamento de experiências e impressões da realidade vivida, “um sistema de valores que enforme a sua produção e dê sentido à sua atividade” (CANDIDO, 2010: 147). A obra literária traz em si aspectos de integração e diferenciação

A integração é o conjunto de fatores que tendem a acentuar no indivíduo ou no grupo a participação nos valores comuns da sociedade. A diferenciação, ao contrário, é o conjunto dos que tendem a acentuar as peculiaridades, as diferenças existentes em uns e outros. São processos complementares, de que depende a socialização do homem; a arte, igualmente, só pode sobrevier equilibrando, à sua maneira, as duas tendências referidas (CANDIDO, 2010: 33).

Alinhados à análise de Antonio Candido (2010) temos assim, a expressão da interpretação vivida quanto à relação professor-aluno, de modo que para objeto de análise deste artigo tomaremos a referida interpretação como a construção de uma ideologia[2] quanto à figura do professor que parece tomar feições de um mito. Lévi-Strauss (2008) nos apresenta que o valor atribuído a um mito “provém do fato de os eventos que se supõe ocorrer num momento do tempo também formarem uma estrutura permanente, que se refere simultaneamente ao passado, ao presente e ao futuro” (LÉVI-STRAUSS, 2008: 224), no entanto “o mito continua sendo mito enquanto for percebido como tal” (LÉVI-STRAUSS, 2008: 233).

3. A AURA DO DISCURSO

Julio Groppa Aquino (2005), em entrevista à Revista Carta Capital[3], comenta o levantamento realizado quanto ao interesse dos alunos na aprendizagem, publicado no livro “A Escola Vista por Dentro” (2002) de João Batista Araujo e Simon Schwartzman, o referido estudo apontou que 77% dos professores do ensino fundamental público culpam o desinteresse dos alunos pela alta repetência. Em seu comentário, Aquino (2005) apresenta que

é como dizer que o problema da saúde são as doenças, e o da Justiça, os delitos. “Se fôssemos um povo menos criminoso, a Justiça seria melhor. Se fôssemos mais interessados em educação ou, em outras palavras, menos ignorantes, a educação seria melhor.” É a lógica dos mitos. E esse talvez seja o maior deles: o de responsabilizar o alunado. Não faz o mínimo sentido, mas está generalizado não só entre os profissionais da educação, como também na opinião pública, que ratifica esses clichês, esses abusos cometidos contra os jovens (AQUINO, 2005)

O argumento para a elaboração deste artigo teve como fonte a frase de um professor (doutor na área das Ciências Sociais) quanto à participação dos alunos na elaboração das suas aulas, visto que esses alunos, em tese (minha tese) são os protagonistas do ambiente educacional, segundo o professor “os alunos não sabem fazer isso”. Sendo assim, em oposição aos que não sabem, obrigatoriamente há os que sabem, e aqui, estes seriam os professores, exclusivamente eles. A palmatória do século XIX parece ter ficado nas sombras da história, no entanto, o exercício do costume quanto à relação entre alunos e professores ainda nos ronda. Araujo e Schwartzman (2002) revelam em seu estudo que mesmo em face aos dados pessimistas da educação, os professores

gostam do que fazem, e afirmam dedicar muito de seu tempo à escola e à preparação de atividades docentes. Consideram importante e eficiente o que fazem, e acham que deveriam ser muito mais bem remunerados. De modo geral, particularmente nas escolas públicas, os professores consideram como normais muitos comportamentos e expectativas que a sociedade em geral e a literatura sobre escolas eficazes considerariam como desviantes – como as questões relativas a pontualidade, frequência, cumprimento do calendário escolar e programa de ensino, responsabilidade da escola pelo sucesso do aluno, etc (ARAUJO e SCHWARTZMAN, 2002: 63).

A análise de Araujo e Schwartzman (2002) confirmam o comentário de Aquino (2005) quando entendem que se os professores “acreditam que o fracasso depende apenas do aluno e da falta de condição ou da cooperação das famílias, não há razão para se esforçar e cumprir o programa de ensino dentro do ano letivo” (ARAUJO e SCHWARTZMAN, 2002: 106). Assim, o professor aparece envolto em uma aura celestial, mitológica e cristalizada em nossa vivência educacional. Isto posto, podemos entender que um aluno que não é capaz de aprender, também não é capaz de ensinar e muito menos é capaz de dizer o que entende por educação, o que gostaria que fosse a educação, pois afinal “os alunos não sabem fazer isso”.

4. AS REGRAS PARA O SABER, A LEGITIMAÇÃO DO PODER

De acordo com o exposto, sugiro que tomemos a relação professor-aluno como uma relação hierárquica, onde a figura do professor, além de ter em si todo o conhecimento, não se vê com o dever de transmiti-lo e debate-lo, uma vez que, por hipótese, o aluno é quem tem o dever de aprender de acordo com a sua condição de tabula rasa[4] subordinada. A fim de analisar a forma hierárquica, nos conduziremos pelo pensamento de Max Weber (1982) que nos aponta a burocracia como um meio para legitimar e proteger relações hierárquicas, “toda burocracia busca aumentar a superioridade dos que são profissionalmente informados tornando secretos seu conhecimento e intenções: na medida em que pode, oculta seu conhecimento e ação da crítica” (WEBER, 1982: 269). Neste sentido, sugerimos que o exercício da superioridade possa ser pautado pela relação entre saber e poder, sendo que para Foucault (1987)

temos antes que admitir que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder (FOUCAULT, 1987: 31).

Admitamos assim, que a relação de poder constitua um campo de saber, porém, de qual campo de saber estamos falando? Proponho que falemos de um campo de saber que pressupõe aquele que tem valor – o do professor –, e aquele sem valor – o do aluno. O valor da forma de se saber pode ser entendida como regulamentada, racional e portanto burocratizada, que toma feições de dominação e disciplina. Uma forma de se saber tradicional, acadêmica, da ordem do costume, uma gênese mitológica da qual a única coisa que sabemos é que sempre foi assim. Neste sentido, Foucault (2010) nos auxilia com sua análise quanto ao posicionamento dos intelectuais, no prefácio ao “Anti-Édipo”. O autor entende que haveria, durante o período de 1945 a 1965 (este cenário parece estender-se até os dias de hoje), condições para a aceitação de uma verdade escrita, tais condições estavam vinculadas à ética do intelectual, a uma forma correta de pensar e ao estilo correto do discurso (FOUCAULT, 2010: 103), aqui permitamos que a “forma correta de pensar” esteja também vinculada a uma forma correta de saber, de modo que qualquer forma de entendimento, conhecimento e saber que não tenha como forma uma “ética” ou uma estética intelectual não seja merecedora de valor. Foucault (2010) propõe que sejam rompidas as fronteiras dessa forma “correta” de pensar, no entanto, nos chama a atenção para o maior adversário da ruptura dessas fronteiras: o fascismo, não apenas aquele caracterizado pelas ações de Hitler e Mussolini, mas “também o fascismo que está em todos nós, que persegue nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar essa coisa que nos domina e nos explora” (FOUCAULT, 2010: 105).

5. AS CERCAS PROTEGIDAS DO ESCLARECIMENTO

Immanuel Kant (2005) nos pergunta “Que é esclarecimento?”. O autor nos aponta que os homens vivem em um estado de menoridade e este estado o torna incapaz de utilizar o seu entendimento sem a tutela de outro, tal menoridade é tratada como o resultado da falta de decisão e coragem de conduzir-se por si mesmo, assim, se um homem decide, de forma corajosa, utilizar o seu próprio entendimento e deixar a comodidade de ser tutelado, terá acesso ao esclarecimento (KANT, 2005: 1). À primeira vista, podemos considerar que esta análise acaba por reforçar uma falta de vontade humana, a sua covardia, portanto, em diálogo com os mitos que vivenciamos de forma passiva. Assim, podemos nos perguntar: como esclarecer-se sobre si mesmo tendo em vista a força de um mito? Como esclarecer-se sobre si mesmo diante de uma forma estabelecida de saber alimentada pelo amor ao poder de quem nos domina? Kant (2005) nos apresenta que a culpa da menoridade é do próprio homem, a não ser que esta seja por falta de entendimento e este entendimento, normalmente, é normatizado de tal forma que toma caráter de natural, daí a dificuldade de tornar-se esclarecido (KANT, 2005: 1, 2). E é neste ponto que proponho o início de nosso raciocínio acerca da dificuldade de tornar-se esclarecido, em consonância com os sistemas burocráticos analisados por Weber (1982), com a construção de um campo de saber, que pressupõe uma relação entre poder e saber, abordados por Foucault (1987), a percepção dos professores sobre si mesmos, identificada no estudo de Araujo e Schwartzman (2002) e os mitos que orientam a educação, comentados por Aquino (2005), sendo que este último, delimitado no mito do professor, sustenta todo o argumento deste artigo.

6. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Lévi-Strauss (2008), conforme apresentado, entende que “o mito continua sendo mito enquanto for percebido como tal” (LÉVI-STRAUSS, 2008: 233). De acordo com esta afirmativa, podemos supor que a manutenção da figura mitológica do professor, através dele mesmo, seja uma possibilidade para que seja perpetuada a relação de poder entre ele e os alunos, onde o seu conhecimento está inserido em uma ordem hierárquica o que lhe confere status, esse status pode ainda lhe garantir uma benevolência para consigo mesmo quando de um não aproveitamento ou não posicionamento dos alunos diante de suas aulas. O esclarecimento como decorrência do entendimento lhe pertence e pode ser sustentado por todo um aparato burocrático racional que o legitima. Consideremos assim, que a manutenção do mito-professor e a “menoridade” dos alunos sejam as condições necessárias para que a palmatória do século XIX se mantenha no imaginário da educação.

Foi tomado como argumento deste trabalho a frase de um único professor, quanto ao seu posicionamento de superioridade diante dos alunos, a pesquisa de Araujo e Schwartzman (2002) e o comentário de Aquino (2005) reforçam o referido argumento, no entanto, não é possível afirmar, com algum grau de precisão, que todos os professores tenham seus comportamentos conduzidos por um status de superioridade sustentado por um forma “correta” de saber. Sugiro que tomemos por hipótese, que o conhecimento unilateral diminua o repertório dos encontros educacionais, desmobilizando os educandos para o conhecimento do mundo e de si mesmos, pois todo o universo do aluno seria tomado como menor, teríamos assim uma educação orientada por uma forma normatizada e não por uma troca, não por uma relação entre sujeitos da história. Assim, se faz necessário uma pesquisa abrangente que nos mostre se os alunos ainda devem render benção aos mestres que distantes mastigam suas ideias e paixões.

Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por natureza mais excelentes do que estas (ARISTÓTELES, 1991: 4).

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memória de um sargento de milícias. São Paulo: Editora Moderna, 1987.

AQUINO, Julio Groppa. A escola às escuras. 15º Núcleo dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul, 2005. Disponível em http://www.cpers15nucleo.com.br/index.php?id=art1121. Acesso em 22/10/2012.

ARAUJO, João Batista e SCHWARTZMAN, Simon. A escola vista por dentro. Belo Horizonte: Alfa Educativa, 2002.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 4ª Ed., São Paulo: Nova Cultural, 1991 (Coleção Os pensadores).

ASSIS, Machado de. Conto de Escola. In ASSIS, Machado de. Contos. 26ª Ed., São Paulo: Editora Ática, 2001.

CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 11ª Ed., Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 27ª Ed., Petrópolis: Vozes, 1987.

________________. Prefácio ao anti-Édipo. (Introdução a uma vida não fascista).In Ditos e Escritos VI, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

KANT, Immanuel. Resposta a pergunta: Que é esclarecimento?In Textos Seletos, Petrópolis: Editora Vozes: 2005.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

TERUYA, Teresa Kazuko, GOMES, Iara de Oliveira, LUZ, Márcia Gomes Eleutério da, CARVALHO, Aline Monique. As contribuições de John Locke no pensamento educacional contemporâneo. IX Jornada do HISTEDBR (UNICAMP), 2005. Disponível em http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada9/_files/BDxADftT.pdf / http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada9/trabalhos.html.  Acesso em 18/11/2012.

VILLAÇA, Flávio. Efeitos do Espaço sobre o Social na Metrópole Brasileira. In SOUZA, M. Adélia (org.). Metrópole e Globalização. São Paulo: CEDESP, 1999.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1982.


[1] Graduanda (6º semestre) em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

[2] É aquela versão da realidade social desenvolvida pela classe dominante, tendo em vista facilitar a dominação, tornando-a aceitável pelos dominados. Essa versão tende a esconder dos homens o modo real como as relações sociais são produzidas. Por meio da ideologia os homens legitimam as condições sociais de exploração e dominação, fazendo que estas pareçam verdadeiras e justas (VILLAÇA, 1999: 231).

[3] Disponível em http://www.cpers15nucleo.com.br/index.php?id=art1121. Acesso em 22/10/2012.

[4] A teoria da tabula rasa: Desse conceito empirista que nega a existência de ideias inatas surge a formulação de  outro conceito,  no qual  a mente humana  é comparada a uma tabula rasa, ou seja, ela representa um  papel em branco pronto para ser preenchido. Os conhecimentos a serem depositados no papel tratam de uma metáfora aos conhecimentos transmitidos do mestre a seu aluno (TERUYA, GOMES, LUZ e CARVALHO, 2010: 12).

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Necessidade de Pais, Necessidade de Mães

Fichamento: STRATHERN, Marilyn. Necessidade de Pais, Necessidade de Mães. Florianópolis: Revista de Estudos Feministas, vol 3 nº 2, 1995.

A antropóloga Marilyn Strathern desenvolve seu texto tendo como ponto de partida uma polêmica gerada em maio/1991 na Grã-Bretanha, quanto a mulheres que buscavam tratamentos de fertilidade para terem filhos sem passar por relações sexuais, essa polêmica foi denominada como a “Síndrome do Nascimento Virgem” (entendida pelos críticos como anormal, perversa ou um desafio a ordem moral). Segundo a autora é possível comparar este “fenômeno” com relatos etnográficos das Ilhas Trobriand (a concepção não é dependente de relações sexuais) e com a ideia de parentesco euro-americana (relação direta entre o intercurso sexual e a concepção), sendo assim, a partir destas comparações, Strathern nos apresenta reflexões acerca de: “Síndrome do Nascimento Virgem”; “A necessidade de um pai”; “A necessidade de relações sexuais”; “Polêmica do Nascimento Virgem”; “Relacionando através de sexo”; “Relacionando através da paternidade”; e “Gênero uma comparação”.

As tecnologias desenvolvidas neste segmento podem ser encaradas como liberadoras da tradicional relação sexual para gerar filhos, podem ainda representar uma forma de ter filhos sem gerar a parentalidade e é este um ponto de interesse da autora: “como os euro-americanos pensam sobre a formação de relacionamentos íntimos baseados na procriação” (p 306), pois há uma exigência de parentesco para a parentalidade (a criança deve ter dois pais iguais em termos de adoção ou procriação, mas desiguais em termos dos papéis que vão representar, estando claro quem será chamado de pai e mãe e designados conforme o gênero). A questão é que as mulheres que procuram tratamentos de fertilidade com o objetivo de evitar o contato sexual desafiam a “ordem natural”, representando assim uma ameaça a paternidade, no entanto a paternidade, no que diz respeito à criação dos filhos, também não é dependente da relação sexual. Neste sentido, a autora chama a atenção para uma aceitação – construída culturalmente – de o homem desejar uma relação sexual, mas não o filho que dela resulta, em sentido oposto, as mulheres são criticadas por desejar um filho, mas não a relação sexual. A autora se pergunta: Por que o estardalhaço sobre essa “nova” possibilidade feminina? “Uma ‘mãe sem sexo’ seria uma espécie de afronta cultural” (p 326).

O debate sobre a Síndrome do Nascimento Virgem sugere que no que se refere à definição de pais, certamente não separaram procriação de relações de gênero (p 329).

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