Necessidade de Pais, Necessidade de Mães

Fichamento: STRATHERN, Marilyn. Necessidade de Pais, Necessidade de Mães. Florianópolis: Revista de Estudos Feministas, vol 3 nº 2, 1995.

A antropóloga Marilyn Strathern desenvolve seu texto tendo como ponto de partida uma polêmica gerada em maio/1991 na Grã-Bretanha, quanto a mulheres que buscavam tratamentos de fertilidade para terem filhos sem passar por relações sexuais, essa polêmica foi denominada como a “Síndrome do Nascimento Virgem” (entendida pelos críticos como anormal, perversa ou um desafio a ordem moral). Segundo a autora é possível comparar este “fenômeno” com relatos etnográficos das Ilhas Trobriand (a concepção não é dependente de relações sexuais) e com a ideia de parentesco euro-americana (relação direta entre o intercurso sexual e a concepção), sendo assim, a partir destas comparações, Strathern nos apresenta reflexões acerca de: “Síndrome do Nascimento Virgem”; “A necessidade de um pai”; “A necessidade de relações sexuais”; “Polêmica do Nascimento Virgem”; “Relacionando através de sexo”; “Relacionando através da paternidade”; e “Gênero uma comparação”.

As tecnologias desenvolvidas neste segmento podem ser encaradas como liberadoras da tradicional relação sexual para gerar filhos, podem ainda representar uma forma de ter filhos sem gerar a parentalidade e é este um ponto de interesse da autora: “como os euro-americanos pensam sobre a formação de relacionamentos íntimos baseados na procriação” (p 306), pois há uma exigência de parentesco para a parentalidade (a criança deve ter dois pais iguais em termos de adoção ou procriação, mas desiguais em termos dos papéis que vão representar, estando claro quem será chamado de pai e mãe e designados conforme o gênero). A questão é que as mulheres que procuram tratamentos de fertilidade com o objetivo de evitar o contato sexual desafiam a “ordem natural”, representando assim uma ameaça a paternidade, no entanto a paternidade, no que diz respeito à criação dos filhos, também não é dependente da relação sexual. Neste sentido, a autora chama a atenção para uma aceitação – construída culturalmente – de o homem desejar uma relação sexual, mas não o filho que dela resulta, em sentido oposto, as mulheres são criticadas por desejar um filho, mas não a relação sexual. A autora se pergunta: Por que o estardalhaço sobre essa “nova” possibilidade feminina? “Uma ‘mãe sem sexo’ seria uma espécie de afronta cultural” (p 326).

O debate sobre a Síndrome do Nascimento Virgem sugere que no que se refere à definição de pais, certamente não separaram procriação de relações de gênero (p 329).

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Notas: Sociologia Urbana – Metrópole e Globalização “Efeitos do Espaço sobre o social na metrópole brasileira”, Flávio Villaça.

  • Estudos tradicionais: Segregação Social relacionada com o Espaço.
    • A organização do espaço gera a segregação social. Há um vínculo de reciprocidade. O espaço não gera novas classes […] os públicos vivem em espaços separados = segregação.
  • Escola de Chicago: sociedade em competição que influenciam o espaço
  • Abordagem marxista.
  • A transformação social transforma a cidade.
  • O autor recupera a literatura relacionada ao tema para construir a sua contribuição, e ainda faz uma análise de como as cidades são cobertas pelos meios de comunicação que viabilizariam esta  segregação social [pesquisa do autor: avaliando a cobertura que os meios de comunicação davam a cada região da cidade, sem se importar com o conteúdo das matérias, mas sim a quantidade de citações; por hipótese o centro de SP deveria ser mais citado, mas esta região não chegava a 6%, sendo que a sudoeste representava 70%; essa ênfase é cruzada com a quantidade de equipamentos públicos e a renda daquela região = Elite]
  • A sociedade é um corpo ativo que organiza o espaço da cidade.
  • Haveria mecanismos na organização da cidade que permitem avaliar a perpetuação da segregação.

[Comunicação política = área reconhecida nas ciências sociais; a comunicação é importante para se pensar o Estado]

  • As notícias veiculadas contribuem para a elaboração de políticas públicas, o que não é noticiado normalmente não receberá verba pública, mesmo que as ocorrências sejam as mesmas em regiões diferentes [mortes, buracos…] = perpetuação da segregação. A única forma de subverter essa situação é enfrentar a opinião pública, porém um candidato que se posicionar deste modo, corre o risco de não se eleger.
  • A vigilância do povo [democracia participativa] para com o Estado tem como base informações a respeito do Estado, porém as tais informações não correspondem à totalidade da realidade.
  • Descentralização: subprefeituras com organismo e verba próprios o que diminuiria a segregação. Quando Serra assume a prefeitura ele volta a centralizar a cidade, mantendo [retornando] a segregação.
  • Centro expandido: conceito ideológico, serve para apresentar que a elite saiu do centro e foi para a região sudoeste.
  • Este tipo de situação só acontece em países subdesenvolvidos. O autor apresenta um modelo de cidade que será uma cidade com um centro; uma concentração de renda no quadrante centro-oeste; o prefeitura concentrará verba neste quadrante; isso porque o jornal noticia esta área, porque quem assina o jornal é a população dessa área; mesmo o  morador da periferia vota no candidato que apresenta soluções para o que é noticiado [toma-se a parte pelo todo].

[A Erundina tirou a prefeitura do Ibirapuera e colocou no Palácio das Indústrias = isso foi importante; em 2000 temos a lei orgânica para a cidade de SP]

[Filme: Cuando Éramos Ricos]

  • Opção ideológica do governo da cidade: incentivos fiscais em determinadas áreas, por exemplo.

[Critérios da moradia da elite: centro e alto]

  • Segundo o autor, o valor de um espaço é um valor de uso e não de troca. Como se justifica o valor de uma casa [over caro]? O Status.
  • A formação educacional do cidadão contribui para que ele saiba como buscar as informações necessárias para exercer sua responcividade para com o Estado, com os dados reais em mão, tem condições de exercer a democracia participativa, ou seja, participando da elaboração das políticas públicas para a cidade.

[John Tompson – A mídia e a modernidade – livro importante para a Comunicação Política; sua teoria apresenta os seguintes poderes: político; econômico; coercitivo (convencimento através de diversos meios: discurso ou arma); e o mais importante é o poder simbólico – o da mídia; este poder influencia todos os outros]

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Notas: Sociologia Urbana – O Espaço Crítico, Paul Virilio

  • Atribuir sentidos ao espaço é o que caracteriza a cidade: Certau.
  • Os homens fabricam a materialidade da cidade – constroem a cidade: Sennet
  • Virilio: as vivencias são necessárias para a caracterização da cidade, mas há um distanciamento gradativo destas vivencias, por conta da inflação de imagens que se tem da cidade, o que media isso é a tela da TV. Passa-se a ter uma existência de superfície. Na sociedade contemporânea há uma aceleração do tempo, que em Sennet e Certau seria necessário ‘viver’ o tempo.
    • Há aqui uma tensão
      • Problema Político e Sociológico: cidade superexposta impede que os indivíduos sejam seres humanos no que diz respeito a atribuir significados. Com isso se cria um sistema de controle sofisticado, uma espécie de guerra, aquela apresentada por Foucault [guerra como continuação da política]
  • [rever Castoriadis – um dos maiores estudiosos e críticos de Marx – diz  isso está no 4º semestre]
    • O que faltou na obra de Marx foi um debate sobre o imaginário. Para o autor o imaginário é o elemento central do ser humano e por conta disso não poderia ter sido negligenciado por Marx.
      • Para que o mudo real seja debatido é preciso que haja a linguagem [não é possível o pensamento puro, precisamos de nomes, verbos, sentidos…]
      • O imaginário nos relaciona com o real, a partir de um significante [dá ‘forma’ ao signo] e um significado.
      • O mundo é sempre ressignificado, a partir de novas atribuições de sentido.
      • Na relação entre significante e significado surge a instituições, ou seja, ela vem depois do imaginário e assim é construída pelos próprios homens, a partir de um regramento de uma normalização [instituição família: significado + significante + o modus operandi (como funciona) + regra].
        • Quando o imaginário vai para fora da subjetividade, as normas surgem o que gera um modo de existir [modo de existir em diversos contextos, no nosso caso, a metrópole]
          • A partir do meu imaginário atribuo sentidos à cidade; apresento discursos a respeito da cidade [Me mate um bode, por favor!]
  • A partir da superexposição passo a reduzir a minha relação com a cidade, passo a ter relação com simulacros, ou seja, representações da cidade; as regras serão pautadas pelos simulacros, pela tela da TV que seria uma redução do que é a cidade.
  • ‘Dromologia’, ‘dromocultura’ ou uma ‘dromocracia’: conceitos que dizem respeito a uma cultura pautada pela velocidade – que tipo de democracia poderia surgir dessa velocidade a todo custo? [na cultura há uma forma de lidar com as realidades, com seus regramentos construídos em princípio pelo nosso imaginário; todos os conceitos são construídos a partir de nossos imaginários que tem seus imaginários precedentes, mas o homem tem a capacidade de partir do zero]
  • [há significados que estão além da experiência e isso não é levado em consideração por Marx, porque se ele levasse isso em consideração  seu estudo perderia o nível de ciência – Marx é materialista minha nega, não esqueça; só que mesmo com a queda do muro de Berlim, o que acabaria com a tese de Marx, ainda sim, e Castoriadis dá uma chance a tese de marx, os homens possuem seu imaginário e assim poderia pensar outras formas de luta]
  • [função da religião: alienação e possibilita a exploração, isso é a visão de Marx – uma visão causal – no entanto há mais questões relacionadas à religião [o professor está falando de Hegel – tentar ler o livro que você tem em casa, lindeza!] para Castoriadis, para utilizar o marxismo não é preciso utilizar o comunismo [?].
  • Na cidade superexposta e pautada pela velocidade, os indivíduos reagem não ficam babando, e se utilizam da dromocultra/dromocracia [uma manifestação na internet, por exemplo]. Utilizam seu imaginário o que lhe proporciona autonomia, por conta de sua capacidade de pensar, refletir e, portanto resistir às normas. A guerra passa a ser pautada pela velocidade, os indivíduos teriam uma relação de assimetria [não entendi], recheado de interrupções [um cotidiano que pode ser freado: trânsito, guerra] e assim o imaginário é convidado; será recheado também por ocultação [a tela da TV totaliza a cidade e ao mesmo tempo não diz nada sobre a cidade]:
    • Não se se relaciona com a cidade concreta, mas com o que vemos da cidade [na TV]
      • O centro do tempo é o trabalho e o tempo de ócio é o periférico e estará no subúrbio da existência. Essa visão fabrica a tal assimetria.
    • A experiência é necessária para elaborar pensamentos, julgar e resistir. Sem a vivência a cidade passa a ser imaterial, o real estaria no jornal da TV, por exemplo [os fatos são interpretados e ensinados para os telespectadores]

 

Texto:

  • O autor se pergunta sobre a organização da cidade superexposta: esta cidade tem ou não uma fachada? Ideia de fronteira, uma fortificação para a preservação de um mercado [isso é em Weber, aquele primeiro texto].
    • Como isso se daria na era da velocidade? No aeroporto [está no texto] há uma vigilância do trajeto, do movimento = um panóptico sofisticado [?] com o apoio da técnica, que controla o indivíduo enquanto este se movimenta. Há relações em velocidade, portanto superficiais [?], tudo sempre está em movimento na cidade, assim, são menores as chances de relações.
    • Os cidadãos estão sempre em movimento e terão rupturas [trânsito, greve, fechamento de empresas, os acasos, imprevistos e ocultações = organização e desorganização da cidade = a partir da ruptura]
    • Há ou não fachada material na metrópole? Não tem, porque ela não se limita à materialidade, mas à sua imagem [?]
      • Através da comparação com outras imagens [proporcionada pela TV] e isso é cada vez mais difícil, pois a materialidade está cada vez menos presente.
      • Ideias com público e privado perdem parâmetro [o autor recupera o pensamento de Benjamim] isso está no texto.
      • A ideia de proximidade e distância se confundem com as redes sociais [?]
    • Ideia de presente perpétuo [é uma sensação do esquizofrênico]; dificuldade de saber se está ou não na realidade.
  • O problema da mídia é que ela pauta as discussões do cotidiano [poder simbólico – isso para mim é o mais importante.]
  • Mito da caverna: as sombras seriam a TV [a verdade estaria na filosofia – em Platão – para Virilio o pensamento não tem mais condições de se aproximar da verdade; a verdade é a experiência, contrariando o pensamento de Platão; as vivências imagéticas fabricadas na nossa imaginação serão verdadeiras se a matéria prima for o contato real, o mundo sensível]
  • O problema é que lidamos com a cidade através de imagem.

[O contexto do texto é que o centro não é a indústria, mas a informação]

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Notas: Sociologia Urbana – Carne e Pedra, Richard Sennet

  • Análise do aspecto subjetivo da cidade [qualquer coisa].
  • Cada um dos autores faz um recorte quanto a essa subjetividade. Certau tem a questão do descolamento dos indivíduos na cidade, são desenvolvidas técnicas e a atribuição de sentidos à cidade. Ao transitar pela cidade permite um certo grau de interação entre os indivíduos e o espaço. Fatos simbólicos para Certau: se tem uma consideração do espaço que ganha sentido a partir da presença dos indivíduos, a perspectiva de Sennet não é muito diferente disse –> os corpos vão dando forma ao espaço que vai tomando sintonia de acordo com determinado tipo de cultura. O autor percorre pontos da civilização, saindo de Atenas que tem um certo tipo de organização que só era daquela forma porque havia um tipo de relação social; vai até outra organização, a multicultural, com um outro tipo de gente.
    • A relação dos indivíduos e o espaço abriga que estas relações, é o que os autores desta fase do curso abordam

 

Relação da interação com o espaço físico da cidade, que determina a existência social:

  • Sennet escreve este livro com Foucault [uma análise biopolítica da cidade: era intenção de Foucault, mas ele morreu antes de terminar o livro]
    • Hannah Arendt: a vida humana aparecia como:
      • Bios (formas de viver; regras para a vida)
      • Zoé (a vida animal – vida biológica) = são faces de uma única moeda [dois lados inseparáveis]
      • O homem tem:
        • O trabalho –> homo faber –> produtos de durabilidade – relacionado à Bios [vida política/vida do espírito]
        • O labor –> animal laborans –> produtos que vão desaparecer – relacionado à Zoé – relacionado a atividades individuais.
        • A ação –> homo politikós –> ação política  [vida política/vida do espírito]
        • Os homens são providos de bios e zoé e agem no mundo através das atividades acima.
        • A vida do espírito está diretamente relacionado à bios –> forma de viver –> requisita um pensamento cívico –> é a partir das formas de viver que gera a coletivo [?]
        • Zoe à mundo do trabalho à a partir do capitalismo gera as ações individuais, isso o que era periférico na Grécia passa a ser central no capitalismo = falta de cultura cívica/cultura política.
          • Insulamento do indivíduo, com projetos próprios, com atitudes blasé etc., não são ações para a coletividade [processo da modernidade – homo labor sobre o homo politikós]
        • À medida que há o desenvolvimento técnico afinado com o desenvolvimento do capital, há o desenvolvimento da cidade; aqui é preciso controlar a população que vive no mesmo espaço que pode representar um problema político para o Estado à busca do controle a partir da sociedade disciplinar e depois  a passagem para uma sociedade do controle = O CENÁRIO DO TEXTO DE SENNETT.

Manter os indivíduos controlados para a manutenção do capitalismo

  • Falta de pensamento cívico
    • Biopolíticas aplicados aos indivíduos que produzem e consomem [mercadorias descartáveis] = A BIOPOLITICA VALORIZA A ZOÉ.
      • Bio = aqui ela é a Zoé [a biopolítica produz a vida animal]
        • A sociedade do controle produz a vida, mas é a vida de caráter descartável –> a própria vida tem uma função dentro do sistema, não é central.
    • Vida nua: bios e zoé seriam inseparáveis, seriam dois lados de uma mesma moeda; aqui poderia se tirar um lado da moeda, tirar a bios da zoé é a vida nua, é como se a política fosse a roupa, se tira a roupa sobra a zoé, porém esta roupa pode ser devolvida [TaQueParéo… que zona!]

[todos os filósofos políticos modernos colocam o povo como um importante elemento para a democracia e para a divisão dos poderes – a participação do povo é central]

  • Um espaço que não proporciona o convívio/encontro enfraquece o pensamento cívico.
    • Em Atenas o cidadão vivia em função da cidade e na modernidade há o afastamento, cada indivíduo cuida da sua própria vida, assim a consequência é a ausência de cultura política, daí o discurso de que a política é uma merda.
    • Nesta sociedade o máximo que temos é a tolerância e isso é totalmente esvaziado de vínculos e relações sociais.
    • O espaço que será pensado pela arquitetura moderna é controlar o cotidiano dos indivíduos [a partir do século XX] – o espaço condicionaria o cotidiano e isso foi pensado com a melhor das intenções; cidades funcionais [como era em Atenas] formariam uma sociedade cívica.
      • Só não foi levado em consideração o universo simbólico dos indivíduos, as suas vontades, as suas possibilidades de resistência.
  • O modo de pensar, o seu modelo surge condicionado pelo espaço. Descartes está no momento do acúmulo do capital, do iluminismo que reivindica um modo de viver, de pensar e quem muda isso é Locke, que dá utilidade política para os cálculo da liberdade [socorro! Não estou entendendo nada]
    • Não haveria a liberdade absoluta, apenas na Zoé onde não há regramento [sem lei, sem respeito à ‘liberdade’ do outro]

[vou embora \o/]

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Refugiados diante da nova ordem mundial

Fichamento: AGIER, Michel. Refugiados diante da nova ordem mundial. Tempo social vol.18, n.2, pp. 197-215. 2006.

Este artigo começa com a frase “Uma mão que fere, a outra que socorre” apresentando uma análise do desdobrar dos atentados de 11 de setembro: “em 2001, enquanto uma mão soltava sobre o Afeganistão víveres e medicamentos […], a outra despejava bombas americanas, mostrando o espetáculo da mão esquerda do Império”, uma paradoxal associação entre a guerra e o humanitário. O Humanitário norte-americano teria como proposta a sua edificação social e moral, efetivando-se como orientador do mundo, transformando-o em uma única sociedade de controle. O caráter atribuído a esta proposta justificaria a “existência simultânea de um conjunto de guerras, de violências coletivas, de distúrbios e terrores que conduzem as populações civis à morte ou à fuga”, seriam guerras despolitizadas, sem enraizamento social, fazendo refém a população civil (75% das vítimas são civis). Há ainda duas questões que compõem o “humanitário mundial”: a intervenção militar, onde as vítimas são mantidas num mínimo de vida; e o isolamento: os sítios humanitários são afastados dos locais de vida comuns, onde são perdidos os laços sociais, estes sítios podem ser classificados como espaços de exceção (sem direitos), como não-lugares.

Neste artigo são apresentados os exemplos de Bogotá, Luanda (Angola), Sangatte (França), “Tampa”, Nauru, Woomera (Austrália), Campos de Albadaria (Guiné Florestal), Campos de Dadaab (Quênia) e do Campo de Tobanda (Serra Leoa), onde a situação de seus refugiados rompe a continuidade entre o homem e o cidadão.  O espaço dos refugiados é, a princípio, um não-lugar e um vazio no plano sociológico e político, no entanto este espaço é preenchido de relações, que podem ser os lugares da existência política, “os campos de refugiados constituem-se como meios sociais e políticos paralelamente à sua construção material”, sendo uma política da vida. “Os deslocados e refugiados cessam de sê-lo não quando retornam “para suas casas”, mas quando lutam como tais por seu corpo, sua saúde, sua socialização: cessam então de ser as vítimas que a cena humanitária implica para se tornarem os sujeitos de uma cena democrática que eles improvisam nos lugares onde estão”, de modo que a linguagem humanitária é reutilizada ou redirecionada.

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Notas: Sociologia Urbana – Michel Courad

  • Hoje falaremos sobre os aspectos subjetivos da cidade e urbanismo, a fim de compreender o espaço a partir de sua significação e de aspectos subjetivos.
  • A cidade ultrapassa as pessoas, os prédios etc., pensar uma cidade é pensar a relação que os indivíduos têm com ela, que gera o seu aspecto cultural.

Texto:

  • Ao deslocarem-se na cidade, os indivíduos emprestam significados a ela, reformulam a cidade e modificam o espaço, suas subjetividades são alimentadas, os indivíduos inventam e reinventam a cidade.
  • O autor compara o caminhar dos cidadãos à linguística – na medida que os indivíduos transitam pela língua, resulta em significados inéditos, resultando em uma nova materialidade da língua:

Espaço calculado

[arquiteto urbanista]

Racionalidade

Cartesiana

Espaço da cidade

← Significante →

Estrutura da língua [+/- fixa]

Vivências no espaço:

Caracterizam o cotidiano das cidades [cidade como um organismo vivo; é apresentada como língua; há uma maleabilidade pois os indivíduos têm suas subjetividades]

Cotidiano das cidades

← Significado →

Sentidos à cultura

Movimento

Vivência + Significado = Homem –> Simbólico

  • Há um cálculo da cidade [do espaço], porém este cálculo passa por uma resistência, por cota da capacidade dos indivíduos.
  • Situações e vivências alteram os espaços e estes são recalculados para atender à ‘demanda’ das vivências dos homens simbólicos.
    • Estas alterações são pautadas pelo capital [pensar nos grandes cinemas em regiões nobres, sendo que os cinemas de rua são pouco frequentados, estes espaços serão utilizados a favor do capital: prédios, bancos etc].
    • Uma praça cercada por grades por exemplo: o cidadão, morador de rua, pode utilizá-las para estender a roupa.
  • As vivências podem não ser 100% respeitadas: exemplo: uma favela, para urbaniza-la, as ruas têm que ser alargadas, assim algumas pessoas perderão suas casas [não entendi]… sei que as pessoas têm seus cotidianos e quando a favela for urbanizada, os arquitetos procurarão reproduzir aquele cotidiano e as relações sociais [ir à padaria, ser vizinho de fulano, pegar tal ônibus], acho que isso é porque as pessoas costumam vender as casas que ‘ganharam’ e voltam a morar em barracos: APOSTA-SE NA VIVÊNCIA – foi um projeto da Odebrecht na obra do rodoanel, isso foi premiado – procurar referência na internet [acho que isso é importante]
    • Atitudes são tomadas em virtude do espaço.
  • Metáfora do autor: ver a cidade do alto [World Trade Center] a visão do alto permite um totalização da cidade: se vê a cidade inteira, mas não se vê nada; um sentimento de Deus, enquanto metáfora; o cidadão tem uma visão aérea da cidade, sem vínculo, do alto se vê uma sociedade geográfica, sem barulho, ordenada, não se percebe a tensão, estresse, poluição etc.
    • É uma visão de distanciamento da cidade [essa é a proposta do pensamento de Descartes – regras para a direção do espírito: é um livro, eu acho; sujeito e objeto não se misturam, a coisa toda é o distanciamento… não entendi]
      • Quando temos o olhar interno não temos a dimensão da cidade, mas temos contato com a vivência… [estou entendendo], quando se olha de longe, se vê a totalidade, mas não se tem contato com a vivência.
  • A Kiefer é um pintor, fez uma mostra chamada alguma coisa de Lilith; o mito de Lilith é relacionado com a solidão [ela comia os ‘filhos’ para ter os mesmo direitos de adão].
    • Quando quero dominar a cidade, preciso me distanciar dela, para vê-la como um todo.
      • Agora entrou no mito de Dedalus [tem as asas coladas com cera, alguém que está com as asas não pode voar nem alto nem baixo, mas Ícaro tem a ideia da visão de
        Deus, por ver a cidade do alto, chega perto do Sol e suas asas derretem; O sol tem a metáfora da razão: assim a razão tem que ser dosada]

        • Quando o cálculo ultrapassa a vivência, a arquitetura se torna autoritária [arquitetura moderna].

Papel da subjetividade

  • É central, não é possível pensar a cidade sem este aspecto, a subjetividade é extraída das vivências.
    • Existem situações que não podem ser resolvidas com a racionalidade, porque há as vivências; a ideia de uma cidade planejada é para uma cidade imóvel; a metodologia cartesiana pressupõe que as coisas são imóveis. A proposta de um conhecimento de tudo, verdadeiro e preciso é um pensamento de Deus [o autor faz uma referência ao panóptico], uma visão do alto, esta é uma metáfora divina.
      • O conceito de cidade precisa ser pensado. É preciso uma racionalidade, mas é preciso um conhecimento da racionalidade do espaço em conjunto com o conhecimento da vivencia e da autonomia das pessoas que se deslocam na cidade. A racionalidade no pensar a cidade deve ser moderada.
        • Sempre que há a intenção de um controle haverá uma resistência a partir da vivência [isso aconteceu com a arquitetura moderna que pretendeu organizar a vida das pessoas, porém as pessoas adaptaram aquele espaço ao seu gosto – a fachada de vidro foi tampada por uma cortina, por exemplo]
        • O conceito de cidade do autor pressupõe que ela é um sujeito e é autônoma. Uma tentativa de controle é sempre incompleta.
        • Um modo cartesiano de pensar a cidade é simplificar a sua vivência. OLHANDO DE CIMA ESTARIA TUDO CERTO. [pensar que quando Deus mandou Jesus, ele tinha uma visão de cima, assim Jesus se deu muito mal]; não se pode dominar o que não se conhece, a cidade por ser uma soma de subjetividades impossibilita um conhecimento total [isso é tão legal], o projeto totalitário está previsto apenas no pensamento cartesiano, ninguém pode ser Deus [acho que o plano de Descartes, que queria ser médico, queria fazer do homem um Deus] Ler o início do Leviatã, lá Hobbes produz um Deus [Estado] artificial, lembrar que Hobbes foi leitor de Descartes.
  • A vivência da cidade é associada à linguística, no sentido de novas palavras, novos significados, gírias, que se dão com a necessidade, o espaço da cidade se modificaria mais ou menos desta forma.
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O lugar da prisão na nova administração da pobreza

Fichamento: WACQUANT, Loïc. O lugar da prisão na nova administração da pobreza. Novos estud. – CEBRAP, n.80 pp. 9-19, 2008.

O autor realiza seu estudo analisando a sociedade norte-americana após o ano de 1970, concluindo que aquela sociedade é cinco vezes mais punitiva hoje do que há 25 anos. A partir do pretexto de uma “guerra contra o crime”, faz do complexo penitenciário um administrador da pobreza, fornecendo ainda, indivíduos desqualificados (ex-presidiários) para o mercado de trabalho, portanto sem condições para pleitear condições dignas e reconhecidas financeiramente neste âmbito, ademais, este novo papel da penitenciária reproduz e consolida o racismo, o colapso dos guetos urbanos e facilita o crescimento da economia informal e de empregos abaixo da linha de pobreza, onde estes trabalhadores carecem de laços sociais e direitos jurídicos.

Entre 1980 e 2000 o número de detentos foi quadruplicado, os EUA aumentaram seus orçamentos penitenciários em US$ 50 bilhões e acrescentaram 500 mil novos funcionários, de modo que este alto crescimento do estado penal norte-americano apresenta a implementação de uma política de criminalização da pobreza, ajudando a  “fluidificar” o setor de empregos mal remunerados e reduzindo de maneira artificial a taxa de desemprego. Segundo o autor “o encarceramento é apenas a manifestação paroxística da lógica da exclusão etnorracial da qual o gueto tem sido instrumento e produto desde a sua origem histórica”.

Este novo setor econômico denominado “complexo industrial prisional” possui características que solicitam atenção: gestão do trabalho não-regulamentado, hierarquia etnorracial e a marginalidade urbana nos Estados Unidos, que revelam um “Estado reformado capaz de impor requerimentos econômicos e morais adstringentes do neoliberalismo”. Diante desta hipótese o autor sugere que “tiremos a prisão dos domínios técnicos da criminologia e da política criminal e a coloquemos diretamente no centro da sociologia política e das ações civis”.

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O Estado de Exceção como Paradigma de Governo

Fichamento: AGABEM, Giorgio. “O Estado de Exceção como Paradigma de Governo” In Homo Sacer II. Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo Editoral, 2004.

Giorgio Agabem procura mostrar neste capítulo a utilização do estado de exceção como um mecanismo de poder que se exerce segundo uma justificativa de proteção do povo, assim como utilizou o Estado Nazista. Modernamente, inclusive em países de regime democrático, pode ser chamada de uma guerra civil legal, “um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo”, podendo ser exemplificado, do ponto de vista biopolítico no pós 11 de setembro, pelas medidas estadunidenses com relação aos cidadãos suspeitos de envolvimento em atividades terroristas que por uma “proteção” do povo, suspende os direitos civis e jurídicos dos referidos suspeitos, efetivando-se assim, neste e em demais casos que o Estado julgar necessário, o estado de exceção como uma regra, uma prática duradoura de governo.

O estado de exceção como uma resposta à necessidade, criaria a problematização desta medida estatal, pois a necessidade não tem lei, ela cria a sua própria lei, portanto uma vez que o estado de exceção toma o caráter de necessidade, pode ser interpretado como uma medida ilegal. Segundo o autor, o estado de necessidade justificaria o estado de exceção, porém o termo necessidade não encontra uma definição jurídica que se sustente, de modo que o referido termo é reduzido e são igualmente reduzidas as suas decisões e o que ele decide. Sendo assim, o estado de exceção se instaura a partir da “suspensão do ordenamento vigente para garantir-lhe a existência”, valendo-se de lacunas jurídicas fictícias.

É como se o Direito contivesse uma fratura essencial entre o estabelecimento da norma e sua aplicação e que, em caso extremo, só pudesse ser preenchida pelo estado de exceção, ou seja, criando-se uma área onde essa aplicação é suspensa, mas onde a lei, enquanto tal permanece em vigor.

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O poder soberano e a vida nua

Fichamento: AGAMBEM, Giorgio. “Introdução” In Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

“A politização da vida” intitula a introdução desta obra, onde Giorgio Agambem apresenta a sua intenção de discutir a Biopolítica Moderna conceituada por Michel Foucault como uma “crescente implicação da vida natural do homem nos mecanismos e cálculo de poder”, sendo que esta, a vida, torna-se “a aposta em jogo na política”. A referida Biopolítica teria sido fortemente exercida nos grande Estados totalitários do Novecentos, portanto localizado neste período, coloca no debate a autora Hannah Arendt, estudiosa do tema Totalitarismo, que, segundo o autor, teria percebido a relação entre domínio totalitário e condição de vida, no entanto não teve como perspectiva a questão da Biopolítica como forma de poder. Sendo assim, o autor procurará abordar os pontos de vista de Arendt e Foucault a partir de seu conceito de “vida nua” entendido como o entrelaçamento entre política e vida, sendo que a vida passa a ter um “status” de direito regulamentado e controlado pelo Estado que ecoa nos discursos jurídicos, médicos e sacerdotais.

A Parte III, intitulada “Vida que não merece viver” traz a questão do suicídio, do ponto de vista de Binding (1920), como a “expressão de uma soberania do homem vivente sobre a própria existência”, justificada com “a necessidade de autorizar o aniquilamento da vida indigna de ser vivida” e teria sido a partir desta justificativa que a Biopolítica teria sua primeira articulação política e seria exercida por Hitler no programa da eutanásia. Hitler sabia que se tratava de um programa impopular, no entanto colocado a partir da política, como uma questão humanitária tomava caráter de política pública para o bem daquela nação, conservando assim o seu corpo biopolítico. “Na biopolítica moderna, soberano é aquele que decide sobre o valor ou sobre o desvalor da vida enquanto tal”.

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Notas: Sociologia Urbana – A Questão Urbana, Manuel Castells

  • Ponto de vista marxista sobre a sociologia urbana
  • Abordagem sobre a globalização
  • Aqui é produzida uma avaliação do processo da cidade dentro do debate sobre a globalização.
  • Debate sobre movimentos sociais dentro da sociologia urbana
  • É utilizada a teoria de dependência [crédito à FHC]
  • Luta de classes dentro da cidade: olhar sobre a linha histórica; a cidade é o palco da luta de classes e também o embrião da superação do capital.
  • Castells não tem uma visão determinista assim como Marx, ele analisa alguns elementos constitutivos da obra de Marx [concepção de alienação, a questão da propriedade, etc], assim não há um compromisso com os fins determinado por Marx, a questão de Castells é o processo. Ele está preocupado com a tensão que movimenta a história tendo como elemento central a cidade.
  • Ele é o primeiro autor a teorizar dentro da sociologia a internet, como um fato social a ser estudado [livro: A sociedade em Rede]
    • Império [livro]: seu fim pressupõe a ‘criação’ do Estado-Nação.
      • Na política clássica: UNO à governante [decisão do Estado; um governo que se impõe de maneira Una e está limitado a um território e a uma população. Hoje não há mais esse cenário, a ideia é de multiplicidade, não seria mais um estado-nação que dominaria [os EUA]. O império é a multiplicidade [uma somatória de forças que influenciam a tomada de decisões, isso seria a materialização da sociedade de controle, e nesta sociedade quem é que governa o mundo?]. A soberania não existiria mais esse pensamento já estava em Marx, esse domínio seria exercido pela burguesia.
      • Como pensar a democracia em uma sociedade de controle? A população também não pode ser única, nela haverá também a multiplicidade = A multidão.
    • Multidão [livro]: como canalizar as forças politicas latentes dessa multidão. Com a presença da internet há a possibilidade da organização da multidão que pode ser uma resistência ao império se organizando em rede [em um governo imperialista a resistência só é possível através da guerra]. É preciso que a comunicação da população passe por um canal sem intermediadores [internet].
    • Castells se localiza neste debate quanto à internet. O império ainda é muito poderoso, mas a multidão está em movimentação.
  • A cidade é fruto de um estágio tecnológico, e a maneira como ela se organiza proporcionará resistência [a internet pode ser um instrumento para tanto] 

Immanuel Wallerstein argumento para o fim do capitalismo.

  • Oscilações [curvas] do capitalismo; há fatos históricos que apresentam o ritmo do crescimento e decrescimento do capitalismo.
  • Argumentos: estamos em um momento de crise que começa em 2008. O argumento gira em torno da cidade, esta oferece um custo ao capital; haveria uma imagem fictícia de que a cidade potencializa o capital e a indústria potencializa a cidade.
    • O custo da cidade segue uma linha que só cresce, esta linha anda junto com a curva do capitalismo; quem concentra riqueza é o Estado a partir dos tributos que em parte custearão os custos sociais (o custo da sociedade é crescente) [isso é muito interessante].
      • Com isso não haveria condições de manter o capitalismo, portanto acabaria [?]
        • Acho que o professor concorda com isso [isso foi pauta da reunião de Davos].
  • A lógica da dependência: tem uma relação com a cidade = só existe o rico, porque existe o pobre. Esta lógica da dependência é a lógica da cidade [dependência assimétrica].
    • É dentro do processo de urbanização que se desenha essa relação de dependência assimétrica.
  • A relação de dependência está condicionada pelo contexto: o Brasil comprou caças da França com a condição de que a tecnológica fosse ensinada [a França estava fudida, portanto aceitou]
    • A lógica seria diminuir a dependência: essa foi a base do governo de Lula. A diminuição dessa relação gera resistência, portanto poder.
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